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A CAMPEÃ
DO ENSINO MÉDIO
Recanto, a
escola
sem muros
Inspirado
na pedagogia Freinet,
o colégio obtém o
primeiro lugar
no ensino médio
Lívia
de Almeida
E. Queiroga/Lumiar
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| Atividade
de pintura no ensino médio: aulas de arte mesmo às vésperas
do vestibular |
Os
três anos que antecedem o vestibular costumam sepultar projetos
pedagógicos mais ousados. A simples transmissão dos
conteúdos exigidos nos exames se transforma em prioridade,
deixando de lado práticas para a construção
do conhecimento que não parecem condizer com a correria dos
preparativos para o concurso. Trabalhos de campo, observação
e experiências dão lugar a aulas expositivas, nas quais
o ensino é movido apenas pela tradicional dobradinha cuspe-e-giz.
Aulas em que o mestre fala e os alunos apenas escutam. Nada disso
acontece na Escola Recanto, o melhor estabelecimento de ensino médio
do Recife, segundo a pesquisa VEJA-Ipsos Marplan. Entre seus grandes
méritos está o fato de preparar para o vestibular
sem abrir mão de seus princípios, fundamentados pela
pedagogia do francês Célestin Freinet (1896-1966).
"Ele sonhava com uma escola sem muros, onde a vida pudesse entrar
e que também estivesse efetivamente inserida na vida de sua
comunidade", descreve Maria de Fátima Morais, diretora da
Recanto. Aulas-passeios e conselhos de classe semanais, nos quais
alunos e professores discutem o encaminhamento das lições
práticas celebradas por Freinet , continuam
a fazer parte do cotidiano dos jovens mesmo às vésperas
do vestibular.
A
Escola Recanto foi inaugurada em 1969, pouco depois de Fátima
se formar em pedagogia, inspirada pela obra de Paulo Freire e pela
experiência em arte-educação de Augusto Rodrigues,
da Escolinha de Arte do Brasil. "Naquela situação
de repressão em que vivíamos, o que a gente queria
era oferecer um espaço onde a criança pudesse expressar-se
livremente e aprender a lutar por suas idéias e seus direitos
de cidadã", recorda-se a diretora. Fátima entrou em
contato com a pedagogia de Freinet na década de 70 e se identificou
com sua preocupação com a liberdade de expressão,
a participação dos alunos no processo educacional
e a aproximação entre a escola e o mundo. A diretora
mergulhou nos estudos, dedicando-se a estágios na Bélgica,
na França e em Portugal. Hoje, os pavilhões pelos
quais se espalha, no terreno da Rua Benfica, em Madalena, às
margens do Capibaribe, já somam 850 alunos. A história
da instituição mereceu até um livro publicado
na França em 2000, escrito pelo professor André Lefeuvre,
chamado Do Maternal ao Vestibular, uma Escola Freinet no Brasil.
E. Queiroga/Lumiar
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| Aula
de geografia: turma da 8ª série observa plantação que respeita
o meio ambiente |
O ensino
médio é experiência relativamente recente: começou
apenas em 1993, depois de muita insistência dos pais. Desde
2000, uma cooperativa de professores forma de organização
bem ao gosto de Freinet administra as três últimas
séries da escola. A cooperativa levou para as salas de aula
um grupo de mestres com larga experiência na preparação
para o vestibular. E estabeleceu que o valor da hora-aula se mantenha
constante em todas as séries do ensino médio. Essa
medida amenizou uma distorção comum na maioria dos
estabelecimentos do Recife, nos quais quem ensina na 1ª e na
2ª série costuma receber a metade do que ganham os especialistas
do vestibular. Por 25 horas semanais, um docente do ensino médio
recebe em torno de 2.000 reais por mês
na Recanto, mais que o dobro da média salarial da cidade.
Esse valor atrai para as salas de aula da 1ª e da 2ª série
professores que em outras escolas se limitam a lecionar para o pré-vestibular.
É
o caso da professora de redação Ângela Torres,
que também dá aula no 3º ano de um tradicional
colégio religioso da cidade e em um curso pré-vestibular.
Na Recanto, ela preferiu concentrar-se no aprimoramento da produção
escrita dos alunos das séries iniciais do ensino médio.
"Uma das grandes diferenças que existem em relação
às outras escolas é o número de alunos em sala",
afirma Ângela. "Aqui, as turmas têm no máximo
35 alunos. Por isso, podemos dar um atendimento individualizado
e enfatizar a produção de textos." Como tem poucos
alunos em sala, a professora passa trabalhos escritos a cada semana,
pois tem tempo suficiente para corrigi-los. Pedro Valença,
professor de biologia do 2º e 3º ano, aponta ainda outra
característica. "Esses são alunos que sabem argumentar,
que conseguem expor as idéias com clareza e também
sabem ouvir os pontos de vista dos outros", ele observa. A equipe
de professores costuma reunir-se quinzenalmente com a coordenação
e uma vez por mês com a direção. Mesmo sem ter
muita relação com o modelo tradicional dos cursinhos,
o 3º ano da Recanto não faz feio no vestibular. Em 2002,
75% dos alunos conseguiram passar nas provas de seleção
para as universidades públicas de Pernambuco.
