Dez
perguntas (e respostas) sobre a globalização
Montagem sobre fotos de Araquém Alcântara/Valdemir
Cunha/ Pedro Martinelli/Ronaldo Cohn/S. Husain
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Thomas
Friedman
O ensaísta americano Thomas Friedman, 47 anos, colunista
de assuntos internacionais do jornal The New York Times,
é dono de dois prêmios Pulitzer por sua cobertura
no Oriente Médio, onde morou nos anos 70 e 80. Autor
de O Lexus e a Oliveira, um livro fascinante sobre o
fenômeno dominante de nosso tempo, a globalização
econômica, ele recebeu Angela Pimenta, de VEJA, para uma
entrevista sobre as implicações da mundialização
da economia. Friedman tem corrido o mundo em busca de casos
relacionados ao fenômeno. Raramente vai a Paris, Berlim
ou Londres. Sua destinação mais comum são
os lugares mais remotos do planeta, aonde pouca gente vai a
trabalho e quase ninguém vai em férias: Burundi,
Serra Leoa, China e Índia. |
I.
A
GLOBALIZAÇÃO É UMA IDÉIA NOVA?
"A
globalização não é um modismo, um jogo
Nintendo, mas um sistema internacional. E, assim como a Guerra Fria,
ela também tem suas próprias regras, sua lógica
interna, com pressões, incentivos, oportunidades e mudanças
que afetam a vida de cada país, como o Brasil, de cada comunidade,
como São Paulo, e também a empresa em que cada um
de nós trabalha. Se você quer realmente saber o que
está mudando o mundo, é preciso entender a globalização.
Sou o primeiro colunista de assuntos internacionais do Times
depois do final da Guerra Fria e o quinto em toda a história
do jornal. O cenário mundial do primeiro deles foi a II Guerra.
Já os últimos três tiveram a Guerra Fria como
pano de fundo. Eu cheguei ao posto em 1994, quando o Muro de Berlim
já tinha caído. Logo que assumi, a primeira pergunta
que me fiz foi: 'Qual é o meu cenário, qual é
a história que tenho para cobrir?'. Globalização
é a resposta. E essa é uma super-história:
olhe para a China, para a América, para o Brasil, para o
mundo todo, cada vez mais interligado! Portanto, para mim, globalização
não é uma ideologia nem um programa econômico
a ser defendido; é, isso sim, uma interpretação
daquilo que está acontecendo no mundo."
II.
GLOBALIZAÇÃO NÃO SERIA APENAS UM NOME SUAVE
PARA A AMERICANIZAÇÃO DO MUNDO?
"A
globalização é a conseqüência do
triunfo dos valores defendidos pela economia de mercado. E por que
a economia de mercado? Porque em todo o mundo as pessoas tentaram
uma série de outros sistemas e acabaram chegando à
conclusão de que eles não funcionavam. Portanto, a
economia de mercado é conseqüência do triunfo
de certas idéias e também do triunfo de certas tecnologias.
Quando, por exemplo, eu abro uma empresa para vender óculos
de sol pela internet, todos os meus clientes em potencial são
globais de San Francisco a São Paulo e da mesma
maneira meus competidores são globais de Washington
ao Rio de Janeiro. O mesmo vale para meus consumidores. Portanto,
no momento em que você chega à internet, torna-se imediatamente
um animal global. Tem de ser assim. Isso é uma ideologia?
Isso é uma coisa que eu estou defendendo? Ou será
que não passa da conseqüência de uma tecnologia
que agora pode conectar todo mundo ao redor da Terra de um modo
antes inimaginável? E isso se aplica também a todas
as tecnologias que derrubaram os muros em torno do planeta. A globalização
é justamente o resultado da derrubada desses muros."
III.
A
ÚLTIMA CONSEQÜÊNCIA DA GLOBALIZAÇÃO
SERÁ O FIM DA DIVERSIFICAÇÃO CULTURAL NO PLANETA?
"Esse
lado da globalização é apavorante é
uma espécie de darwinismo com anabolizantes. A globalização
pode provocar uma devastação no ambiente e nas culturas
locais se não for controlada. Muito da minha inspiração
para esta afirmação me veio das visitas que fiz ao
Pantanal Mato-Grossense e ao que restou da Mata Atlântica
brasileira. Países globalizados precisam de recursos que
lhes permitam proteger tanto sua natureza quanto seus valores culturais.
Meu temor é que os países saiam numa corrida louca
para se tornar globais e acabem pondo a perder sua cultura e seu
ambiente."
IV.
UM
MUNDO GLOBALIZADO TEM MAIS CHANCE DE VIVER EM PAZ?
