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A calma compensa Simone Seara
Inacio Teixeira/Coperphoto  |  |
| Garçonete do Yemanjá: o sorriso faz a diferença | |
Faz parte do folclore
ligado à Bahia dizer que lá tudo demora para acontecer, em especial
o atendimento nos bares e restaurantes. Em muitos casos, não é verdade,
mas foi pensando nisso que os donos de algumas casas de Salvador começaram,
nos últimos tempos, a investir em mimos direcionados aos clientes que aguardam
uma mesa. Querem, dessa forma, amenizar a irritação e transformar
o tempo de espera em parte do programa. Estava mesmo na hora de isso acontecer,
pois serviços do gênero já são oferecidos há
tempos em numerosas casas Brasil afora.
Um dos que atentaram para o detalhe foi o Mistura Fina, o segundo melhor restaurante
da cidade de acordo com o júri de VEJA Salvador, e famoso por servir
o melhor pescado da capital. O dono, Paolo Alfonsi, criou uma sala especial para
aqueles que chegam à casa em horário de pico e optam por aguardar
uma mesa. O espaço tem equipe própria de atendimento e um cardápio
variado de aperitivos. Acabou se transformando num pedaço divertido da
casa. Outro restaurante, a Companhia
da Pizza, inventou o que chama de "boteco da espera". No começo, era pequeno
e teve de crescer para atender a clientela cada vez mais volumosa. Mesmo assim,
em alguns momentos há menos lugares do que gente faminta. O espaço
dedicado aos sem-mesa fica do lado de fora, na calçada, e conta com confortáveis
bancos de madeira, além de um cardápio com quinze tipos de cachaça
para abrir o apetite do cliente. Com toda essa paparicação, as pessoas
até esquecem o fato de estar esperando.
Serviços como esses se somam a outros chamegos que os restaurantes soteropolitanos
já dedicam aos seus clientes. Quem pode negar que o sorriso largo das garçonetes
vestidas à moda tradicional faz diferença em casas como o Yemanjá,
eleito o melhor de cozinha baiana pela quinta vez? E o que dizer das inovações
que Aloísio Melo Filho vem implementando na sua vitoriosa Barraca do Lôro?
Ele oferece à fiel clientela serviços como massagem, duchas para
refrescar os mais acalorados, um deque de madeira para quem não quer sujar
os pés na areia e até aulas de surfe. Pura mordomia. "Sempre procuro
me colocar na posição do cliente", diz. Assim, fica ainda mais gostoso
saborear as ostras fresquíssimas que ele encomenda em Santa Catarina e
tomar a cerveja tinindo de gelada.
Há outros exemplos. O Soho, o melhor japonês e melhor ambiente de
Salvador, pôs uma nutricionista à disposição dos clientes.
O Caminho de Casa que serve comida regional passou a funcionar 24
horas. Agora serve até um café-da-manhã nordestino, das 7
às 11 horas. Resultado: foi eleito o melhor fim de noite da cidade.
| Qual é o seu acarajé?
Inacio Teixeira/Coperphoto  |
| Dinha: quatro gerações no tabuleiro |
Nove
entre dez turistas chegam a Salvador com água na boca só de pensar
no primeiro acarajé a ser saboreado. Mas os bolinhos crocantes, feitos
de massa de feijão, fritos no dendê e recheados com vatapá,
molho vinagrete e camarão seco, são, antes de mais nada, uma mania
entre os moradores da cidade. A ponto de eles se dividirem em torcidas fiéis
desta ou daquela baiana.
Em Salvador
há pelo menos cinco baianas donas de tabuleiros com simpatizantes que beiram
a militância na sua defesa. A disputa deixa as autoras da iguaria inchadas
de orgulho e prontas para a briga. "O meu é o mais crocante", dispara Dinha,
57 anos, de seu principal ponto, no Rio Vermelho. O ofício já ocupou
quatro gerações de sua família.
Pode ser, mas vá convencer disso a Cira, de 51 anos, que tem tabuleiros
no Rio Vermelho e em Itapoan. "Não ligo para inveja. Tem gente que vem
de São Paulo e até dos Estados Unidos para comer meu acarajé",
gaba-se. Já Deny Costa, a "Loura", 46 anos, dezesseis na profissão,
garante que seu quitute, vendido no bairro do Horto Florestal, é o preferido
do ministro da Cultura, Gilberto Gil, sucesso que atribui ao fato de não
deixar ninguém mais botar a mão na sua massa. A baiana Áurea,
45 anos, dona de um tabuleiro famoso no bairro do Costa Azul, pensa como Loura.
"Não dá para manter a qualidade tendo três ou quatro tabuleiros
para administrar", diz. "Regina mesmo agora fica mais em casa, administrando o
negócio", cutuca. Pura verdade.
Não é sempre que se encontra Regina, 53 anos, em seus três
pontos, no Rio Vermelho, no Pituaçu e na Graça. Mas ela jura de
pés juntos que faz a massa e a entrega todos os dias para as filhas fritarem.
"Minha receita tem treze anos de tradição", defende-se.
Apesar das alfinetadas aqui e ali, ninguém
admite uma possível guerra entre os tabuleiros de ouro da cidade. "Quando
vou ao Farol de Itapoan tomar uma cervejinha, gosto de comer o acarajé
de Cira", revela, amistosa, Regina. Dinha, que administra quinze pontos, também
apazigua os ânimos. "O sol nasceu para todas", diz. Quem ganha com a competição
é o consumidor, que tem a qualidade do seu acarajé garantida e pode
continuar se deleitando em qualquer desses tabuleiros com as mais
caprichadas versões da melhor receita baiana. | | |