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Edição Especial . 18 de setembro de 2002
 
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PROFESSORES

Eles fazem a diferença

Usar a criatividade para estimular os
alunos
é o maior desafio dos educadores
nos dias de hoje


Fernando Vivas
Aula de desenho na praia: a idéia é tirar os alunos da sala

A professora de matemática Graça Abu-Chacra sabe que é uma privilegiada. Depois de dez anos se desdobrando para trabalhar simultaneamente em três colégios, hoje ela leciona apenas no Antônio Vieira. "O fato de atuar só em uma escola permite que eu me dedique mais aos alunos e faça um trabalho melhor", afirma. Assim como Graça, 80% dos professores do ensino fundamental do Antônio Vieira são exclusivos da escola. Trabalhando em uma única instituição, eles têm mais tempo para preparar as aulas, analisar a eficiência da metodologia adotada e se atualizar constantemente.

Para a maioria dos 18.000 professores da rede particular de Salvador, entretanto, a realidade é bem diferente. Com piso salarial de 2,31 reais por hora de aula, um dos mais baixos do país, os educadores precisam cumprir até cinqüenta horas de aula por semana para compor um salário decente. Dessa forma, não dispõem de tempo para se aprimorar. "Normalmente, como é mal remunerado, o professor se desdobra e trabalha em várias escolas", diz a professora titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Iracy Picanço. "Nesses casos, sobra pouco tempo para se desenvolver, ter uma formação cultural, planejar e conseguir uma aproximação adequada com os alunos."

O professor de filosofia Adonis Cairo Costa é um exemplo. Durante quase três anos, lecionou em três escolas simultaneamente e chegou a ser responsável por vinte turmas. "Eram mais de 1.000 alunos. Eu passava os fins de semana corrigindo provas e não tinha tempo para mais nada", afirma. Atualmente trabalhando exclusivamente no Instituto Social da Bahia (Isba), Adonis acredita que pode desenvolver o magistério com muito mais qualidade. "Tenho tempo para preparar as aulas, estudar e até para fazer o mestrado que sempre quis." Outra dificuldade enfrentada pelos educadores é o excessivo número de alunos em sala, sobretudo no ensino médio. "Tenho uma turma com 64 estudantes", relata o professor de história Francisco de Oliveira Júnior, que trabalha em outra instituição. "Com uma quantidade dessas, é quase impossível fazer um bom trabalho."


Fernando Vivas
Química no Antônio Vieira: 80% dos professores são exclusivos

Diante dessas barreiras, os profissionais que atuam nos melhores colégios de Salvador sabem que fazem parte de uma restrita elite de educadores. Além de receber salários bem acima da média do mercado, eles são remunerados para planejar e avaliar os resultados de seus programas em reuniões semanais, com o apoio, ainda, de equipes de coordenadores pedagógicos. Também são incentivados a fazer cursos de capacitação, muitas vezes pagos pela própria escola. "Ganho muito mais no Módulo que na universidade", afirma José Pedro Lessa, que divide seu tempo entre o colégio e o Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

O salário torna-se assim um elo de fixação do professor na instituição, mas não é o único. Ter liberdade para realizar um trabalho educativo coerente com os valores nos quais se acredita pode, para muitos, ser tão importante quanto a remuneração. "O que mais me gratifica é que no Antônio Vieira, além da preocupação acadêmica, há grande compromisso com a formação humana do aluno", diz Graça. "Isso faz com que, apesar de uma ou outra dificuldade, o profissional continue a ter estímulo para trabalhar."

É claro que, para usufruir todas essas vantagens, os professores têm de oferecer a contrapartida. Antes de ingressar numa escola do grupo de elite, os docentes são submetidos a rigorosos processos seletivos, que incluem criteriosa análise de currículo, entrevistas e, muitas vezes, até aulas experimentais. Saber usar o computador também é importante. "Quando contratamos novos professores, o domínio da informática é uma das exigências", afirma o padre João Pedro Conrado, diretor do Antônio Vieira.

A análise do educador vai muito além da mera avaliação de sua formação e suas habilidades especificamente relacionadas ao ensino. Já não bastam o diploma de uma respeitável faculdade nem o pleno domínio da matéria ensinada. Tão importante quanto isso é saber transmitir o conhecimento de maneira estimulante, capaz de prender a atenção de uma classe. Esse é o segredo, o diferencial entre o bom profissional e o mediano. "Hoje, o professor não pode mais se limitar a ser um mero repetidor de aulas", diz a professora Adelaide Rezende, diretora da Consultec, empresa que presta consultoria a diversos colégios de Salvador. "Ele precisa ter a capacidade de parar, ouvir e entender o que está acontecendo para interagir com o aluno."


Fernando Vivas
Aula de convívio social no Módulo: noções de ética e respeito ao próximo

Não são poucas as crianças e os adolescentes que trazem uma vasta bagagem de conhecimentos de casa, apreendida sobretudo via televisão e internet. "O jovem de hoje tem acesso a muita informação científica, estética e cultural fora da escola", diz o diretor do Módulo Jayme Barros. "Nosso papel passou a ser apoiar sua formação, incutir nele um senso de análise crítica e estimular a pesquisa." Para mostrar essa competência, o professor precisa, no mínimo, ter acesso às mesmas fontes e entusiasmo na convivência com elas. É justamente para compreender o que se passa na cabeça da nova geração que Barros faz questão de continuar lecionando literatura duas vezes por semana para as turmas da 3ª série do ensino médio.

"A aula expositiva está em franca decadência", ensina o professor de filosofia Adonis Cairo Costa, exemplificando quanto tem de ser criativo o mestre dos dias atuais. "Não é possível mais dar uma atividade em que o aluno apenas escute." Para prender a atenção da turma, Adonis sempre inicia as aulas falando sobre um fato real ligado ao conteúdo a ser trabalhado. Colocar a turma sentada em círculo e usar recursos audiovisuais são outras estratégias utilizadas para seduzir os inquietos adolescentes. "É preciso aproximar ao máximo a disciplina do universo da garotada para obter melhor aproveitamento", ele diz. Professora de história da arte e desenho geométrico do Isba, Maria Aparecida Pimentel Morato costuma levar seus alunos à praia, bem em frente ao colégio, para exercícios de desenho. "Sair da sala de aula os estimula", afirma ela. O professor de filosofia do Módulo Walmir Alves da Fonseca enfatiza as mudanças no papel dos educadores. "Antigamente, o que mais me preocupava era cumprir o programa", recorda Fonseca. "Hoje, meu esforço é todo direcionado para ensinar o aluno a pensar."

O resultado da avaliação dessas escolas e a opinião dos estudantes sobre seus professores mostram que esse é o caminho certo. "Quando o professor consegue ligar o tema da aula com a nossa realidade é muito mais fácil aprender", afirma Clarice Sampaio, 15 anos, aluna da 1ª série do ensino médio do Módulo.


 
TOME NOTA

O professor deve estar próximo do aluno, mas isso não significa que os dois sejam iguais. "Hoje, todo mundo quer ser democrático e amigo", diz a psicopedagoga Raquel Whitaker. "Não podemos esquecer, entretanto, que ao professor cabe também fixar regras e impor limites."

     
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