Opinião

Criança não vem com manual

Ambicionamos uma infância perfeita para nossas
crianças e acreditamos que para isso precisamos
ser pais perfeitos. Ou o mais perfeitos possível.
E é exatamente aí que erramos

Ceres Alves de Araujo

Ilustração Will

A dúvida é mais freqüente entre os pais de primeira viagem, mas não raro povoa a mente dos, digamos assim, mais experientes. Será que estou cuidando do meu filho, da minha filha ou dos meus filhos da melhor maneira possível? Para os mais nervosos, os mais intranqüilos, a resposta pode ser sufocante. Não, você não está cuidando do seu filho da melhor maneira possível. É isso mesmo. Sempre existe uma maneira melhor de cuidar do seu filho, e estamos nos referindo às possíveis, claro. Ou será que foi impossível conversar naquela vez em que você chegou irritado ou irritada do trabalho e deu uma dura na prole? E a mentirinha que você pregou ao dizer que "Mamãe vai sair, mas volta já, já, viu?" ou "Agora não, tá? Mas quando papai voltar do trabalho vai brincar com você". Quem nunca brigou desnecessariamente ou mentiu conscientemente, apenas para se livrar da pressão dos filhos, não precisa ler este artigo até o fim. Para os que fizeram isso, no entanto, um aviso: vocês não estão fazendo nada errado.

É assim mesmo que se deve criar um filho, sem neurose, sem medo de errar, sem essa preocupação alucinante de dar a ele, a ela ou a eles a melhor educação possível, a melhor roupa possível, o melhor ambiente possível, os melhores amigos possíveis. O possível, aqui, soa sempre como algo que está acima dos limites do ser humano comum. O possível é aquilo que, em tese, alguém muito bem preparado pode desempenhar numa determinada situação, num determinado momento. Como não somos nós pessoas muito bem preparadas, apenas normais, deixemos o possível de lado e nos dediquemos a educar nossos filhos apenas com o emprego do bom senso. Já que as crianças não vêm ao mundo com manual e cabe aos pais definir a forma adequada de educá-las, como se faz para buscar orientação? Há quem prefira procurar profissionais especializados. Outros buscam o conselho de vizinhos e amigos que tenham filhos mais velhos do que o seu ou os seus. Nada contra, mas um número excessivo de informações e bem-intencionados conselhos podem mais desorientar do que ajudar. Além do mais, o que vale para uma criança pode não valer para outra.

Prefiro uma saída mais simples. Vamos aprender com os próprios filhos. O bebê ou a criança nos ensina com sua movimentação, com seus gestos, com seu sorriso, seu olhar. Aprendemos a ser pais e mães à medida exata que ensinamos nossos filhos a descobrir o mundo. Mais significativo para a educação deles não é tanto o que fazemos, o que dizemos, o que mandamos que seja feito, mas o que demonstramos ser. Ambicionamos uma infância perfeita para nossas crianças e acreditamos que para isso precisamos ser pais perfeitos. Ou o mais perfeitos possível. E é exatamente aí que erramos. Esquecemos que, quando crianças, às vezes sofríamos ao nos desentender com os nossos pais. Na relação que tínhamos com eles, vivenciamos êxitos e fracassos e foi só assim que crescemos e aprendemos. Ou seja, nossos pais cometeram os mesmos errinhos cotidianos que nós e isso não nos fez tão mal assim. Desejos, expectativas, ansiedade e medos permeiam inevitavelmente o contato com nossos filhos. Para os pais, isso não se deve transformar num problema. Como não receberam filhos com manual, é razoável que escrevam o seu próprio, a partir dos acertos e, por que não, dos erros.

Ceres Alves de Araujo é psicóloga e professora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo




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