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O Brasil não é mais o vilão
As
florestas e os animais estão mais protegidos, as cidades,
mais limpas e as empresas aprendem a tirar proveito dos
recursos naturais sem devastar a natureza
Araquém Alcântara

Os guarás-vermelhos, de volta à ex-imunda Cubatão: vitória depois
que as indústrias passaram a instalar filtros |
Nos
anos 80 a preocupação com o meio ambiente já
estava sendo traduzida em ações preservacionistas
nos países ricos. No Brasil, o ritmo das agressões
chegava ao auge. Esse descompasso atraiu a atenção
do mundo para os desastres que se produziam tanto na Floresta Amazônica,
por meio das queimadas e da derrubada ilegal de madeira, quanto
nos grandes centros, por causa da poluição. Os casos
de anencefalia em Cubatão entravam na lista das grandes tragédias
ambientais da década, ao lado do derramamento de óleo
no Alasca pelo petroleiro Exxon Valdez, da explosão
do reator nuclear de Chernobyl e do vazamento de gás que
matou 7.000 pessoas em Bhopal, na Índia. Encerramos aquela
década no banco dos réus. Burocratas de Washington
chegaram a condicionar a renegociação da dívida
externa brasileira à preservação da Floresta
Amazônica. O Brasil assustava o mundo. Em 1988, em um recorde
histórico, sumiram 3 milhões de hectares de floresta
na Amazônia –
uma mancha do tamanho do Estado de Alagoas. No Pantanal, 1 milhão
de jacarés foram caçados em um só ano. Levantamentos
revelaram centenas de espécies ameaçadas de extinção:
tartarugas, micos e araras estavam desaparecendo. Em São
Paulo, a qualidade do ar era considerada insatisfatória duas
vezes por semana e os hospitais da cidade registravam índices
alarmantes de doenças respiratórias. Todo o esgoto
produzido na capital era despejado sem tratamento nos rios Tietê
e Pinheiros, as maiores fossas a céu aberto do mundo. As
indústrias colocavam sob risco regiões inteiras. Cubatão,
no litoral de São Paulo, foi batizada de "vale da morte".
A cidade vivia dentro de uma bolha de poluentes produzidos pelas
petroquímicas e um número absurdo de crianças,
vítimas de substâncias tóxicas, nascia sem cérebro.
No passado, aceitava-se com tranqüilidade que o desenvolvimento
econômico cobrava um preço do meio ambiente. Os países
enriqueceram, desenvolveram-se, e seus cidadãos começaram
a exigir um ambiente mais limpo. Hoje os londrinos respiram ar puro
e podem até pescar no Tâmisa. Americanos e canadenses
já gastaram 25 bilhões de reais em obras de limpeza
na região dos Grandes Lagos. Países em desenvolvimento,
como Polônia, Índia, China e Brasil, foram colocados
diante do enorme desafio de enriquecer sob as ameaças de
ONGs e reprimendas de nações ricas. O que parecia
impossível aconteceu. Embora desde o fim da década
de 80 até hoje a economia tenha dobrado de tamanho e a população
crescido 20%, a Baía de Guanabara e o Rio Tietê estão
mais limpos. Os raros guarás-vermelhos que haviam sido expulsos
pela poluição estão de volta a Cubatão,
a população de tartarugas, micos e peixes-bois voltou
a aumentar e o ar das capitais está mais puro, apesar de
o número de veículos em circulação ter
dobrado. Há esperança quando se faz a coisa certa.
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