E. Queiroga/Lumiar
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| Conselho
de classe: encontros semanais para discutir o cotidiano escolar
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A parceria
entre professor e aluno é um dos pontos decisivos da pedagogia
de Freinet, perseguida em todas as séries da Recanto. Enquanto
na sala de aula tradicional o professor ocupa a posição
de senhor de todo o conhecimento, o método defende que as
lições devem partir das experiências que crianças
e jovens adquiriram em seu meio. "Ninguém aprende nada se
não está tomado pela vontade de fazer novas descobertas",
diz a diretora Maria de Fátima Morais. Além do currículo
convencional, formado pela grade normal de disciplinas, existe um
currículo espontâneo, criado pelos alunos e professores
com base nas indagações da turma. A avaliação
é contínua: engloba trabalhos de casa, relatórios,
fichas de estudo dirigido corrigidas pelos próprios alunos,
seminários e, a partir da 5ª série, provas dissertativas.
Certas disciplinas, como a educação física,
têm um planejamento participativo: os alunos escolhem quais
atividades desejam explorar com a professora. Neste semestre, por
exemplo, a 7ª série decidiu dividir-se entre lições
de jazz e ginástica calistênica, voltada para a harmonia
das formas do corpo. "A relação com os professores
aqui é muito diferente", diz Nicolau Domingues, 16 anos,
do 2º ano do ensino médio. "Se existe algum problema,
temos abertura para falar na hora. O aluno não é só
um número."
E. Queiroga/Lumiar
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| Alunos
na aula de jazz: ênfase nas atividades artísticas |
Conforme
avançam na vida escolar, a criança e o jovem ocupam
espaços bem diferenciados para o aprendizado. Até
a 4ª série do ensino fundamental, a sala de aula tem
cantinhos dedicados a cada assunto estudado. Da 5ª à
8ª série, os estudantes passam a freqüentar salas-ambiente,
ou melhor, salas preparadas especialmente para atender ao ensino
de uma determinada disciplina, com biblioteca, jogos e materiais
para experiências. Em vez de praticar um rodízio de
disciplinas por tempo determinado de aula, a Recanto, nessa fase,
concentra a carga horária de cada matéria em dois
ou três tempos seguidos. "É o necessário para
que o professor possa verificar o conhecimento espontâneo
dos alunos a respeito de um determinado assunto, forme grupos de
pesquisa e tenha condições de concluir o trabalho",
explica Cláudia Rebello, coordenadora da 5ª à
8ª série. "Assim, o mestre tem condições
de conhecer melhor cada aluno."
No
ensino médio, as turmas ganham salas próprias e uma
conformação mais tradicional. Em todas as séries,
uma parte importante do aprendizado acontece fora dos muros escolares,
nas chamadas aulas-passeios. "Fora da sala de aula, os meninos têm
a oportunidade de conhecer ambientes diferentes e viver situações
que aguçam sua curiosidade, além da importância
que isso tem em sua socialização", diz a diretora
Maria de Fátima. Não se trata simplesmente de colocar
a turma em um ônibus e partir para algum museu ou parque.
Antes do trabalho de campo, essa turma decide o objetivo da expedição,
planeja as atividades e levanta hipóteses sobre o que vai
ser estudado. Na volta, os alunos conferem se as hipóteses
estavam certas e consultam outras fontes de informação
para complementar a pesquisa. A 1ª série do ensino fundamental
neste ano realizou um projeto sobre flores que consumiu três
saídas. A turma conheceu um sítio, visitou o mercado
e também uma importadora de plantas. O resultado do projeto
foi apresentado para toda a escola durante a Mostra de Conhecimento,
em setembro.
E. Queiroga/Lumiar
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| Meninas
em atividade de geografia: colégio trabalha com sistema de sala-ambiente
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As
aulas-passeios integram o projeto de iniciação científica
da escola, que ganha força entre a 5ª e a 8ª série.
Nessa etapa da vida escolar, os garotos produzem anualmente uma
monografia, trabalho de grupo desenvolvido durante todo o ano letivo,
sob a supervisão de um professor-orientador. Trabalhos produzidos
por alunos colecionam prêmios em concursos nacionais. É
o caso de Manguezais, a Importância de sua Preservação,
produzido em 1992, vencedor da Mostra Nacional Ciranda da Ciência
e que acabou sendo publicado pelo governo do Estado para ser distribuído
nas escolas públicas. Irrigação: uma Alternativa
para a Economia de Pernambuco foi premiado na Exposcience 97,
evento realizado na França. No ensino médio, as aulas-passeios
privilegiam laboratórios de pesquisa das universidades, onde
os estudantes podem observar a rotina de trabalho dos cientistas
e acompanhar experimentos.
Outra
atividade pedagógica adotada para colocar os alunos em contato
com fontes variadas de informação é a correspondência
escolar, cartas que os estudantes trocam com crianças de
outras instituições e até com meninos de fora
do Brasil. Em 1996, a correspondência trocada com estudantes
franceses culminou com uma viagem de dezessete alunos da 5ª
série à França. "Conheci meu correspondente
e mantenho contato com ele até hoje", conta Taciana Medeiros,
hoje no 3º ano do ensino médio. "Foi inesquecível."
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