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GESTAÇÃO
A
mágica da gravidez
A
gestação consegue fazer com que
mulheres jovens e maduras vivenciem
as mesmas angústias e alegrias

Angela
Ribeiro
Em
geral, é mais difícil estabelecer as causas de um
determinado comportamento humano do que estudar seus efeitos. Isso
acontece na medicina, quando se toma contato com uma doença
nova, ou nas ciências sociais, quando se tenta compreender
problemas como a violência urbana, por exemplo. Raramente
ocorre o contrário, ou seja, dificilmente aparece um fenômeno
cujas causas são compreendidas mais rapidamente e de forma
mais profunda do que suas conseqüências. É o caso
da chamada "gravidez tardia". No fim dos anos 80, menos de um terço
das mulheres engravidava depois de completar 30 anos. Atualmente,
os números mudaram. Mais de 40% delas já vivenciam
a experiência de ser mãe numa idade em que, décadas
atrás, estariam se preparando para ser avós.
Ao
analisar o fenômeno, os estudiosos listaram as causas com
alguma facilidade. Há motivações individuais,
já que se tornar mãe há muito deixou de ser
uma imposição social, efeito colateral de uma sociedade
machista. As mulheres não são mais vistas com estranhamento
quando assumem a gravidez tardia ou simplesmente resolvem
não ter filhos. Há as motivações econômicas,
pois a vontade de trabalhar e de construir carreira fez com que
as mulheres adiassem a maternidade ao máximo. Uma pesquisa
recente conduzida na Universidade Harvard mostra que nas grandes
companhias dos Estados Unidos 60% dos cargos de chefia já
são ocupados por mulheres. Desse grupo feminino, mais da
metade não tem filhos. Há ainda razões de natureza
científica. A medicina avançou muito para contornar
uma estatística perversa ligada às chances de uma
mulher mais velha engravidar. Na faixa dos 35 anos, a chance de
ser fecundada naturalmente durante uma única relação
é de 15%. Aos 40, esse número cai para 5%. Também
trabalhou bem para contornar o aumento dos índices de malformações
fetais, abortos espontâneos e outras complicações
mais freqüentes quando a gravidez ocorre perto dos 40 anos.
Mais
complexo é compreender como a idade em que as mulheres decidem
ter filhos interfere na forma como reagem à gestação
e na maneira como criam os filhos. Não se conhece nenhum
estudo definitivo a respeito do assunto. Aos 20 anos, a mulher está
interessada em namorar, em estudar, em fazer estágio. Aos
40 anos, ela experimentou alguns relacionamentos afetivos, tem uma
carreira consolidada e, ainda que não admita, já pensa
no que fazer na velhice. Os sonhos, projetos e ambições
são completamente diferentes. Na gravidez, essa diferença
desaparece. A presença do óvulo fecundado no útero
reduz o abismo etário e as torna iguais, parceiras das mesmas
dúvidas, desejos e emoções. Parece que a mulher
mais nova amadureceu e a mulher de idade mais avançada rejuvenesceu.
Seja qual for a idade da gestante, ela vai experimentar, juntamente
com a alegria de ver a barriga crescer, a insegurança de
ser responsável por uma nova vida. Após o nascimento,
o fator etário se reapresenta e a observação
sugere que as mães novas e as mais velhas voltam a manter
dúvidas e angústias de natureza diferente em relação
ao bebê. As mais novas alimentam dúvidas práticas,
objetivas, sobre como dar banho no bebê ou como segurá-lo
no colo. As mais velhas estão interessadas em questões
de longo prazo, como a formação do filho. Como se
vê, os nove meses da gravidez fazem com que as mulheres fiquem
realmente muito parecidas, independentemente de ter 20 ou 40 anos.
Parece mágica.
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