| | Sorria,
você está no celular Celulares tiram fotos,
câmeras fotográficas tocam música, MP3-players gravam
programas de TV. Isso se chama convergência. Ela oferece soluções mas
cria enorme confusão no mercado Claudio
Rossi
 | | Jurandir
e seus gadgets: sempre o primeiro |
O publicitário
Jurandir Craveiro é o que se chama em inglês de early adopter
aquele tipo de consumidor que está sempre entre os primeiros a aderir
a novidades tecnológicas. Comprou seu primeiro computador em 1979, quando
PCs eram raridade até nos Estados Unidos. "Era um Apple com 64 kilobytes
de memória. Eu usava no lugar da máquina de escrever e da calculadora",
lembra. Craveiro também foi um dos primeiros a ter e-mail no Brasil, em
1995, quando começaram a funcionar no país os provedores. Não
surpreende que possua hoje uma parafernália de última geração
em seu apartamento paulistano. Além de um computador iMac, um notebook
e um smartphone (celular com funções de computador de mão),
instalou quatro discos rígidos extras que, juntos, armazenam 1 terabyte
de memória 1 000 gigabytes, cinqüenta vezes mais do que um
computador médio atualmente disponível nas lojas. Uma rede sem fio
mantém essas máquinas conectadas. Assim, Jurandir pode arquivar,
por exemplo, filmes publicitários no computador de mão. "Já
fiz até apresentações dentro de um avião, em pleno
vôo", exemplifica. Quando o celular toca, Craveiro não precisa segurá-lo:
um dispositivo preso a sua orelha comunica-se com o celular e transmite a ligação.
Quando quer ouvir música, ele pode escolher entre o MP3 player (um iPod),
o notebook acoplado a caixas acústicas portáteis ou o smartphone,
que também grava vídeos e tira fotos. "Certa vez entrei em uma fábrica
onde era proibido fotografar e tirei fotos fingindo que conversava ao telefone",
conta. Casos assim levaram muitos prédios públicos nos Estados Unidos
a proibir a entrada com celulares. Um estilo de
vida como o de Craveiro só é possível porque, de alguns anos
para cá, os aparelhos eletrônicos passaram a se comunicar uns com
os outros. A isso deu-se o nome de conectividade, um dos termos da moda na indústria
de equipamentos eletrônicos e motivo de investimentos bilionários
em pesquisa. Outra palavrinha em voga é convergência, empregada para
definir a reunião, em um só aparelho, de funções que
antes exigiam máquinas diferentes. É o caso dos celulares que tiram
foto e tocam música. Começa a ficar difícil encontrar um
equipamento novo que não cumpra mais de uma função nem tenha
entradas e saídas para conectá-lo a outros aparelhos. Essa revolução
tem dois motivos. O primeiro é a transformação de todo tipo
de mídia música, textos, fotos, vídeos em arquivos
digitais. O segundo é o surgimento de tecnologias de transmissão,
como a internet de banda larga e as redes sem fio, que permitem transferência
rápida de informação entre as máquinas. O aumento
da velocidade de conexão permitiu que a convergência ultrapassasse
o limite das casas e chegasse às ruas. Teoricamente já é
possível controlar eletrodomésticos de dentro do carro, do escritório
ou de qualquer lugar onde haja um computador (veja
quadro). "Em breve, ninguém vai querer comprar aparelhos sem capacidade
de comunicação", explica Jonathan Cluts, responsável pela
Casa do Futuro, da Microsoft, um laboratório de experiências digitais
em Redmond, no noroeste dos EUA (veja entrevista).
Oscar
Cabral
 | | A
casa repleta de recursos eletrônicos da Oi, no Rio de Janeiro |
Além
de campo de provas, casas como essa, criada por Bill Gates há dez anos,
servem para saciar a curiosidade dos consumidores sobre o futuro. É o que
explica o sucesso dos Jetsons, desenho animado do início dos anos
60 ambientado em um futuro hi-tech, embora machista, em que as mulheres, ainda
restritas ao papel de rainhas do lar, teriam pelo menos o consolo de preparar
o jantar com um simples toque em um botão. Essa era a mesma concepção
por trás da dona-de-casa eletrônica apresentada em uma feira tecnológica
na Inglaterra, em 1955. Em um painel do tamanho de uma parede, uma modelo operava
seletores que controlavam os diferentes aparelhos e afazeres domésticos
aquecimento central, televisão, alarme, cozinha e até o pagamento
das contas. Assim, se imaginava, seria a casa de 1990.
Assim como as previsões de meio século atrás não se
confirmaram, é provável que boa parte dos gadgets eletrônicos
presentes na casa da Microsoft jamais venha a ser vendida na loja de eletrodomésticos
da esquina. Outras idéias já estão na praça. É
o caso do Windows XP Media Center, mais um lançamento de Gates que aos
poucos ganha terreno nos Estados Unidos. A idéia é reunir em uma
única caixa computador pessoal, aparelho de som, videogame, DVD-player,
videocassete e televisão. Um controle remoto universal permite passar de
uma função a outra sem a necessidade de acumular vários aparelhos
na sala. O Media Center armazena todos os arquivos necessários: fotos,
músicas, games, filmes, textos, planilhas e o que mais aparecer. Torná-lo
sucesso é uma aposta que depende de preço atraente e simplicidade
de uso, questões que as primeiras versões do Media Center, lançadas
em 2002, não equacionaram bem. Em outubro passado, Gates lançou
pessoalmente uma nova versão do produto, que custa em torno de 1 000 dólares
(cerca de 2 800 reais, metade do preço original) e é supostamente
mais fácil de usar. Calcula-se que foram vendidos 500 000 Media Centers
(somando primeira e segunda gerações), número que seria alto
no Brasil, mas que ainda deixa dúvida quanto ao sucesso nos Estados Unidos.
Bill Gates não é o único preocupado
em descobrir antes dos outros como será equipada a casa do futuro. Gigantes
de vários setores nos EUA se uniram em uma entidade de pesquisa, a Internet
Home Alliance (veja entrevista com Tim Woods, um de seus
diretores). Na Europa, centenas de empresas fizeram o mesmo e criaram
a própria aliança para pesquisar formas de melhorar a comunicação
entre computadores de mesa e de mão e outros eletrodomésticos. O
objetivo dessas coalizões é estabelecer padrões para a indústria
que se imponham como norma para todo o mercado. É inevitável, porém,
que ao longo do caminho convivam diferentes padrões, como é o caso
hoje do MP3 e do WMA para música digital, ou do wi-fi e do emergente ZigBee
para redes sem fio caseiras. Diante de mudanças
tão rápidas, é natural que o consumidor se sinta confuso.
Por que comprar um gravador de DVDs se em poucos anos provavelmente haverá
sistemas muito mais eficientes de gravação de vídeo digital?
O MP3, hoje o formato dominante para música digital, será substituído
por outros, mais avançados? "Uma recomendação útil
é comprar aquilo que já está minimamente consolidado
mas não obsoleto, como o videocassete. Às vezes, é interessante
esperar", diz João Antônio Zuffo, professor de engenharia eletrônica
da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Sem early
adopters como o publicitário Jurandir Craveiro, porém, a tecnologia
jamais avançaria. É dessa decisão de consumo que depende,
no fundo, a rapidez com que a convergência e a conectividade entrarão
de vez na vida das pessoas. | |