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PROFESSORES
Eles fazem
a diferença
Usar
a criatividade para estimular os
alunos é
o maior desafio dos educadores
nos dias de hoje
Fernando Vivas
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| Aula
de desenho na praia: a idéia é tirar os alunos da sala |
A professora
de matemática Graça Abu-Chacra sabe que é uma
privilegiada. Depois de dez anos se desdobrando para trabalhar simultaneamente
em três colégios, hoje ela leciona apenas no Antônio
Vieira. "O fato de atuar só em uma escola permite que eu
me dedique mais aos alunos e faça um trabalho melhor", afirma.
Assim como Graça, 80% dos professores do ensino fundamental
do Antônio Vieira são exclusivos da escola. Trabalhando
em uma única instituição, eles têm mais
tempo para preparar as aulas, analisar a eficiência da metodologia
adotada e se atualizar constantemente.
Para
a maioria dos 18.000 professores da rede
particular de Salvador, entretanto, a realidade é bem diferente.
Com piso salarial de 2,31 reais por hora de aula, um dos mais baixos
do país, os educadores precisam cumprir até cinqüenta
horas de aula por semana para compor um salário decente.
Dessa forma, não dispõem de tempo para se aprimorar.
"Normalmente, como é mal remunerado, o professor se desdobra
e trabalha em várias escolas", diz a professora titular da
Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia
(Ufba) Iracy Picanço. "Nesses casos, sobra pouco tempo para
se desenvolver, ter uma formação cultural, planejar
e conseguir uma aproximação adequada com os alunos."
O
professor de filosofia Adonis Cairo Costa é um exemplo. Durante
quase três anos, lecionou em três escolas simultaneamente
e chegou a ser responsável por vinte turmas. "Eram mais de
1.000 alunos. Eu passava os fins de semana
corrigindo provas e não tinha tempo para mais nada", afirma.
Atualmente trabalhando exclusivamente no Instituto Social da Bahia
(Isba), Adonis acredita que pode desenvolver o magistério
com muito mais qualidade. "Tenho tempo para preparar as aulas, estudar
e até para fazer o mestrado que sempre quis." Outra dificuldade
enfrentada pelos educadores é o excessivo número de
alunos em sala, sobretudo no ensino médio. "Tenho uma turma
com 64 estudantes", relata o professor de história Francisco
de Oliveira Júnior, que trabalha em outra instituição.
"Com uma quantidade dessas, é quase impossível fazer
um bom trabalho."
Fernando Vivas
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| Química
no Antônio Vieira: 80% dos professores são exclusivos |
Diante
dessas barreiras, os profissionais que atuam nos melhores colégios
de Salvador sabem que fazem parte de uma restrita elite de educadores.
Além de receber salários bem acima da média
do mercado, eles são remunerados para planejar e avaliar
os resultados de seus programas em reuniões semanais, com
o apoio, ainda, de equipes de coordenadores pedagógicos.
Também são incentivados a fazer cursos de capacitação,
muitas vezes pagos pela própria escola. "Ganho muito mais
no Módulo que na universidade", afirma José Pedro
Lessa, que divide seu tempo entre o colégio e o Instituto
de Química da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
O
salário torna-se assim um elo de fixação do
professor na instituição, mas não é
o único. Ter liberdade para realizar um trabalho educativo
coerente com os valores nos quais se acredita pode, para muitos,
ser tão importante quanto a remuneração. "O
que mais me gratifica é que no Antônio Vieira, além
da preocupação acadêmica, há grande compromisso
com a formação humana do aluno", diz Graça.
"Isso faz com que, apesar de uma ou outra dificuldade, o profissional
continue a ter estímulo para trabalhar."
É
claro que, para usufruir todas essas vantagens, os professores têm
de oferecer a contrapartida. Antes de ingressar numa escola do grupo
de elite, os docentes são submetidos a rigorosos processos
seletivos, que incluem criteriosa análise de currículo,
entrevistas e, muitas vezes, até aulas experimentais. Saber
usar o computador também é importante. "Quando contratamos
novos professores, o domínio da informática é
uma das exigências", afirma o padre João Pedro Conrado,
diretor do Antônio Vieira.
A
análise do educador vai muito além da mera avaliação
de sua formação e suas habilidades especificamente
relacionadas ao ensino. Já não bastam o diploma de
uma respeitável faculdade nem o pleno domínio da matéria
ensinada. Tão importante quanto isso é saber transmitir
o conhecimento de maneira estimulante, capaz de prender a atenção
de uma classe. Esse é o segredo, o diferencial entre o bom
profissional e o mediano. "Hoje, o professor não pode mais
se limitar a ser um mero repetidor de aulas", diz a professora Adelaide
Rezende, diretora da Consultec, empresa que presta consultoria a
diversos colégios de Salvador. "Ele precisa ter a capacidade
de parar, ouvir e entender o que está acontecendo para interagir
com o aluno."
Fernando Vivas
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| Aula
de convívio social no Módulo: noções de ética e respeito ao
próximo |
Não
são poucas as crianças e os adolescentes que trazem
uma vasta bagagem de conhecimentos de casa, apreendida sobretudo
via televisão e internet. "O jovem de hoje tem acesso a muita
informação científica, estética e cultural
fora da escola", diz o diretor do Módulo Jayme Barros. "Nosso
papel passou a ser apoiar sua formação, incutir nele
um senso de análise crítica e estimular a pesquisa."
Para mostrar essa competência, o professor precisa, no mínimo,
ter acesso às mesmas fontes e entusiasmo na convivência
com elas. É justamente para compreender o que se passa na
cabeça da nova geração que Barros faz questão
de continuar lecionando literatura duas vezes por semana para as
turmas da 3ª série do ensino médio.
"A
aula expositiva está em franca decadência", ensina
o professor de filosofia Adonis Cairo Costa, exemplificando quanto
tem de ser criativo o mestre dos dias atuais. "Não é
possível mais dar uma atividade em que o aluno apenas escute."
Para prender a atenção da turma, Adonis sempre inicia
as aulas falando sobre um fato real ligado ao conteúdo a
ser trabalhado. Colocar a turma sentada em círculo e usar
recursos audiovisuais são outras estratégias utilizadas
para seduzir os inquietos adolescentes. "É preciso aproximar
ao máximo a disciplina do universo da garotada para obter
melhor aproveitamento", ele diz. Professora de história da
arte e desenho geométrico do Isba, Maria Aparecida Pimentel
Morato costuma levar seus alunos à praia, bem em frente ao
colégio, para exercícios de desenho. "Sair da sala
de aula os estimula", afirma ela. O professor de filosofia do Módulo
Walmir Alves da Fonseca enfatiza as mudanças no papel dos
educadores. "Antigamente, o que mais me preocupava era cumprir o
programa", recorda Fonseca. "Hoje, meu esforço é todo
direcionado para ensinar o aluno a pensar."
O
resultado da avaliação dessas escolas e a opinião
dos estudantes sobre seus professores mostram que esse é
o caminho certo. "Quando o professor consegue ligar o tema da aula
com a nossa realidade é muito mais fácil aprender",
afirma Clarice Sampaio, 15 anos, aluna da 1ª série do
ensino médio do Módulo.
TOME
NOTA |
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O professor deve estar próximo do aluno, mas isso não
significa que os dois sejam iguais. "Hoje, todo mundo quer
ser democrático e amigo", diz a psicopedagoga Raquel
Whitaker. "Não podemos esquecer, entretanto, que ao
professor cabe também fixar regras e impor limites."
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