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País injusto, futuro promissor
Eduardo Queiroga

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Se
os países fossem agrupados em faixas segundo a renda per
capita, o Brasil estaria ao lado de México, Chile, Costa
Rica e Malásia, em que a renda per capita se situa entre
3.500 e 6.000 dólares. Desse bloco de nações,
nenhuma delas conhece a taxa de pobreza brasileira. Enquanto 34%
dos brasileiros estão abaixo da linha de pobreza, vivem em
condições parecidas 19% da população
da Costa Rica, 15% dos mexicanos e chilenos e 7% dos habitantes
da Malásia. Faça-se agora um novo agrupamento dos
países, segundo a taxa de pobreza semelhante à do
Brasil, entre 28% e 34%. Nossos novos companheiros passam a ser
Panamá, Botsuana, República Dominicana e Guiné.
E sabe qual desses tem a mesma renda per capita brasileira, próxima
a 4.000 dólares? Também nenhum. A renda nesses países
é a seguinte: 2.800 dólares no Panamá, 2.400
em Botsuana, 1.600 na República Dominicana e 700 na Guiné.
Ou seja, o Brasil ocupa hoje um lugar único no mundo. Ele
é o mais rico entre os países com maior número
de pessoas pobres.
Outro recorde nacional diz respeito à distribuição
de renda. De acordo com os dados disponíveis, os brasileiros
que representam a camada dos 10% mais ricos detêm 50% da riqueza
nacional. E sabe quanto uma pessoa precisa ganhar para estar nesse
time? A incrível quantia de 2 000 reais mensais. Quer dizer:
os ricos ficam com a maior parte dos bens, mas, para ser "rico",
basta ganhar dez salários mínimos por mês. Ao
lado desses números, há outros indicadores muito ruins,
como a criminalidade nos grandes centros urbanos, a falta de rede
de esgoto, o desemprego que atinge 8 milhões de pessoas,
a corrupção. Diante desse pacote de notícias
ruins a respeito do Brasil, muita gente pode ter a impressão
de que este país injusto não tem solução.
Mas a percepção é falsa. Há evidências
de que uma parte do Brasil já chegou ao Primeiro Mundo
apesar das adversidades.
Os países do Terceiro Mundo possuem diversas características
negativas em comum, das quais 26 se destacam. Até meados
da década passada, todas podiam ser observadas no Brasil.
Nos últimos anos, o país se livrou de dezesseis delas
(veja
quadro). É sobre essa transformação
que trata a edição especial O Brasil que Já
É Primeiro Mundo. Sem ignorar os problemas, VEJA decidiu
identificar as lições que o Brasil que dá certo
pode ensinar ao outro Brasil que permanece no atraso. Esse Brasil
que produz sinais positivos não é fruto deste ou daquele
governo. Os mais céticos dizem que o país chegou aonde
chegou apesar dos governantes. O Brasil de hoje é resultado
das indústrias que começaram a se instalar por aqui
na década de 50. Das chamadas indústrias de base,
fundamentais para o funcionamento da economia, que vieram para cá
na década de 60. Das estradas que foram construídas
na de 70. Dos programas de vacinação que se intensificaram
a partir dos anos 80. Na última década, o país
experimentou uma fase de incrível estabilidade no campo político
e econômico. Uma das lições mais importantes
que ensinam os países ricos é que o desenvolvimento
ocorre como fruto de um processo longo e contínuo de aprimoramento
no campo político, social e econômico. Parece estar
acontecendo isso no Brasil.
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