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Edição Especial . 18 de setembro de 2002
 
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A CAMPEÃ

O Nobel é o colégio
do futuro no presente

Corpo docente qualificado, estável e
bem remunerado explica o ótimo
desempenho da escola

Lívia de Almeida


Fernando Vivas
Alunos da 4ª- série visitam o museu Carlos Costa Pinto: ampliando o horizonte cultural

Uma diminuta cancela, acionada por um sensor, impede a passagem de um carrinho. Diante de uma tela de computador, três estudantes da 7ª série comemoram a conclusão do projeto que desenvolveram durante as aulas semanais de robótica: um dispositivo que permite multar, em flagrante, motoristas infratores. Em outros anos, as turmas montaram robôs que lutavam sumô, jogavam futebol e conseguiam orientar-se em labirintos. O admirável mundo novo da tecnologia está integrado ao cotidiano dos 1 000 alunos do Colégio Alfredo Nobel. Apontado pela pesquisa VEJA-Ipsos Marplan como o melhor estabelecimento de ensino fundamental e médio de Salvador, o Nobel está no seleto grupo de instituições Brasil afora que incorporaram a robótica ao currículo dos alunos da 5ª à 8ª série do ensino fundamental. Antes disso, até a 4ª série, a criançada tem aula de educação tecnológica, uma espécie de introdução à disciplina. "O objetivo não é criar geniozinhos da informática", esclarece o diretor-geral do Nobel, Alceu Lisboa Filho, engenheiro e professor de física. "O que estamos querendo é desenvolver o raciocínio lógico, necessário para o bom desempenho em todas as disciplinas e na vida." Os resultados são visíveis, segundo Maria do Rosário Paim, coordenadora pedagógica da 5ª à 8ª série. "A matemática deixou de ser um bicho-papão", diz ela. "Tivemos grandes progressos também em interpretação de texto e história."

A escola, que encara o futuro de olhos bem abertos, já completou trinta anos. Começou como cursinho pré-vestibular comandado por um quarteto de professores. Cinco anos depois, abriu turmas de ensino médio. Por seus bancos passaram personalidades tão diversas quanto a cantora Ivete Sangallo, o jogador de futebol Bebeto e o economista Daniel Dantas. Chegou a ter 10.000 alunos distribuídos em seis sedes em meados da década de 80, quando a sociedade se desfez. Na partilha, couberam a Alceu o uso da marca e a sede do Itaigara, com 9.000 metros quadrados. No que parecia ser um atentado ao bom senso, no início dos anos 90 ele desativou as turmas do cursinho – então com 2.400 alunos – e concentrou seus esforços no colégio. Neste ano abriu sua faculdade, a Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação, no turno da noite. Viajou pelo mundo em busca de novas metodologias. Foi assim que surgiu o Projeto Robótica, implantado há três anos. "Não é possível educar no início do século XXI apenas com professor e giz. Escola tem de ter laboratórios, exibição de filmes e trabalhos de campo, senão fica chata", costuma repetir o diretor.


Fernando Vivas
Aula de robótica: objetivo é estimular o raciocínio lógico

Uma infra-estrutura adequada, explorada por professores motivados, mostra resultados em todos os níveis de ensino. Em uma manhã típica, é possível encontrar no prédio do Itaigara uma turma de 1º ano do ensino médio fazendo experiências sobre as leis de Newton no laboratório de física. Do outro lado do corredor, na sala de biologia, estudantes do 3º ano acompanham pelo vídeo as imagens captadas no microscópio do professor. Quando a aula acaba, o mesmo laboratório recebe a algazarra dos meninos do 3º ano do ensino fundamental, que vão examinar peças tridimensionais que reproduzem, em tamanho natural, órgãos do corpo humano. Ao mesmo tempo, em um dos três laboratórios de informática, duplas de adolescentes da 7ª série podem estar resolvendo equações de segundo grau, usando softwares israelenses. Ao terminarem, receberão um relatório com a análise de seu desempenho. "É um importante complemento para o trabalho que desenvolvemos em sala de aula", afirma o professor de matemática João Pontes Ventim. "Sinto que assim os garotos ficam mais motivados."