"Em
1996 comecei a escrever em minha coluna que, ao redor do mundo,
os países vizinhos àqueles em que o McDonald's tinha
instalado lanchonetes jamais haviam declarado guerra um contra o
outro depois que seus povos passaram a ter acesso ao Big Mac e a
batatas fritas. Eu usava essa metáfora para dizer de maneira
bem-humorada que, num mundo mais interligado, o preço que
você paga para fazer guerra é muito mais alto que nos
tempos da Guerra Fria. Agora, nem a Rússia, que está
quebrada, nem os Estados Unidos, que têm um orçamento
equilibrado, vão financiar as guerras tribais, como faziam
no passado. Se, por exemplo, o Brasil e a Argentina entrassem em
guerra amanhã, suas economias seriam imediatamente punidas
pelas bolsas de valores em todo o mundo. As ações
desses países perderiam seu valor. Por isso, minha tese é
que toda essa integração econômica afeta a política
interna das nações. Meu símbolo era o McDonald's.
Acho que essa tese era tão, digamos, charmosa e ao mesmo
tempo válida que vários cientistas políticos
tentaram provar sem sucesso que eu estava errado.
Tentaram dizer que minha tese caiu por terra por causa da guerra
em Kosovo, mas ali, como deixei claro em meu livro, se tratava de
uma guerra civil. Mas digamos que ainda assim eu estivesse errado,
do mesmo modo minha teoria se aplica a 99,99% dos casos, o que é
uma boa média para a ciência social.
Não
foi por acaso que chamei meu livro de O Lexus e a Oliveira.
Na parte do Lexus, o carro produzido pela Toyota, que também
diz respeito ao McDonald's, falo de tecnologia, integração
cultural e econômica. Já a oliveira vem de uma imagem
do próprio Oriente Médio, do papel que as forças
ancestrais da cultura e da tradição desempenham no
mundo. Mas minha tese do McDonald's refere-se às regiões
que já estão plugadas ao sistema global, e eu não
acredito que a margem ocidental (o território palestino)
esteja plugada ao sistema. Da mesma forma que isso não se
aplica à Síria, que não tem McDonald's, tampouco
ao Iraque. Outra coisa é que Yasser Arafat liga muito mais
para suas oliveiras que para os Lexus ou melhor, ele liga
para seus Lexus, mas não dá importância ao fato
de que seu povo também possa vir a querer ter Lexus. A oliveira
continuará a ter papel fundamental nas culturas porque religião,
tradição e costumes locais são tão básicos
à humanidade como o próprio DNA."
V.
ACABOU O TEMPO EM QUE OS GOVERNOS PODIAM ENDIVIDAR-SE SEM CONSEQÜÊNCIAS
MAIORES?
"Os
países vestiram o que chamo de 'camisa-de-força dourada'.
O Brasil, por exemplo, vestiu-a de uma maneira que hoje lhe é
razoavelmente confortável. O importante é saber que
de agora em diante só existe um caminho a ser seguido, o
da camisa-de-força dourada. Mas cada país pode escolher
a velocidade com que se enquadrará nela, pois é preciso
garantir a estabilidade social em cada país. Cedo ou tarde
os países serão classificados da mesma maneira que
qualquer devedor. Diria que a Rússia e a Argentina são
papéis de alto risco, enquanto o Brasil e a China são
papéis de risco médio. O Brasil está à
frente de todos esses países em vários aspectos. Ele
é mais desenvolvido, já que tem economia de mercado,
democracia e internet. A China tem uma energia extraordinária
e vem demonstrando muito mais apetite que o Brasil para crescer,
mas não tem as instituições que o Brasil possui.
Já a Argentina, apesar de também ter instituições
como o Brasil, está naufragando economicamente por falta
de liderança."
VI.
A GLOBALIZAÇÃO VAI LEVAR A DEMOCRACIA A TODOS OS
CANTOS DO MUNDO?
"Aqueles
países que possuem boas instituições vão
se dar bem em tempos globais, os que não tiverem vão
ter um problema sério para resolver. E isso não tem
apenas a ver com os altos e baixos da economia. Seu governo é
uma espécie de tomada, que liga você ao sistema. Se
ele for um bom governo, você estará ligado com segurança.
Se for corrupto ou fraco, o trânsito entre seu país
e o 'rebanho eletrônico', ou seja, o fluxo de capitais que
se move digitalmente pelo mundo, será interrompido, asfixiando
sua economia. E isso acontece não apenas porque as ditaduras
e a corrupção sejam imorais, mas porque elas são
antiprodutivas. Um bom governo tem de ser equipado com uma burocracia
eficiente e honesta, bons tribunais, boas instituições
regulatórias. As pessoas estão excessivamente preocupadas
com o chamado 'abismo digital'. Eu não. Em cinco anos, quem
hoje ganha apenas o equivalente a 1 dólar por dia poderá
comprar um Palm Pilot. A democratização tecnológica
se encarregará disso. Mas será que daqui a cinco anos
teremos a segurança de que, por exemplo, os julgamentos serão
justos em Manaus, sem que os juízes brasileiros sejam corrompidos?
O que dizer do abismo entre as pessoas? É isso que importa."
VII.
A HISTÓRIA ECONÔMICA ESTÁ CHEIA DE EXEMPLOS
DE SURTOS ECONÔMICOS EM QUE SÓ UMA MINORIA PROSPERA.
POR QUE SERIA DIFERENTE COM A GLOBALIZAÇÃO?
