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Edição Especial . 18 de setembro de 2002
 
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A distância também conta

Longos percursos e congestionamentos
podem prejudicar o rendimento escolar

Simone Seara


Fernando Vivas
Van do Nossa Senhora da Conceição: o colégio se responsabiliza pelo transporte

Todos os dias, 31.000 crianças e adolescentes utilizam transporte escolar em Salvador, segundo estimativa da Secretaria de Transportes Públicos do Estado da Bahia (STP). Outros milhares são levados à escola pelos próprios pais. De acordo com os psicólogos, enfrentar trânsito intenso e longos percursos na ida e na volta pode prejudicar as crianças, principalmente as mais novas. "A longa viagem diária pode afetar o rendimento escolar", afirma a psicopedagoga Marília de Pádua, gerente do projeto Lego Dacta na Bahia. "A criança chega à escola cansada e tem prejuízo até no horário das refeições. Isso altera o ritmo biológico e pode provocar problemas de aprendizado."

Essas desvantagens são mais sentidas pelas crianças de até 9 anos de idade. "O maior problema é o desgaste físico", explica a pedagoga Zulamar Aurélio, do Centro de Estudos e Assessoria Pedagógica (Ceap). "No caso dos que utilizam o transporte escolar, ele é ainda maior, porque os veículos param várias vezes durante o trajeto." Mãe de Álvaro, 8 anos, e de Alexandre, 4, a própria Zulamar viu os filhos enfrentar esse problema. Ela lembra que o mais velho queixava-se sempre por chegar atrasado e perder as histórias contadas pela professora. "No dia em que o tiramos do transporte escolar e começamos a levá-lo, ele escreveu no diário que estava feliz por não se atrasar mais."

Os especialistas frisam, porém, que a distância não deve ser o único critério na hora de matricular um filho pequeno numa escola. Aí, valem o bom senso e o cálculo do custo e do benefício entre a distância e as características da instituição à qual se pretende entregar um capítulo tão importante da formação da criança. "O que os pais devem olhar primeiro é a proposta da escola", ressalta Zulamar. "A qualidade vem antes do critério geográfico."

A advogada Susana Marinho Punzi, mãe de Bruno, 11, Beatriz, 9, e Lucas, 4, teve de resolver essa equação. Todos os dias, ela leva as crianças da Avenida Paralela até o colégio Antonio Vieira, no Garcia, num percurso de 18 quilômetros que dura vinte minutos quando o trânsito está bom. Ela lembra que essa viagem já foi pior quando a família morava no bairro de Itapuã e tinha de pegar dois ônibus para levar Bruno e Beatriz a escolas diferentes. "Bia tinha náuseas com freqüência no trajeto para a escola, pois enfrentávamos um sol forte", recorda a mãe. "Mas sempre tive a convicção de que estava fazendo a coisa certa. Sigo o exemplo de meus pais, que fizeram questão de me colocar em um colégio bom." Numa época, até seu marido reprovava esses deslocamentos, mas ela não tem dúvida de que, se necessário, faria tudo de novo. E recebe o apoio dos filhos. "A distância nunca atrapalhou meus estudos", diz Bruno. "Acho que valeu a pena."

Para quem resolve agir como Suzana, compensa seguir alguns conselhos. Um é dar atenção especial ao esquema de horários, para evitar refeições perdidas ou apressadas e garantir que a criança tenha um bom descanso ao retornar da escola. Outro é esforçar-se para não fazer dessa viagem um roteiro de tensões, reclamando do trânsito, cobrando tarefas ou se queixando da obrigação. Diante de qualquer uma dessas possibilidades, melhor seria mandar o filho para a escola na companhia dos coleguinhas, mesmo que a perua escolar demore mais tempo do que o carro da família no percurso. "Vivemos uma época na qual os pais têm pouco tempo para os filhos", diz a psicóloga Eliane Koziner. "Por isso, aqueles que podem acompanhá-los à escola fazem muito bem se conseguem transformar essa viagem diária num momento de intimidade e de troca de experiências."

Para quem não tem a opção de levar os filhos pessoalmente ao colégio, há uma relação de detalhes a observar. A legislação determina que o veículo deve ter no máximo cinco anos de fabricação e precisa afixar no vidro frontal o selo da vistoria feita pela Secretaria de Transportes. Ao todo, são quatro vistorias por ano. Também se exigem a padronização do veículo, com a inscrição "escolar" do lado de fora, cintos de segurança individuais, equipamento controlador de velocidade e respeito rígido ao limite de passageiros. Menores de 7 anos têm de ser assistidos por um acompanhante. O motorista do transporte escolar recebe treinamento especializado, com cursos de direção defensiva e de primeiros socorros. Para receber a habilitação especial, o condutor deve ser maior de 21 anos, não pode ter cometido infrações graves nos últimos doze meses e precisa ter bons antecedentes.

"Não entreguem seus filhos ao transporte clandestino porque o carro não tem vistoria, o motorista não é treinado e as crianças podem correr risco de acidentes", alerta Adelson Pinheiro Chagas, da Secretaria de Transportes Públicos. De acordo com Adelson, Salvador possui atualmente 1.262 veículos de transporte escolar legalizados. Dois últimos conselhos podem ajudá-lo a tomar essa decisão mais tranqüilamente. O primeiro é comparar os veículos e também os trajetos, para que seus filhos possam ser acomodados na perua escolar com mais conforto. O segundo é consultar sempre a criança sobre como ela se sente no percurso. Se ela reclamar, vale a pena conferir pessoalmente.

 
TOME NOTA

Mesmo que nenhuma escola próxima se enquadre no perfil que você procura para educar seu filho, algumas precauções podem tornar a vida dele mais fácil. Uma opção é escolher um estabelecimento que tenha fácil acesso.

Se você for levá-lo pessoalmente, aproveite o tempo gasto no percurso para botar a conversa em dia, esclarecer dúvidas e até mesmo comentar a lição de casa e as dificuldades que ele enfrenta no colégio. Se a alternativa for o transporte escolar, certifique-se de que o veículo é cadastrado e vistoriado pela Secretaria de Transportes Públicos (STP).

     
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