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Especial A hora da escolha O
conclave que elegerá o novo ocupante do trono de Pedro está
previsto para começar quinze dias depois da morte de João Paulo
II, de acordo com o que determina a Constituição Apostólica
Universi Dominici Gregis, publicada em 1996 e que trata das regras da
sucessão. Dele participarão 116 cardeais, dos quais 114 foram
nomeados por Karol Wojtyla. Ao todo, ele nomeou 232 cardeais, um recorde na
história eclesiástica. O
colégio cardinalício conta atualmente com 183 cardeais, mas só
votam aqueles que não completaram 80 anos. O continente com mais cardeais
é a Europa (95), seguida de América Latina (31), América
do Norte (18), Ásia (18), África (16) e Oceania (5). Ao moldar o
colégio eleitoral, João Paulo II procurou influir diretamente nos
rumos do novo pontificado que se avizinha. Ou seja, se tudo ocorrer conforme o
seu desenho, não se deve esperar do futuro papa que devolva autonomia política
ao clero do Terceiro Mundo ou que reveja os rígidos cânones morais
da Igreja cânones sobejamente desrespeitados pela maioria do rebanho
católico. Espera-se, contudo,
que o novo pontífice seja uma figura mais conciliadora e menos imperial
do que João Paulo II. Este seria o momento de a Igreja Católica
ter um chefe que, sem abrir mão dos princípios reiterados pelo antecessor,
mostre uma visão mais serena do mundo contemporâneo. A maioria dos
vaticanistas aposta suas fichas no italiano Dionigi Tettamanzi. Também
não é improvável que do próximo conclave saia um papa
de fora da Europa: da América Latina ou da África. No caso de um
conclave mais difícil, é possível, ainda, que seja escolhido
um "papa de transição" um cardeal de idade já avançada,
a quem caberá um reinado curto, mas suficiente para aparar as arestas internas
deixadas por Karol Wojtyla. A seguir, os cardeais mais cotados para suceder a
João Paulo II. Quem são os principais
papáveis Dionigi Tettamanzi,
71 anos, italiano.
AFP  |
Foi arcebispo de Gênova,
antes de se tornar arcebispo de Milão, em 2002. Nessa função,
sucedeu a Carlo Maria Martini, que durante anos foi apontado como o provável
sucessor de João Paulo II. Tettamanzi entrou na lista dos candidatos a
papa em 1996, quando ainda era bispo. É uma boa opção caso
não se queira eleger um papa de transição nessa mesma
hipótese, aliás, encaixa-se o austríaco Christoph Schoenborn,
de 58 anos, arcebispo de Viena. Tettamanzi foi secretário-geral da Conferência
Episcopal Italiana e desincumbiu-se de tarefas importantes que lhe foram dadas
por João Paulo II. Comunicativo, tem amigos poderosos e pertence à
linha moderada. Como se mantém eqüidistante dos grupos que disputam
a hegemonia da Igreja, pode ser uma solução de consenso entre a
Cúria Romana e os cardeais que não estão encastelados no
Vaticano. É o franco favorito.
Camillo
Ruini, 74 anos, italiano.
AFP  |
Talvez mais do que qualquer outro
cardeal da Cúria Romana, ele cresceu à sombra de João Paulo
II, de quem sempre procurou imitar algumas atitudes. Ruini teve uma ascensão
meteórica e sua compleição frágil esconde um homem
dotado de enorme energia para o trabalho. Em geral classificado como moderado
pelos vaticanistas, nos últimos anos ele migrou para posições
cada vez mais intransigentes em questões morais e doutrinárias.
Por isso mesmo passou a contar com a simpatia do Opus Dei, o que não é
pouco. Quando for aberto o conclave, adentrará a Capela Sistina como um
dos favoritos à sucessão de João Paulo II.
Angelo
Sodano, 77 anos, italiano.
AFP  |
Designado secretário de
Estado do Vaticano em 1991, Sodano respondia pela política externa de João
Paulo II, um dos pilares de seu pontificado. Em nome do papa, ele também
administrava diretamente o Vaticano, constituindo-se numa espécie de governador.
Em função do cargo-chave que ocupava na hierarquia da Igreja e de
sua habilidade de articulador, é um dos cardeais mais poderosos do Vaticano.
Apesar de sua importância, não é um papável no qual
os especialistas apostam muitas fichas. Eles preferem colocá-lo na categoria
dos "grandes eleitores" da Cúria. Ou seja, Sodano poderá não
angariar votos suficientes para tornar-se um "papa de transição",
mas sem dúvida influenciará muitos cardeais durante o conclave.
Miloslav Vlk, 72 anos, checo.
AFP  |
Em um conclave que se encaminhe
para uma solução européia, mas não italiana, a candidatura
de Vlk pode despertar alguma simpatia em diferentes lados. Durante o regime comunista
em seu país, ele exerceu a profissão de operário, o que lhe
confere uma aura de trabalhador, bem ao gosto dos cardeais mais à esquerda.
Ao mesmo tempo, resistiu à ditadura bancada pela ex-União Soviética,
o que agrada aos conservadores. Vlk foi presidente da Conferência Episcopal
Européia, fala perfeitamente o italiano o que não é
pouco para quem terá de cumprir a função de bispo de Roma
e se inclui entre os focolarinos, um dos movimentos de renovação
católica que mais cresceram sob João Paulo II. Seu problema é
a etnia. Depois de um papa polonês, é difícil que elejam outro
eslavo.
