 CULTURA
ARTIGO: JARON
LANIER* Falta um Mozart digital Os
computadores são amplamente usados para a composição
musical, mas suas possibilidades ainda são muito limitadas O
Vale do Silício, perto de onde moro, na Califórnia, é o primeiro
grande centro de poder e de dinheiro na história que não usa sua
força para se tornar um lugar mais belo, mais culto ou mesmo mais ritualizado.
É um espaço sem vida, cada vez mais feio conforme os anos passam.
E isso não se deve ao desenvolvimento industrial mas, sim, a uma
generalizada falta de textura nas coisas. Não há arquitetura; não
há tradições interessantes; não há senso de
estilo nenhum. É curioso, mas
esse mesmo fenômeno pode ser observado na música. O que vou dizer
é extremamente parcial e tenho curiosidade para saber se as coisas
são diferentes no Brasil , mas a música que ouvimos nos Estados
Unidos foi dominada por uma nova forma de composição. Ela é
regular demais e avançou pouco desde a chegada das ferramentas de produção
digital. O andamento, por exemplo, agora varia de maneira menos interessante e
rica do que costumava ocorrer. O ritmo parece ser sempre pautado pelo básico
e elementar quatro por quatro. Chip
East Cme/Reuters
 | | Roupas
eletroacústicas, em performance em Nova York: os ritmos são muito padronizados
|
Por outro lado, a música
foi recheada por todas as fontes imagináveis de som, também como
conseqüência da chegada de novos recursos digitais, como o sampler
(aparelho que permite copiar trechos de músicas e reciclá-los depois,
fartamente usado em composições eletrônicas e por DJs). O
que eu temia está acontecendo. As ferramentas que estamos usando para fazer
música começam a ter certas idéias embutidas.
É fácil adicionar sons a um editor de música
digital, mas é difícil mudar um ritmo. É por isso que digo
que nossa música está sendo crescentemente ditada por nossas ferramentas.
Obviamente, elas sempre influenciam o que fazemos, mas os recursos digitais têm
a péssima qualidade de produzir um resultado desastroso se tudo não
estiver absolutamente certo segundo a sua lógica matemática. Logo,
parece-me que a qualidade da influência das ferramentas digitais na arte
tem um potencial mais frágil do que aquela que encontrávamos em
meios antigos como pianos e microfones.
Nos Estados Unidos, o único gênero que emergiu com sucesso desde
a introdução dos recursos digitais foi o hip hop. Na verdade, eu
acredito que ele use a frágil qualidade da produção digital
como uma forma de protesto social. Uma das coisas que está errada com a
produção da música digital é que o som gravado no
sampler sai sempre igual quando é repetido na música. É por
isso que há menos textura no conjunto. Da mesma forma que acontece com
o Vale do Silício. Um som se repete de novo e de novo e as únicas
emoções reais que podem ser associadas com ele são de frustração
e raiva. Assim, temos uma cultura
digital para a qual ainda falta delicadeza. Não há nenhum Tom Jobim
digital até agora. Um dia haverá? A resposta não é
nem sim nem não. A tecnologia digital, em tese, tem potencial para contribuir
para a estética, mas não na forma como a estamos usando. Precisamos
achar uma maneira de melhorá-la em muitos níveis para fazê-la
menos frágil, mais suave e macia. A pergunta, portanto, não pode
ser respondida pela razão, mas somente via engenharia e empirismo. Minha
expectativa é que alguns séculos se passarão antes que tenhamos
uma resposta. É divertido desfrutar os prazeres e benefícios do
mundo digital, mas também é importante não levá-los
muito a sério antes que tenhamos completado esse experimento.
*Jaron Lanier é cientista da computação,
compositor e artista plástico. Cunhou o termo "realidade virtual"
no início da década de 80 e fundou uma das primeiras empresas
desse ramo |