Como a convergência e a conectividade entre aparelhos transformam a vida das pessoas
Novidades tecnológicas do exterior e por que elas ainda não estão no Brasil
Telefonar está deixando de ser o principal uso do aparelhinho
Telefonia pelo computador revoluciona o mercado de comunicações
Os produtos que são destaque nas lojas neste fim de ano
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Tim Woods, da Internet Home Alliance
Jonathan Cluts, da Microsoft
 
 
   
 

Sorria, você está no celular

Celulares tiram fotos, câmeras fotográficas tocam
música, MP3-players gravam programas de TV.
Isso se chama convergência. Ela oferece soluções
mas cria enorme confusão no mercado

 
Claudio Rossi
Jurandir e seus gadgets: sempre o primeiro


NESTA REPORTAGEM
A casa conectada
A cidade em rede

O publicitário Jurandir Craveiro é o que se chama em inglês de early adopter – aquele tipo de consumidor que está sempre entre os primeiros a aderir a novidades tecnológicas. Comprou seu primeiro computador em 1979, quando PCs eram raridade até nos Estados Unidos. "Era um Apple com 64 kilobytes de memória. Eu usava no lugar da máquina de escrever e da calculadora", lembra. Craveiro também foi um dos primeiros a ter e-mail no Brasil, em 1995, quando começaram a funcionar no país os provedores. Não surpreende que possua hoje uma parafernália de última geração em seu apartamento paulistano. Além de um computador iMac, um notebook e um smartphone (celular com funções de computador de mão), instalou quatro discos rígidos extras que, juntos, armazenam 1 terabyte de memória – 1 000 gigabytes, cinqüenta vezes mais do que um computador médio atualmente disponível nas lojas. Uma rede sem fio mantém essas máquinas conectadas. Assim, Jurandir pode arquivar, por exemplo, filmes publicitários no computador de mão. "Já fiz até apresentações dentro de um avião, em pleno vôo", exemplifica. Quando o celular toca, Craveiro não precisa segurá-lo: um dispositivo preso a sua orelha comunica-se com o celular e transmite a ligação. Quando quer ouvir música, ele pode escolher entre o MP3 player (um iPod), o notebook acoplado a caixas acústicas portáteis ou o smartphone, que também grava vídeos e tira fotos. "Certa vez entrei em uma fábrica onde era proibido fotografar e tirei fotos fingindo que conversava ao telefone", conta. Casos assim levaram muitos prédios públicos nos Estados Unidos a proibir a entrada com celulares.

Um estilo de vida como o de Craveiro só é possível porque, de alguns anos para cá, os aparelhos eletrônicos passaram a se comunicar uns com os outros. A isso deu-se o nome de conectividade, um dos termos da moda na indústria de equipamentos eletrônicos e motivo de investimentos bilionários em pesquisa. Outra palavrinha em voga é convergência, empregada para definir a reunião, em um só aparelho, de funções que antes exigiam máquinas diferentes. É o caso dos celulares que tiram foto e tocam música. Começa a ficar difícil encontrar um equipamento novo que não cumpra mais de uma função nem tenha entradas e saídas para conectá-lo a outros aparelhos. Essa revolução tem dois motivos. O primeiro é a transformação de todo tipo de mídia – música, textos, fotos, vídeos – em arquivos digitais. O segundo é o surgimento de tecnologias de transmissão, como a internet de banda larga e as redes sem fio, que permitem transferência rápida de informação entre as máquinas. O aumento da velocidade de conexão permitiu que a convergência ultrapassasse o limite das casas e chegasse às ruas. Teoricamente já é possível controlar eletrodomésticos de dentro do carro, do escritório ou de qualquer lugar onde haja um computador (veja quadro). "Em breve, ninguém vai querer comprar aparelhos sem capacidade de comunicação", explica Jonathan Cluts, responsável pela Casa do Futuro, da Microsoft, um laboratório de experiências digitais em Redmond, no noroeste dos EUA (veja entrevista).

Oscar Cabral
A casa repleta de recursos eletrônicos da Oi, no Rio de Janeiro


Além de campo de provas, casas como essa, criada por Bill Gates há dez anos, servem para saciar a curiosidade dos consumidores sobre o futuro. É o que explica o sucesso dos Jetsons, desenho animado do início dos anos 60 ambientado em um futuro hi-tech, embora machista, em que as mulheres, ainda restritas ao papel de rainhas do lar, teriam pelo menos o consolo de preparar o jantar com um simples toque em um botão. Essa era a mesma concepção por trás da dona-de-casa eletrônica apresentada em uma feira tecnológica na Inglaterra, em 1955. Em um painel do tamanho de uma parede, uma modelo operava seletores que controlavam os diferentes aparelhos e afazeres domésticos – aquecimento central, televisão, alarme, cozinha e até o pagamento das contas. Assim, se imaginava, seria a casa de 1990.

Assim como as previsões de meio século atrás não se confirmaram, é provável que boa parte dos gadgets eletrônicos presentes na casa da Microsoft jamais venha a ser vendida na loja de eletrodomésticos da esquina. Outras idéias já estão na praça. É o caso do Windows XP Media Center, mais um lançamento de Gates que aos poucos ganha terreno nos Estados Unidos. A idéia é reunir em uma única caixa computador pessoal, aparelho de som, videogame, DVD-player, videocassete e televisão. Um controle remoto universal permite passar de uma função a outra sem a necessidade de acumular vários aparelhos na sala. O Media Center armazena todos os arquivos necessários: fotos, músicas, games, filmes, textos, planilhas e o que mais aparecer. Torná-lo sucesso é uma aposta que depende de preço atraente e simplicidade de uso, questões que as primeiras versões do Media Center, lançadas em 2002, não equacionaram bem. Em outubro passado, Gates lançou pessoalmente uma nova versão do produto, que custa em torno de 1 000 dólares (cerca de 2 800 reais, metade do preço original) e é supostamente mais fácil de usar. Calcula-se que foram vendidos 500 000 Media Centers (somando primeira e segunda gerações), número que seria alto no Brasil, mas que ainda deixa dúvida quanto ao sucesso nos Estados Unidos.

Bill Gates não é o único preocupado em descobrir antes dos outros como será equipada a casa do futuro. Gigantes de vários setores nos EUA se uniram em uma entidade de pesquisa, a Internet Home Alliance (veja entrevista com Tim Woods, um de seus diretores). Na Europa, centenas de empresas fizeram o mesmo e criaram a própria aliança para pesquisar formas de melhorar a comunicação entre computadores de mesa e de mão e outros eletrodomésticos. O objetivo dessas coalizões é estabelecer padrões para a indústria que se imponham como norma para todo o mercado. É inevitável, porém, que ao longo do caminho convivam diferentes padrões, como é o caso hoje do MP3 e do WMA para música digital, ou do wi-fi e do emergente ZigBee para redes sem fio caseiras.

Diante de mudanças tão rápidas, é natural que o consumidor se sinta confuso. Por que comprar um gravador de DVDs se em poucos anos provavelmente haverá sistemas muito mais eficientes de gravação de vídeo digital? O MP3, hoje o formato dominante para música digital, será substituído por outros, mais avançados? "Uma recomendação útil é comprar aquilo que já está minimamente consolidado – mas não obsoleto, como o videocassete. Às vezes, é interessante esperar", diz João Antônio Zuffo, professor de engenharia eletrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Sem early adopters como o publicitário Jurandir Craveiro, porém, a tecnologia jamais avançaria. É dessa decisão de consumo que depende, no fundo, a rapidez com que a convergência e a conectividade entrarão de vez na vida das pessoas.