Edição Especial | agosto de 2004
 
    
 

Nada é impossível

"Um dia, em Olímpia, eu vi um boxeador, mesmo idoso, nocautear seu jovem adversário."
ARISTÓFANES
dramaturgo, As Vespas, século V a.C.

Osmar Barbosa dos Santos sempre gostou de correr. Quando era moleque, a mãe pedia que fosse à loja mais próxima, a 3 quilômetros do sítio onde moravam em Marília (SP), comprar agulha e linha de costura. Osmar ia correndo. Voltava tão depressa que a mãe lhe perguntava: "Você pegou carona?". "Cada vez que eu voltava queria ir mais rápido para ser elogiado por ela", lembra. Um dia, em 1993, o técnico de atletismo Rogério Vieira o viu disputando uma prova de rua e o chamou para outro teste. "Dá um tiro aí", disse. "Tiro? O que é isso?", assustou-se Osmar, que nunca tinha ouvido jargão de atletismo. O tiro era um pique de 400 metros, equivalente a uma volta na pista. Osmar fez em 53 segundos, tempo excepcional para quem nunca fora atleta. Começava ali, aos 25 anos, a carreira que levaria o filho de lavrador a disputar, aos 35, os 800 metros nos Jogos Olímpicos de Atenas. "Meu conselho é: se você tiver força de vontade, nada é impossível", diz Osmar, que tem chances reais de subir ao pódio: foi medalhista de bronze no mundial de atletismo em pista coberta disputado neste ano em Budapeste, na Hungria.

A idade também foi o desafio de Maria Magnólia Figueiredo, só que de outra forma. Aos 40 anos e nove meses, a corredora de 400 metros potiguar, veterana dos Jogos de 1988, 1992 e 1996, classificou-se pela quarta vez para as Olimpíadas como reserva do revezamento 4 x 400 metros. Casada há 22 anos com seu técnico, José Figueiredo, e mãe de uma estudante de 19 anos, Magnólia já poderia ter parado há muito tempo, mas não quis. "A ousadia nada mais é que a concretização de algo claramente definido e decididamente desejado", diz a atleta e professora de educação física. Além de Magnólia, há apenas outros cinco brasileiros que competiram nas Olimpíadas de Seul, há 16 anos, e que ainda estarão na ativa em Atenas: os velejadores Bernardo Arndt e Torben Grael, o atirador Rodrigo Bastos, o levantador de vôlei Maurício e o nadador Rogério Romero. O mais improvável de todos é Romero, de 34 anos, que compete em um esporte em que, há algum tempo, um atleta era considerado velho aos 25. "O esporte me ensinou a acreditar em um trabalho a longo prazo", afirma.

 
Eduardo Kanpp/Folha Imagem
O corredor de 800 metros Osmar Barbosa treina no interior paulista: o início mais tardio entre os olímpicos brasileiros, aos 25 anos

Não é só o tempo que pode ser superado com determinação. A história olímpica é repleta de casos de campeões que, pelo físico, não estavam predestinados ao sucesso em sua modalidade. A russa Svetlana Khorkina já tem duas medalhas de ouro em casa e vai para sua terceira participação em Olimpíadas, apesar de ser alta para a ginástica: tem 1,64 metro, 10 centímetros a mais que suas rivais. Essa diferença é teoricamente prejudicial a seu equilíbrio em algumas provas (em Atenas, Khorkina também terá de superar a barreira da idade: aos 25 anos, é considerada velha para a ginástica). A americana Wilma Rudolph teve poliomielite na infância, o que não a impediu de ser a estrela dos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, nas provas de velocidade do atletismo. No esporte brasileiro, talvez o exemplo mais famoso seja o do nadador Ricardo Prado, que, apesar de seu 1,68 metro, conquistou a medalha de prata nos 400 metros quatro estilos contra nadadores muito mais altos – e de envergadura e braçada muito maiores, portanto –, em 1984, em Los Angeles. Seu recorde sul-americano daquele dia só seria superado por outro brasileiro em maio passado, Thiago Pereira – 17 centímetros mais alto que Prado.

 

Na atual equipe olímpica brasileira há outros exemplos. Hélia de Souza, a Fofão, levantadora da seleção feminina de vôlei, é relativamente baixa para o esporte, com 1,73 metro. A solução foi mudar de posição. "Eu era atacante e não gostava de ser levantadora, mas aprendi a gostar. Vi que era a possibilidade de continuar no vôlei", diz. Vicente Lenílson, do atletismo, passou por uma humilhação no início da carreira, quando desembarcou no Rio de Janeiro para treinar em um novo clube. "Eles viram meus resultados na internet e me contrataram sem me conhecer. No aeroporto, quando me viram pequeno, como eu sou, e magro, como eu era, quiseram me mandar de volta para Natal. Acabei pedindo para ir embora", lembra. De volta ao Rio Grande do Norte, Lenílson encontrou um treinador que olhou mais para seus resultados que para seu biotipo. Quatro anos depois, era medalhista de prata olímpico na equipe do revezamento 4 x 100 metros.

 
Karine Basilio

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Álbum de família