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Amizade Sem concorrênciaAs crianças não se interessam tão cedo em ter amigos
Os trabalhos científicos sobre amizade entre crianças informam que, antes dos 8 anos de idade, elas não ficam especialmente tristes se um amigo as abandona porque se muda de bairro, por exemplo. Para elas, se ele ficasse seria melhor, mas indo não fará tanta falta. O conceito de amizade, definida em dicionário como um sentimento fiel de afeição, ternura e estima, envolvendo cumplicidade, não pode ser aplicado aos menores de 5 anos. Enquanto as crianças são pequenas, elas não desenvolveram esses sentimentos e não sentem falta deles. Mas todos os especialistas concordam que alguma coisa acontece quando duas crianças pequenas passam a conviver. Se elas não são amigas, estão aprendendo a ser. O conceito de amizade muda durante toda a vida do homem (veja quadro). Mas é nos primeiros anos que se pode observar as modificações de maneira mais intensa. Logo depois do nascimento, o bebê não tem consciência de que existem outras pessoas no mundo além dele próprio. A existência do outro aparece por volta do terceiro mês de vida, principalmente com a mãe e o pai, nessa ordem. Só a partir do primeiro aniversário é que o bebê se interessa em observar as outras crianças, mas ainda assim terá preferência por brincar sozinho. A partir dos 2 anos, a criança sabe que está rodeada de outras iguais a ela, mas o relacionamento é marcado pela competição. A amizade aqui é apenas uma honestíssima troca de interesses. "Se o outro tem um brinquedo que interessa, ela vai tirar da mão dele para matar a vontade, sem levar em conta o que ele vai sentir com isso", explica a psicóloga Maria Cristina Vignoli, da Universidade Federal de Santa Catarina. Não adianta querer fazer seu filho dividir o pacote de bolacha com o primo ou deixar o conhecido do clube brincar com o seu balde de areia. "As coisas da criança representam uma extensão dela mesma e quando ela briga pelo que lhe pertence, está na verdade se defendendo", informa o psicólogo Luiz Schettini Filho, da Universidade Federal de Pernambuco. À medida que vai crescendo, a criança começa a perceber que seus atos e atitudes têm conseqüência sobre a vida dos outros. Por volta dos 3 anos de idade, a criança entra na fase da sociabilização e passa a se interessar em trocar mais com as demais crianças à sua volta. Tem prazer em partilhar o lanche, em descobrir afinidades na escolha da brincadeira ou do jogo, em se envolver quando o colega chora, se machuca ou dá uma risada. A criança tem contato com colegas de idades variadas e com o sexo oposto e aprende muito com isso. "A experiência é rica para ensinar a conviver e respeitar a diferença", diz Vignoli. Daí em diante, o laço vai ficando cada vez mais forte. Entre 4 e 5 anos, seu filho fala com os colegas da escola por telefone, vai sozinho às festinhas e sabe quem são os companheiros preferidos nas brincadeiras. Nessa idade, surge a grande novidade. Algumas crianças começam a pedir autorização aos pais para dormir na casa dos amigos da escola, onde podem brincar à noite, explorar brinquedos novos e ter companhia para comer, tomar banho e dormir.
Os pais são especialmente importantes para o sucesso da vida social dos filhos nos primeiros anos. Se conseguirem transmitir carinho, amor, respeito e proteção nesse contato com a criança, isso servirá como o melhor modelo na hora de ela travar suas relações com o mundo fora de casa. Para os pais é um prazer saber que o filho se integra bem em qualquer ambiente. Mas é também perturbador. Quanto mais ele se dá bem lá fora, mais longe de casa quer ficar. Os sinais claros disso aparecem quando a criança prefere sair com os amigos a assistir a um filme no vídeo no sábado à tarde. "A maioria dos pais diz que gostaria que isso acontecesse e, quando acontece, tem a sensação de que perdeu o filho", diz Schettini. "O que tem de ser visto é que isso é sinal de que o filho está ganhando autonomia."
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