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Pedro Rubens
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Informação
não basta
Muitas
vezes o jovem esquece ou abandona
tudo o que sabe em algum lugar da cabeça.
E isso o coloca cara a cara com o risco
Um
ponto que une a atual geração de jovens é a
grande quantidade de informação a que ela é
exposta desde muito cedo. O conhecimento está sempre ali,
à distância de poucos toques e tecladas dos dedos.
O jovem aprende, de forma surpreendente e precoce, a lidar com várias
fontes de informação ao mesmo tempo. Ele funciona
como uma grande antena, sempre ligada, sempre captando. E faz tudo
isso muito bem.
O
quarto de dormir virou uma espécie de quartel-general da
informação. De posse de controles remotos, botões,
teclado e mouse, o mundo das notícias e das novidades se
abre para o jovem de hoje como os adultos, no passado, descascavam
uma banana. Ficou muito mais fácil ter o conhecimento.
Por
outro lado, o que se vê é que muito pouco dessa informação
é aproveitada pelo jovem para a construção
de um mundo melhor e mais seguro para ele mesmo. Não que
a informação não esteja ali, fincada de forma
definitiva em seus neurônios. Mas, muitas vezes, ela é
esquecida ou propositadamente abandonada, ali mesmo, dentro da cabeça.
Do saber para o fazer, cria-se um abismo, diversas vezes, intransponível.
E essa distância pode colocar o jovem cara a cara com o risco.
Alguns
trabalhos recentes que investigaram o comportamento dos jovens,
principalmente em relação à sexualidade e ao
uso de drogas, revelam melhor essa situação. Pesquisa
do Ministério da Saúde em parceria com o Centro Brasileiro
de Análise e Planejamento (Cebrap), de 1999, mostra que a
faixa dos 16 aos 25 anos é a mais bem informada sobre Aids.
No entanto, esse conhecimento não parece refletir-se em comportamento
seguro. Apesar de ser a faixa etária que melhor conhece a
camisinha, o uso regular ainda está longe do desejado. Quarenta
e quatro por cento dizem usar sempre garotos usam mais que
garotas (53% contra 35%). A informação não
impede que os jovens sejam aqueles que mais se expõem a risco
sexual.
Ilustração Baptistão
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No campo das drogas, o fenômeno não é muito
diferente. Em um estudo do Centro Brasileiro de Informações
sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), de 1997, o uso de drogas
entre os jovens também se revelou elevado. Vinte e cinco
por cento dos estudantes de ensino fundamental e médio de
escolas públicas já experimentaram algum tipo de droga
na vida, além do tabaco e do álcool. As campanhas
e o bombardeio de informações sobre esse assunto são
freqüentes, mas parecem enfrentar uma resistência ainda
maior que no campo da sexualidade.
Como
trabalhar a informação de maneira que ela seja acessada
e utilizada na hora em que for necessária? Se apenas a informação
e a razão não parecem segurar o ímpeto desafiador
e imprudente do jovem, o que fazer? As apostas se voltam para o
impreciso e pantanoso mundo das emoções. Pode ser
que aí repouse a chave para o entendimento do que se passa.
No
sexo, o medo de falhar, a angústia de não saber fazer,
vergonha, timidez, a sensação de que a paixão
imuniza contra tudo e contra todos, a tentativa de forçar
um pacto de fidelidade, a troca de um risco pretensamente calculado
pela vivência mais intensa do prazer, tudo isso faz com que,
na hora H, a informação fique no fundo da gaveta,
junto com o pacote intacto da camisinha.
Com
a droga não é muito diferente: a pressão dos
amigos, o desejo de experimentar sensações diferentes,
a promessa do passaporte para pertencer a uma turma, o desafio,
a transgressão de regras e limites, o alívio de uma
angústia, o prazer, a falta de opção para o
lazer, o vácuo emocional nas famílias são fatores
que condenam as campanhas e os trabalhos de prevenção
ao esquecimento.
Em
São Paulo não há fim de semana em que não
se leia uma notícia de acidente fatal com jovens embriagados.
Poucos meses atrás, uma batida de carro em uma das marginais
da cidade chamou a atenção de especialistas. Um grupo
de jovens morreu em mais um acidente. No bolso e na carteira de
todos eles, camisinhas foram encontradas. Por que, de um lado, a
prevenção estava lá no bolso, ao alcance das
mãos, e, de outro, a imprudência de guiar embriagados
acabou com a vida deles? Por que esse risco óbvio e imediato
não foi enxergado? É como se uma pequena chave, um
controle do racional, tivesse sido mudada de posição.
A
informação traz o mundo da razão, o mundo das
regras, o mundo do real para a vida do jovem. Talvez em alguns momentos
ele queira justamente esquecer esse mundo real para viver em outro,
mais livre, sem limites, mais lúdico, mais emocional, onde
possa fazer o que bem quiser. Dentro dessa percepção
distorcida, ele vê a informação como empecilho,
como obstáculo, não como apoio e ajuda. Nessa hora,
ele entende que a informação atrapalha e, assim, desliga
esse filtro e deixa a vida exposta ao risco acontecer.
Os
tempos modernos, nesse aspecto, também são mais cruéis.
Talvez algumas décadas atrás, descontados certos mecanismos
de controle social mais rígidos, o grau de transgressão
(se é que esse indicador pode ser calculado) entre os jovens
fosse muito próximo do que é hoje. Mas o mundo era
menos agressivo e menos violento. As drogas menos disponíveis
e menos potentes, os carros menos velozes e em menor quantidade,
as ruas mais tranqüilas, a vida mais calma e menos competitiva.
Tudo isso, arranjado de outra maneira, em pleno século XXI,
aproxima o jovem do risco.
Mas
o paradigma continua. Se hoje não existem limites em nossa
capacidade de gerar informação, há um limite
claro em nossa possibilidade de transformar essa informação
em objeto prático de uso e proteção da vida
dos jovens. Algumas pistas são claras: a emoção
tem peso fundamental nessa equação, a informação
deve ultrapassar o campo da razão, o jovem de hoje, precoce
e antenado, não aceita um discurso pronto e acabado, a simples
proibição ou a radicalização de limites
e regras é inoperante no mundo atual e alguns valores fundamentais
para a vida ficaram atolados na pressa e na competição
do mundo atual. Um pouco de tudo isso pode orientar a qualidade
das informações para um novo rumo. Talvez essa não
seja uma tarefa imediatamente possível. Talvez só
essa própria geração, escapando de suas derrapadas,
consiga amadurecer e ampliar os elos entre a razão e a emoção
para seus filhos.
Jairo
Bouer
Psiquiatra e apresentador do programa
diário Ao Ponto, no Canal Futura
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