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Edição Especial . 9 de outubro de 2002
 
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A CAMPEÃ DO ENSINO MÉDIO

Recanto, a escola
sem muros

Inspirado na pedagogia Freinet,
o colégio obtém
o primeiro lugar
no ensino médio

Lívia de Almeida


E. Queiroga/Lumiar
Atividade de pintura no ensino médio: aulas de arte mesmo às vésperas do vestibular

Os três anos que antecedem o vestibular costumam sepultar projetos pedagógicos mais ousados. A simples transmissão dos conteúdos exigidos nos exames se transforma em prioridade, deixando de lado práticas para a construção do conhecimento que não parecem condizer com a correria dos preparativos para o concurso. Trabalhos de campo, observação e experiências dão lugar a aulas expositivas, nas quais o ensino é movido apenas pela tradicional dobradinha cuspe-e-giz. Aulas em que o mestre fala e os alunos apenas escutam. Nada disso acontece na Escola Recanto, o melhor estabelecimento de ensino médio do Recife, segundo a pesquisa VEJA-Ipsos Marplan. Entre seus grandes méritos está o fato de preparar para o vestibular sem abrir mão de seus princípios, fundamentados pela pedagogia do francês Célestin Freinet (1896-1966). "Ele sonhava com uma escola sem muros, onde a vida pudesse entrar e que também estivesse efetivamente inserida na vida de sua comunidade", descreve Maria de Fátima Morais, diretora da Recanto. Aulas-passeios e conselhos de classe semanais, nos quais alunos e professores discutem o encaminhamento das lições – práticas celebradas por Freinet –, continuam a fazer parte do cotidiano dos jovens mesmo às vésperas do vestibular.

A Escola Recanto foi inaugurada em 1969, pouco depois de Fátima se formar em pedagogia, inspirada pela obra de Paulo Freire e pela experiência em arte-educação de Augusto Rodrigues, da Escolinha de Arte do Brasil. "Naquela situação de repressão em que vivíamos, o que a gente queria era oferecer um espaço onde a criança pudesse expressar-se livremente e aprender a lutar por suas idéias e seus direitos de cidadã", recorda-se a diretora. Fátima entrou em contato com a pedagogia de Freinet na década de 70 e se identificou com sua preocupação com a liberdade de expressão, a participação dos alunos no processo educacional e a aproximação entre a escola e o mundo. A diretora mergulhou nos estudos, dedicando-se a estágios na Bélgica, na França e em Portugal. Hoje, os pavilhões pelos quais se espalha, no terreno da Rua Benfica, em Madalena, às margens do Capibaribe, já somam 850 alunos. A história da instituição mereceu até um livro publicado na França em 2000, escrito pelo professor André Lefeuvre, chamado Do Maternal ao Vestibular, uma Escola Freinet no Brasil.


E. Queiroga/Lumiar
Aula de geografia: turma da 8ª série observa plantação que respeita o meio ambiente

O ensino médio é experiência relativamente recente: começou apenas em 1993, depois de muita insistência dos pais. Desde 2000, uma cooperativa de professores – forma de organização bem ao gosto de Freinet – administra as três últimas séries da escola. A cooperativa levou para as salas de aula um grupo de mestres com larga experiência na preparação para o vestibular. E estabeleceu que o valor da hora-aula se mantenha constante em todas as séries do ensino médio. Essa medida amenizou uma distorção comum na maioria dos estabelecimentos do Recife, nos quais quem ensina na 1ª e na 2ª série costuma receber a metade do que ganham os especialistas do vestibular. Por 25 horas semanais, um docente do ensino médio recebe em torno de 2.000 reais por mês na Recanto, mais que o dobro da média salarial da cidade. Esse valor atrai para as salas de aula da 1ª e da 2ª série professores que em outras escolas se limitam a lecionar para o pré-vestibular.

É o caso da professora de redação Ângela Torres, que também dá aula no 3º ano de um tradicional colégio religioso da cidade e em um curso pré-vestibular. Na Recanto, ela preferiu concentrar-se no aprimoramento da produção escrita dos alunos das séries iniciais do ensino médio. "Uma das grandes diferenças que existem em relação às outras escolas é o número de alunos em sala", afirma Ângela. "Aqui, as turmas têm no máximo 35 alunos. Por isso, podemos dar um atendimento individualizado e enfatizar a produção de textos." Como tem poucos alunos em sala, a professora passa trabalhos escritos a cada semana, pois tem tempo suficiente para corrigi-los. Pedro Valença, professor de biologia do 2º e 3º ano, aponta ainda outra característica. "Esses são alunos que sabem argumentar, que conseguem expor as idéias com clareza e também sabem ouvir os pontos de vista dos outros", ele observa. A equipe de professores costuma reunir-se quinzenalmente com a coordenação e uma vez por mês com a direção. Mesmo sem ter muita relação com o modelo tradicional dos cursinhos, o 3º ano da Recanto não faz feio no vestibular. Em 2002, 75% dos alunos conseguiram passar nas provas de seleção para as universidades públicas de Pernambuco.


