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A revolução do VoIP

Sim, VoIP! Essa sigla veio para ficar. Ela significa "voz via internet", permite fazer ligações pelo computador de graça e ameaça mudar radicalmente a telefonia

Usar a internet como um telefone gratuito parece uma idéia óbvia. Afinal, a rede serve para compartilhar todo tipo de arquivo digital: textos, imagens, músicas. Embora haja bons programas de transmissão de voz há pelo menos meia década, a popularização só ocorreu de um ano para cá, com o surgimento de um software gratuito e realmente simples de usar. O Skype revolucionou a chamada telefonia VoIP (pronuncia-se "vóipe"), da sigla em inglês para "voz por protocolo de internet", a ponto de inquietar as companhias telefônicas.

Aparelho de VoIP: conectado ao telefone comum, permite chamadas pela internet

O Skype e similares permitem que dois usuários conectados à internet conversem de graça, de qualquer distância, com som de boa qualidade, ainda que geralmente inferior à da telefonia convencional. Esses softwares também permitem que se façam chamadas de um computador para um telefone comum. Como esse tipo de ligação precisa passar pela rede telefônica normal, o serviço é pago. Mas os preços tendem a ser inferiores aos de uma ligação em DDD ou DDI.

Além das empresas produtoras desses softwares, outras, incluindo algumas brasileiras, começam a oferecer serviços de telefonia VoIP com aparelhos de telefone comuns. A maioria dos clientes ainda é empresarial. Os hotéis Caesar Park no Brasil passaram a usar neste ano o VoIP para ligações entre si. "Economizamos 30% em interurbanos", diz Ricardo Ramirez, diretor de tecnologia do grupo de hotéis. A TVA (empresa do Grupo Abril, que publica VEJA) anunciou em outubro o serviço Ajato Voz, que deve chegar às residências até o início de 2005. Comprando um equipamento de cerca de 300 reais e pagando uma tarifa mensal, o usuário (que precisa ter TV por assinatura) ganha uma linha telefônica que opera em VoIP. Promete-se uma economia de 50% nas ligações para telefones comuns e de 80% quando a conversa for entre dois aparelhos VoIP. Outras empresas, como a GVT, preparam ofertas do gênero para os próximos meses. "Em cinco anos, 80% das chamadas telefônicas no país serão por VoIP", prevê Mario Leonel Neto, presidente da Primeira Escolha, empresa de telefonia parceira do Ajato Voz.

Equipamento da Ajato Voz: um dos primeiros serviços de VoIP no país

Nesse tipo de serviço, nem é preciso ligar o computador para fazer a chamada: um aparelho de telefone normal, conectado a um equipamento apropriado, digitaliza a voz e a envia pela internet. Uma vez instalado o sistema, o usuário não precisa mais pensar nele: basta tirar o fone do gancho e telefonar. À primeira vista, isso soa como o fim das chamadas interurbanas e internacionais. Mas telefonar pela internet ainda não é tão prático. Há serviços, por exemplo, que só fazem e não recebem chamadas. A tecnologia tem melhorado, mas ainda acontece de o som ficar picotado, devido à qualidade da conexão. Mesmo o software considerado o mais eficiente de todos, o Skype, engasga quando a velocidade do modem é baixa.

 
Hotel carioca da rede Caesar Park (à esq.), que adotou o VoIP, e Zennström, criador do Skype

A economia na conta torna aceitáveis problemas menores e faz crescer o número de usuários de telefonia VoIP. O Skype afirma ter 14 milhões de usuários em todo o planeta. É fácil imaginar a sangria que isso começa a representar no faturamento das companhias telefônicas. Desde 2000, caiu 18% o número de usuários de telefone assinantes das companhias Bell americanas. A reação se divide em várias frentes. Na Europa, algumas decidiram oferecer elas mesmas o serviço de VoIP. O raciocínio é: já que vamos perder receita, que seja para nós mesmas. Condição técnica elas têm. Algumas já usam o VoIP para completar chamadas internacionais, sem repassar a economia ao consumidor. Outra estratégia é fazer lobby por uma "regulamentação" do setor – ou seja, impedir empresas concorrentes de oferecer o serviço ou exigir que elas paguem algo a mais por essa concorrência. No Brasil, quem regulamenta o setor é a Agência Nacional de Telecomunicações, que por ora não se mexeu. "O VoIP traz novas questões regulatórias que precisam ser resolvidas", disse o presidente do Grupo Telefônica no Brasil, Fernando Xavier Ferreira, em uma feira de telecomunicações em Florianópolis, em outubro. Quem oferece VoIP diz que não há nada a regulamentar. "Mercados devem ser regulados quando poucos competidores dominantes abusam do monopólio. Não há competidor monopolista na indústria do VoIP", diz o criador do Skype, Niklas Zennström. "Isso iria contra um dos pilares do mercado, que é a competição", comenta Lúcia Helena Makhlouf, vice-presidente da Transit Telecom, uma das empresas que oferecem o serviço no Brasil. A curto prazo, os usuários de telefonia VoIP não têm o que temer.

 

Passado e futuro da telefonia
Modelos como o da Clone (à esq.), pouco maiores que um celular, completam chamadas pela internet sem que o usuário tenha de se preocupar com instruções complicadas