O
ano da vaca louca
mundo está ficando menor. Mas não sem briga. Governos
foram à luta nos organismos internacionais acusando-se mutuamente
de subsidiar suas indústrias. Os países ricos, maiores
promotores da globalização, foram justamente os que
ergueram as barreiras mais altas contra os produtos das nações
em desenvolvimento. Foi um ano de total desencontro, de muita conversa
e muita demagogia quando o assunto era comércio exterior.
Para completar o quadro surreal, os jovens europeus e americanos,
na teoria defensores dos fracos da Terra, foram às ruas protestar
contra as exportações dos países mais pobres
do planeta.
A
carne é fraca
Franck Prevel/AP
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Quem
acha que globalização rima com Nasdaq e internet vai
ter um choque ao constatar que ela é responsabilizada também
por subprodutos como a doença da vaca louca, que se
está espalhando pela Europa. A última vítima
foi a Espanha, que em novembro identificou o primeiro caso da doença
em suas pastagens. Com origem na Inglaterra em 1996, a epidemia,
que em teoria pode infectar também os humanos que consumirem
carne de animal contaminado, chegou neste ano aos rebanhos de seis
países europeus. Levou pânico aos produtores de carne,
que viram o consumo do produto cair mais de 40% no continente. Todo
mundo acusa todo mundo. Montada na velha rivalidade anglo-francesa,
a Inglaterra denunciou a França de suspender as importações
de carne inglesa. Do outro lado do Canal da Mancha, a França
acusou a Inglaterra de exportar a doença que contaminou as
vacas francesas. Pode sobrar, no bom sentido, para o Brasil, que
exporta soja e carne branca, substitutos naturais da carne vermelha
européia sob suspeita.
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A
batalha aérea dos subsídios
Divulgação
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Como
a globalização vai terminar, está para se ver.
Como ela avança todo mundo sabe. É pelo comércio
internacional. O mundo globalizado criou uma agência para
tratar do assunto, a Organização Mundial do Comércio
(OMC), que regula as relações comerciais entre
os países. Foi na OMC, sediada em Genebra, na Suíça,
que se travou a batalha aérea entre a brasileira Embraer
e a canadense Bombardier pelo mercado mundial de aviões
a jato dimensionados para linhas regionais. Os canadenses acusaram
os brasileiros de aumentar a competitividade com subsídios
do governo, por meio do ProEx, o programa nacional de incentivo
às exportações. Em matéria de subsídio
o Brasil não é mais esperto do que ninguém.
Apenas menos sutil. Acabou punido. Em agosto, a OMC autorizou o
Canadá a impor retaliações comerciais contra
o Brasil no valor de 1,4 bilhão de dólares. Foi a
maior multa já aplicada pela organização desde
sua criação, em 1995. O Brasil recorreu, mas a medida
foi confirmada mais tarde. Apesar de tudo, o ano foi de vitórias
no ar. Em 2000, a Embraer, que já é a quarta fabricante
de aeronaves comerciais do mundo, anunciou lucro recorde de 400
milhões de reais nos primeiros nove meses do ano.
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A
nova revolução dos bem contentes
Dave Thomson/AE
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Eles
não querem incendiar o mundo. São jovens europeus
ou americanos que têm tudo. Querem agora seus quinze segundos
de fama. Cada reunião de organismos internacionais ou de
governos de países ricos teve à sua porta um piquete
de rebeldes antiglobalização. Sob pressão deles,
a reunião anual do Fundo Monetário Internacional
(FMI), em setembro, em Praga, teve de ser abreviada. A conferência
mundial do clima na Holanda e o Fórum Econômico
Mundial de Davos, na Suíça, também foram
pontilhados pela zoeira do pessoal anti-sistema. O clímax
da nova rebeldia ocorreu no julgamento do líder pecuarista
francês José Bové, em junho, na França.
Bové, líder da resistência antiglobalização,
foi julgado pelo quebra-quebra de uma loja do McDonald's em 1999
e condenado a três meses de cadeia. Durante o protesto, as
lanchonetes americanas sofreram novos ataques.
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