Francis Arinze, 72
anos, nigeriano.
AFP  |
A hipótese de um papa
negro mexe com a imaginação dos vaticanistas, que se apóiam
num fato inconteste para fazer essa aposta: o extraordinário crescimento
do catolicismo na África, especialmente na última década.
O Vaticano estima que, mantidas as atuais taxas de expansão, em 2010 haverá
cerca de 200 milhões de católicos no continente. Extremamente cordial
e cauteloso, Arinze é um candidato sempre presente na lista dos papáveis,
dada inclusive a desenvoltura com que circula no ambiente inóspito da Cúria
Romana, da qual faz parte. O seu ponto fraco é que ele representa uma comunidade
católica insignificante do ponto de vista histórico e ainda muito
sujeita à tradição animista. Arinze é uma boa possibilidade
caso a Igreja aposte na intensificação da ação pastoral
nas regiões mais pobres do mundo.
Angelo Scola, 63 anos, italiano.
AFP  |
O patriarca de Veneza não
figura entre os cardeais veteranos: foi nomeado na lista divulgada pelo Vaticano
em setembro de 2003. Teólogo respeitado, especialista em questões
de família, integra o movimento conservador italiano Comunhão e
Liberdade. Faz parte do grupo dos cardeais da linha dura. Recentemente foi nomeado
relator geral do próximo sínodo dos bispos muitos interpretaram
essa escolha de João Paulo II como um sinal de que ele gostaria que Scola
fosse um dos candidatos a sua sucessão.
Alfonso López Trujillo, 69 anos, colombiano.
AP  |
É o cardeal latino-americano
que hoje goza de maior prestígio dentro do Vaticano. Presidente do Pontifício
Conselho para a Família, nos últimos anos entregou-se de corpo e
alma à luta contra a legalização do aborto e da eutanásia.
Antes disso, foi um dos responsáveis pelo torpedeamento da Teologia da
Libertação. Na Colômbia, Trujillo é um cidadão
sob suspeita, por ter seu nome envolvido em episódios nebulosos. Acusam-no
de usar métodos truculentos para constranger seus opositores e de fazer
vista grossa para o dinheiro que o narcotráfico injetava em obras de caridade
católicas. É um papável que, apesar dos serviços prestados
à Igreja, tem telhado de vidro. Pode transformar-se num eleitor de razoável
influência sobre diversos participantes do conclave, em especial os provenientes
dos países subdesenvolvidos da América e África.
Cláudio Hummes, 70 anos, brasileiro.
Mario Rodrigues  |
Entre os papáveis do Terceiro
Mundo, o brasileiro mais citado é o arcebispo de São Paulo. Aos
70 anos, idade considerada "boa" para papa, o gaúcho Hummes é um
moderado perfeitamente afinado com as linhas adotadas por João Paulo II:
condena a politização da liturgia, as interpretações
livres do Evangelho, os métodos contraceptivos e o aborto (mesmo em caso
de estupro) e prega o pleno resgate da mística católica. Além
disso, fala cinco línguas, entre elas o italiano, e goza de ótima
imagem entre os cardeais da Cúria Romana.
Oscar Andres Rodriguez Maradiaga, 62 anos, hondurenho.
AP  |
Jovem para os padrões
vaticanos, culto, poliglota e comunicativo, o cardeal-arcebispo de Tegucigalpa
tem o exato perfil que João Paulo II mais estimulou e favoreceu ao longo
de seu pontificado: rigorosa ortodoxia temperada por nítida preocupação
social. Em certos momentos, contudo, derrapa nas declarações. Já
proclamou em alto e bom som que a Teologia da Libertação, execrada
no Vaticano, "deixou muitas coisas boas". Na outra ponta, acusou a imprensa americana
de exagerar na divulgação dos escândalos de pedofilia envolvendo
religiosos católicos.
Joseph
Ratzinger, 77 anos, alemão.
AFP  |
O prefeito da Congregação
para a Doutrina da Fé foi o grande ideólogo do pontificado de João
Paulo II. É um dos cardeais mais poderosos da Cúria Romana, e será
um dos "grandes eleitores" do próximo conclave. Pouco antes da morte do
papa, seu nome começou a aparecer na lista de papáveis dos vaticanistas
italianos. Ratzinger, no entanto, tem muitos inimigos e suas condições
de saúde não são das melhores. Sua eleição
seria uma grande surpresa, resultado de um conclave particularmente difícil.
Giovanni Battista
Re, 71 anos, italiano.
AP  |
Prefeito da Congregação
dos Bispos (em substituição a dom Lucas Moreira Neves) e presidente
da Comissão Pontifícia para a América Latina, Re é
funcionário de carreira do Vaticano e profundo conhecedor da organização
da Igreja Católica. Por isso mesmo, tornou-se peça-chave na administração
do Vaticano e cuidou da preparação de boa parte das 104 viagens
internacionais do papa, sendo elogiado por vaticanistas por sua "imensa capacidade
de trabalho, mente brilhante e nervos de aço". Desvantagem: falta a Re
a indispensável experiência pastoral à frente de uma diocese.
E ele tem um inimigo poderoso na Cúria: Angelo Sodano.
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