Edição Especial | agosto de 2004
 
    
 

Detalhes decidem

 
André Valentin/Strana
Ana Paula, do vôlei de praia: sessões de ioga melhoraram a respiração durante as partidas


"Sonhas vencer nos Jogos Olímpicos. Mas pesa as condições e as conseqüências. Deves viver sob regras, submeter-te a dieta, abster-te de carnes, exercitar teu corpo em horas programadas, no calor ou no frio."
EPICTETO
filósofo estóico, Máximas, século II d.C.

Ana Paula Rodrigues é daquelas atletas que acreditam que vale tudo para atingir o melhor desempenho possível. "Se disserem que comer grãozinho de feijão cru vai melhorar a minha performance, eu como", afirma. (Espera-se que ela não esteja pensando em doping ao dizer isso.) No início deste ano, quando amigos da academia onde treina sugeriram que praticasse ioga, a jogadora de vôlei de praia resolveu experimentar. Os benefícios na areia, segundo ela, foram imediatos. "Aprendi a respirar melhor. Aproveitava mal o oxigênio quando jogava", diz. "Além disso, sou uma pessoa muito acelerada. A ioga me ajuda a desacelerar um pouco."

Antes raridade entre esportistas de alto nível, aos poucos a ioga e outros métodos do gênero começam a fazer parte do cardápio da preparação de atletas olímpicos. Alexandre Lee, do judô, e Ricardo Winicki, da prancha a vela, incluíram a ioga em seus treinos. "Ela me ajudou a me classificar na seletiva", diz Lee. Giba, do vôlei, é adepto do reiki, terapia que busca recarregar energias por meio da imposição das mãos. Há três anos a triatleta Sandra Soldan faz sessões de watsu, variante aquática do shiatsu, técnica chinesa que combate o stress pela pressão dos dedos sobre o corpo. "Sofria de dificuldade para dormir. O relaxamento foi imediato, desde a primeira sessão", afirma.

Atletas que adotam métodos alternativos ainda são exceção. "A maioria não aproveita os caminhos complementares que vêm aparecendo", diz a ex-jogadora de vôlei Ana Moser em sua biografia, Pelas Minhas Mãos (editora DBA). Desde os tempos de atleta, Ana é adepta de técnicas de reeducação postural, menos agressivas ao corpo que os pesados treinos físicos e técnicos geralmente empregados no esporte.

Oscar Cabral
Sandra Soldan, triatleta, adotou há três anos o watsu, massagem relaxante com os dedos derivada do shiatsu

Cuidar dos detalhes ao treinar para uma grande competição envolve mais que a simples preparação física. Conhecer a fundo os adversários, por exemplo, tem sido um dos trunfos da seleção masculina de vôlei. O técnico Bernardinho armazena em arquivos de computador e fitas de vídeo informações sobre cada equipe que vai enfrentar nas Olimpíadas. Consultando esses números, pode saber qual a probabilidade de o time do outro lado da quadra empregar esta ou aquela variante no próximo lance. Parte do treinamento consiste, assim, em manter seus jogadores concentrados dentro da quadra para aproveitarem essa informação na hora de atacar ou defender. Se isso não traz a garantia da vitória, pode representar alguns pontos a mais, decisivos em um esporte como o vôlei, freqüentemente decidido por margens pequenas, de 2 ou 3 pontos.

Ivo Gonzalez/Ag. O Globo
André Domingos, membro da equipe do 4 x 100 metros: técnica de passagem do bastão no revezamento é segredo para ganhar alguns centésimos

Detalhes na técnica também podem fazer a diferença. A equipe brasileira do revezamento 4 x 100 metros notabilizou-se pela capacidade de obter resultados brilhantes com velocistas apenas medianos. Nas duas últimas Olimpíadas, o Brasil conquistou medalhas de bronze e prata nessa prova, mesmo sem possuir um corredor capaz de chegar à final da prova individual dos 100 metros rasos. Os quatro titulares, Vicente Lenílson, André Domingos, Jarbas Mascarenhas e Cláudio Roberto Souza, são, respectivamente, o 31º, o 36º, o 44º e o 53º do ranking mundial desta temporada. O truque que tornou a equipe brasileira contendora por medalhas foi o refinamento da técnica de passagem do bastão, obtido pelo técnico Jayme Netto Júnior com treinamento exaustivo. "Os detalhes, somos proibidos de contar, mas é uma coisa simples. Se as pessoas prestarem atenção, podem descobrir o segredo", diz Vicente Lenílson, um dos integrantes da equipe. "Tudo o que eu posso falar é que os outros atletas passam o bastão um atrás do outro. A gente passa do lado." Na verdade, o próprio Lenílson admite que essa técnica já é copiada por outras equipes, mas os brasileiros ainda teriam o pulo-do-gato. Mesmo que ele não seja suficiente para um terceiro pódio consecutivo, os brasileiros sabem que terão dado o melhor de si ao combinar treinamento duro com atenção a um pequeno detalhe como esse.

 

 

Wilton Junior/AE