"A
desigualdade social, não só no Brasil, mas em toda
a América Latina, tem profundas razões históricas
e sociais. A pobreza dos povos latino-americanos é um tremendo
fardo para a região. Se você tem elites que são
tão egoístas a ponto de ignorar completamente aqueles
que em meu livro eu chamo de 'os que não têm nada',
'não sabem nada', ou 'que foram deixados para trás',
cedo ou tarde eles irão atrás de você. Por outro
lado, os pobres têm um grande potencial, uma grande capacidade
produtiva que está sendo desperdiçada se continuarem
à margem do mercado. A força dos Estados Unidos deve-se,
em boa parte, à grandeza de sua elite, dos bilionários
que doam fortunas a escolas, hospitais, museus e universidades.
Eis um exemplo que os ricos brasileiros poderiam seguir.
Uma
economia global bem-sucedida para a maioria funciona como um circo.
Ela precisa de três coisas. A primeira é o trapézio,
ou seja, as regras selvagens do livre mercado, aquilo que permite
que os empreendedores saltem, voem, corram os riscos necessários
para a economia florescer. Sem o trapézio não há
crescimento. Em segundo lugar, é preciso trampolins, porque
algumas pessoas se lançam ao trapézio e acabam caindo
e outras não têm inicialmente o impulso necessário
para alçar o trapézio. Mas o trampolim significa uma
segurança temporária, um instrumento que eles podem
usar para voltar ao jogo: esses são os programas de treinamento,
educação, ciência da computação,
todos os recursos para as pessoas terem sucesso na nova economia.
Em terceiro lugar, há a rede de segurança, porque
algumas pessoas nunca conseguirão chegar ao trampolim, e
menos ainda ao trapézio. Seria um desastre se elas batessem
com a cabeça no cimento. Por isso, a rede de segurança
são os programas sociais bancados pelo governo, empresas
e comunidades para assistir as pessoas desamparadas. Estou certo
de que, mesmo vestindo a 'camisa-de-força dourada', os países
podem bancar o custo do trapézio e da rede de segurança."
VIII.
MUITAS PESSOAS TEMEM A GLOBALIZAÇÃO EXATAMENTE
POR SE PRETENDER GLOBAL. ELA NÃO SERIA TÃO TOTALITÁRIA
QUANTO O SOCIALISMO?
"O
socialismo foi um sistema maravilhoso para fazer todo mundo igualmente
pobre. Não existe sistema melhor no mundo para isso. E, se
alguém precisa de um testemunho a respeito, pergunte às
pessoas que derrubaram o Muro de Berlim. Já o capitalismo
torna as pessoas desigualmente ricas, ele tem a própria brutalidade,
mas é um sistema que pode ser moderado. A resposta para mim
não é retroceder ao socialismo, mas aprender a calibrar
o capitalismo num mundo global: seja redistribuindo renda, seja,
muito mais importante que isso, promovendo a educação
entre os despossuídos. Digamos que eu precisasse emagrecer
10 quilos. Nesse caso, será que o mais inteligente seria
eu cortar minha cabeça? Regredir ao socialismo equivale em
inteligência a pedir a uma pessoa em regime que perca 10 quilos
e ela decida simplesmente cortar a cabeça.
Por
outro lado, a globalização é um conceito extremamente
complicado. A globalização é uma coisa que
não tem alma. Veja, por exemplo, o nacionalismo árabe.
As ideologias do Oriente Médio não fazem o menor sentido
econômico, mas elas tocam a alma dos povos e os entusiasmam.
Por sua vez, a globalização faz o maior sentido para
todas as economias do mundo, mas é um tema que não
consegue tocar a alma de ninguém."
XI.
A ECONOMIA DOS ESTADOS UNIDOS PODE DESPENCAR E ARRASTAR COM ELA
TODA A PROSPERIDADE DO MUNDO?
"O
cenário mundial pode mudar se nós não conseguirmos
manter as condições fundamentais de nossa prosperidade,
como a produtividade da economia americana. Mas o cerne da exuberância
americana são suas instituições, os fundamentos
de sua economia, sua política e sua vida social. Essas são
as condições que nos dão uma vantagem competitiva
incomparável no planeta. E esse alicerce é extremamente
sólido, não importa se o mercado de capitais está
em alta ou em baixa."
X.
COMO MAIORES BENEFICIÁRIOS DA GLOBALIZAÇÃO,
OS ESTADOS UNIDOS NÃO DEVERIAM CONTRIBUIR MAIS PARA SEU SUCESSO?
"Os
Estados Unidos precisam ter a mão aberta, ajudar os outros
povos a se fortalecerem e se tornarem parceiros desse sistema global.
Acredito que os Estados Unidos deveriam colaborar com o dobro do
que colaboram para organismos como o Banco Mundial e bancos de desenvolvimento
regional, como para a Ásia, a América Latina e a África.
Nosso dinheiro precisa ser usado para ajudar as pessoas a construir
instituições que as façam prosperar. Essas
deveriam ser as linhas mestras de nossa política internacional."
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