E. Queiroga/Lumiar
Conselho de classe: encontros semanais para discutir o cotidiano escolar

A parceria entre professor e aluno é um dos pontos decisivos da pedagogia de Freinet, perseguida em todas as séries da Recanto. Enquanto na sala de aula tradicional o professor ocupa a posição de senhor de todo o conhecimento, o método defende que as lições devem partir das experiências que crianças e jovens adquiriram em seu meio. "Ninguém aprende nada se não está tomado pela vontade de fazer novas descobertas", diz a diretora Maria de Fátima Morais. Além do currículo convencional, formado pela grade normal de disciplinas, existe um currículo espontâneo, criado pelos alunos e professores com base nas indagações da turma. A avaliação é contínua: engloba trabalhos de casa, relatórios, fichas de estudo dirigido corrigidas pelos próprios alunos, seminários e, a partir da 5ª série, provas dissertativas. Certas disciplinas, como a educação física, têm um planejamento participativo: os alunos escolhem quais atividades desejam explorar com a professora. Neste semestre, por exemplo, a 7ª série decidiu dividir-se entre lições de jazz e ginástica calistênica, voltada para a harmonia das formas do corpo. "A relação com os professores aqui é muito diferente", diz Nicolau Domingues, 16 anos, do 2º ano do ensino médio. "Se existe algum problema, temos abertura para falar na hora. O aluno não é só um número."


E. Queiroga/Lumiar
Alunos na aula de jazz: ênfase nas atividades artísticas

Conforme avançam na vida escolar, a criança e o jovem ocupam espaços bem diferenciados para o aprendizado. Até a 4ª série do ensino fundamental, a sala de aula tem cantinhos dedicados a cada assunto estudado. Da 5ª à 8ª série, os estudantes passam a freqüentar salas-ambiente, ou melhor, salas preparadas especialmente para atender ao ensino de uma determinada disciplina, com biblioteca, jogos e materiais para experiências. Em vez de praticar um rodízio de disciplinas por tempo determinado de aula, a Recanto, nessa fase, concentra a carga horária de cada matéria em dois ou três tempos seguidos. "É o necessário para que o professor possa verificar o conhecimento espontâneo dos alunos a respeito de um determinado assunto, forme grupos de pesquisa e tenha condições de concluir o trabalho", explica Cláudia Rebello, coordenadora da 5ª à 8ª série. "Assim, o mestre tem condições de conhecer melhor cada aluno."

No ensino médio, as turmas ganham salas próprias e uma conformação mais tradicional. Em todas as séries, uma parte importante do aprendizado acontece fora dos muros escolares, nas chamadas aulas-passeios. "Fora da sala de aula, os meninos têm a oportunidade de conhecer ambientes diferentes e viver situações que aguçam sua curiosidade, além da importância que isso tem em sua socialização", diz a diretora Maria de Fátima. Não se trata simplesmente de colocar a turma em um ônibus e partir para algum museu ou parque. Antes do trabalho de campo, essa turma decide o objetivo da expedição, planeja as atividades e levanta hipóteses sobre o que vai ser estudado. Na volta, os alunos conferem se as hipóteses estavam certas e consultam outras fontes de informação para complementar a pesquisa. A 1ª série do ensino fundamental neste ano realizou um projeto sobre flores que consumiu três saídas. A turma conheceu um sítio, visitou o mercado e também uma importadora de plantas. O resultado do projeto foi apresentado para toda a escola durante a Mostra de Conhecimento, em setembro.


E. Queiroga/Lumiar
Meninas em atividade de geografia: colégio trabalha com sistema de sala-ambiente

As aulas-passeios integram o projeto de iniciação científica da escola, que ganha força entre a 5ª e a 8ª série. Nessa etapa da vida escolar, os garotos produzem anualmente uma monografia, trabalho de grupo desenvolvido durante todo o ano letivo, sob a supervisão de um professor-orientador. Trabalhos produzidos por alunos colecionam prêmios em concursos nacionais. É o caso de Manguezais, a Importância de sua Preservação, produzido em 1992, vencedor da Mostra Nacional Ciranda da Ciência e que acabou sendo publicado pelo governo do Estado para ser distribuído nas escolas públicas. Irrigação: uma Alternativa para a Economia de Pernambuco foi premiado na Exposcience 97, evento realizado na França. No ensino médio, as aulas-passeios privilegiam laboratórios de pesquisa das universidades, onde os estudantes podem observar a rotina de trabalho dos cientistas e acompanhar experimentos.

Outra atividade pedagógica adotada para colocar os alunos em contato com fontes variadas de informação é a correspondência escolar, cartas que os estudantes trocam com crianças de outras instituições e até com meninos de fora do Brasil. Em 1996, a correspondência trocada com estudantes franceses culminou com uma viagem de dezessete alunos da 5ª série à França. "Conheci meu correspondente e mantenho contato com ele até hoje", conta Taciana Medeiros, hoje no 3º ano do ensino médio. "Foi inesquecível."

     
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