Mas a alma de uma escola não está em suas instalações, por mais vistosas que sejam. Só um corpo docente bem preparado e organizado é capaz de garantir a excelência do ensino. No Nobel, nota-se o esforço para alcançar essas qualidades. A equipe docente desfruta de estabilidade e de alguns dos melhores salários da cidade. Um professor das séries iniciais do ensino médio recebe em média 2.200 reais, para uma carga horária de 25 horas, valor bem superior à média praticada em Salvador, que não faria feio nem mesmo nas capitais do Sudeste. Seus filhos têm direito a bolsa de estudos integral. Nem toda a carga do docente é cumprida dentro da sala de aula. As reuniões – remuneradas como hora-aula – são freqüentes para todos os níveis. O planejamento de atividades e projetos é semanal até a 4ª série e quinzenal para as demais. Oficinas e cursos também podem entrar na programação, dependendo da demanda dos docentes. Quando a robótica foi introduzida no currículo, por exemplo, os professores da 5ª à 8ª série passaram por oficinas para conhecer a disciplina. "Todos participaram", conta Maria do Rosário. Graças a esse esforço, a novidade se tornou uma importante ferramenta para a realização de projetos interdisciplinares. "Fazemos estações meteorológicas para geografia ou discussões sobre Revolução Industrial para história, e depois os relatórios escritos são avaliados pelo professor de português", diz o titular de robótica, Mário Sérgio de Almeida.

Além dos encontros de planejamento, os mestres têm semanalmente duas horas de reunião, à noite, para tratar dos aspectos teóricos e práticos do cotidiano escolar. Os temas variam. Para dar a partida nas conversas, cada coordenação dispõe de um acervo de fitas de vídeo com entrevistas e palestras de pedagogos sobre os mais variados temas. Critérios de avaliação, por exemplo, foram debatidos recentemente entre professores das quatro primeiras séries do ensino fundamental. A coordenadora desse segmento, Lilia Resende, também organiza rodas de leitura para os mestres. "Se nosso objetivo é formar alunos leitores, precisamos ter em nossos quadros professores leitores, que se deleitem com os livros", afirma.

Fernando Vivas
Laboratório de biologia: aula prática facilita o aprendizado


Os salários e as condições de trabalho capazes de permitir que mais da metade dos docentes se dediquem exclusivamente ao Nobel também atraíram para a equipe profissionais bem qualificados, como a própria Lília, que ministra cursos de atualização para docentes em programas organizados pelo Ministério da Educação. Uma estrela da casa é o professor de matemática Octamar Marques, adjunto de cálculo integral do curso de engenharia civil da Universidade Federal da Bahia. "Aqui encontrei um excelente ambiente de trabalho com toda a estrutura de que preciso para render o máximo", diz Marques. "Para completar, os alunos já vêm com uma bagagem considerável." O professor é um daqueles especialistas em pré-vestibular cujo passe é disputado a peso de ouro nos principais colégios e cursos da cidade. Atualmente, dá aula no Nobel e em apenas mais uma escola. "O investimento em profissionais bem preparados é o que valoriza uma instituição de ensino ", declara o diretor Alceu Lisboa Filho.

Em sala de aula, o limite do número de alunos é baixo: nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, há no máximo vinte crianças. Assim, existem condições para que o professor ofereça atenção quase individualizada aos alunos. As crianças têm a opção de estudar em tempo integral por um acréscimo de 35 reais na mensalidade, que garante, entre outras coisas, prática esportiva e acompanhamento pedagógico. As turmas pequenas permitem que, em todos os níveis, os alunos sejam avaliados não apenas por desempenho em testes e provas, mas também por sua atitude em relação aos estudos. Participação em sala, iniciativa, dever de casa entregue no prazo e organização compõem 20% da nota do boletim. Para facilitar o cotidiano da turma que atravessa a fase mais aérea da vida escolar – os anos críticos entre a 5ª e a 8ª série –, as tarefas de casa são lançadas diariamente na internet. "É um tremendo dedo-duro para os pais", brinca a coordenadora Maria do Rosário Paim. A garotada não costuma reclamar. "Precisamos estudar, sim, mas não é uma pressão excessiva", diz Milena Carvalho Souza, 17 anos, vice-presidente do grêmio estudantil. "O mais legal é que é muito fácil falar com qualquer professor ou até com o dono da escola."

Diferentemente de outras instituições, o Nobel não se preocupa em espremer o conteúdo do vestibular nos dois primeiros anos do ensino médio. Toca-se o currículo normal e, na 3ª série, a garotada passa a freqüentar a escola também na parte da tarde, para aulas de revisão, provas e sessões de tira-dúvidas com monitores. Os resultados têm sido bons. No ano passado, 82% dos candidatos entraram em cursos superiores. "Não precisei me matar de estudar nem no ano do vestibular", afirma Cássio Bruno Pigozzo, 18 anos, aluno do Nobel desde a educação infantil e primeiro colocado em física no vestibular 2002 da Universidade Federal da Bahia. "Continuei na equipe de vôlei e ainda trabalhei na loja de meu pai. Passei sem problemas porque recebi uma base sólida e aprendi a estudar."

     
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