ÍNDICE
 Carta ao leitor

Velocidade: O avanço exponencial da tecnologia

Nanotecnologia: A Lilipute da ciência

Biotecnologia: As pesquisas com células e genes

Entrevista: Judah Folkman

Transgênicos: As vantagens para o consumidor

Vida digital: Serviços proliferam na rede

Entrevista: Vinton Cerf

Entrevista: Tim Berners-Lee

Artigo: Kevin Kelly

Conectividade: A ligação entre as redes sem fio

Neurotecnologia: Próteses controladas pela mente

Robótica: As máquinas ameaçam aprender

Bell Labs: A rede que imita o corpo

Entrevista: Charles Townes

Apple: Modelo de inovação

Perfil: Steve Jobs

Carros: Combustíveis e motores do futuro

Produtos: TVs, pen drives e celulares

Artigo: Michio Kaku

Engenharia: Prédios cada vez mais altos

Artigo: Jaron Lanier

Computação gráfica: O realismo na animação
   
 

CULTURA ARTIGO: JARON LANIER*
Falta um Mozart digital

Os computadores são amplamente usados
para a composição musical, mas suas
possibilidades ainda são muito limitadas

O Vale do Silício, perto de onde moro, na Califórnia, é o primeiro grande centro de poder e de dinheiro na história que não usa sua força para se tornar um lugar mais belo, mais culto ou mesmo mais ritualizado. É um espaço sem vida, cada vez mais feio conforme os anos passam. E isso não se deve ao desenvolvimento industrial – mas, sim, a uma generalizada falta de textura nas coisas. Não há arquitetura; não há tradições interessantes; não há senso de estilo nenhum.

É curioso, mas esse mesmo fenômeno pode ser observado na música. O que vou dizer é extremamente parcial – e tenho curiosidade para saber se as coisas são diferentes no Brasil –, mas a música que ouvimos nos Estados Unidos foi dominada por uma nova forma de composição. Ela é regular demais e avançou pouco desde a chegada das ferramentas de produção digital. O andamento, por exemplo, agora varia de maneira menos interessante e rica do que costumava ocorrer. O ritmo parece ser sempre pautado pelo básico e elementar quatro por quatro.

 

Chip East Cme/Reuters
Roupas eletroacústicas, em performance em Nova York: os ritmos são muito padronizados

Por outro lado, a música foi recheada por todas as fontes imagináveis de som, também como conseqüência da chegada de novos recursos digitais, como o sampler (aparelho que permite copiar trechos de músicas e reciclá-los depois, fartamente usado em composições eletrônicas e por DJs). O que eu temia está acontecendo. As ferramentas que estamos usando para fazer música começam a ter certas idéias embutidas.

É fácil adicionar sons a um editor de música digital, mas é difícil mudar um ritmo. É por isso que digo que nossa música está sendo crescentemente ditada por nossas ferramentas. Obviamente, elas sempre influenciam o que fazemos, mas os recursos digitais têm a péssima qualidade de produzir um resultado desastroso se tudo não estiver absolutamente certo segundo a sua lógica matemática. Logo, parece-me que a qualidade da influência das ferramentas digitais na arte tem um potencial mais frágil do que aquela que encontrávamos em meios antigos como pianos e microfones.

Nos Estados Unidos, o único gênero que emergiu com sucesso desde a introdução dos recursos digitais foi o hip hop. Na verdade, eu acredito que ele use a frágil qualidade da produção digital como uma forma de protesto social. Uma das coisas que está errada com a produção da música digital é que o som gravado no sampler sai sempre igual quando é repetido na música. É por isso que há menos textura no conjunto. Da mesma forma que acontece com o Vale do Silício. Um som se repete de novo e de novo e as únicas emoções reais que podem ser associadas com ele são de frustração e raiva.

Assim, temos uma cultura digital para a qual ainda falta delicadeza. Não há nenhum Tom Jobim digital até agora. Um dia haverá? A resposta não é nem sim nem não. A tecnologia digital, em tese, tem potencial para contribuir para a estética, mas não na forma como a estamos usando. Precisamos achar uma maneira de melhorá-la em muitos níveis para fazê-la menos frágil, mais suave e macia. A pergunta, portanto, não pode ser respondida pela razão, mas somente via engenharia e empirismo. Minha expectativa é que alguns séculos se passarão antes que tenhamos uma resposta. É divertido desfrutar os prazeres e benefícios do mundo digital, mas também é importante não levá-los muito a sério antes que tenhamos completado esse experimento.


*Jaron Lanier é cientista da computação, compositor e artista plástico.

Cunhou o termo "realidade virtual" no início da década de 80 e fundou
uma das primeiras empresas desse ramo

 
   
 
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