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Leitura Encha a estanteLer é como andar de bicicleta. A criança precisa de treino
Nunca foi tão fácil incentivar os filhos a ler. Nas livrarias, encontra-se de tudo um pouco. Há livros de pano, de plástico, com figuras tridimensionais, de montar, de dobrar tudo para tornar o hábito da leitura cada vez mais prazeroso. Para quem tem filho pequeno, de 1, 2 ou 3 anos, é um prato cheio, pois os livros coloridos e diferentes dão um sabor especial à atividade. Para as crianças um pouco maiores também existem ofertas de primeira. Portanto, chega de desculpas. Não é por falta de opções que os pais vão deixar de ler para a criançada. Ler é como andar de bicicleta. Parece rotineiro depois que se sabe, mas é preciso um certo investimento inicial até que o hábito esteja desenvolvido. Para que os filhos se interessem pela leitura, cabe aos pais esse investimento inicial, e o primeiro passo é óbvio. É preciso comprar livros. "Criança que não tem livro em casa dificilmente vai se interessar mais tarde pela leitura", diz a psicóloga Maria Luiza D'Ávila Pereira, da Universidade Federal do Paraná. E não adianta manter em casa cinco ou seis livros apenas. A criança precisa de variedade, pelo menos dez livros para começar. Assim, quando ela se cansar de uma história, há outra atraente bem ao lado. Adultos e crianças têm uma relação diferente com a leitura. Quando consomem romances, os adultos preocupam-se em analisar o perfil dos personagens, a densidade do enredo, a qualidade da narração e outros detalhes. Se estão lendo uma não-ficção, verificam se a reconstituição histórica é convincente, se os dados apresentados são relevantes e se o autor conseguiu realmente colher informações inéditas sobre o assunto retratado. Com a criança é diferente. Pegue-se uma de 2 anos. Ela abre um livro que conta uma aventura do leãozinho Simba e se diverte com o desenho da risada do macaco Rafiki. E pede ao pai ou à mãe que abra o livro naquela página específica, dia após dia. Depois de um tempo, ela descobre outro desenho em outra página do livro. No chão, ao lado de uma árvore pela qual Simba está passando, há uma colméia e abelhas voando. Fica encantada e só quer essa nova página. Nessa fase, a criança não liga para o encadeamento da história proposto pelo autor. Ela prefere criar sua própria seqüência e não vê graça alguma em ficar quieta, folheando o livro. Quer apontar para as figuras, quer raspar o dedo nas páginas, quer abrir e fechar o livro um sem-número de vezes. Nessa etapa, o livro tem de ser oferecido como qualquer outro brinquedo. Deve estar à mão, assim como os ursos, carrinhos e bonecas, para ser descoberto. Até os 2 anos e meio aquilo para ela é o máximo. Quando cresce um pouco, a relação da criança com o livro muda e a narração original passa a ser importante. Mas o que realmente faz diferença é quem lê a história. Para os filhos, poucas coisas são tão confortáveis quanto ouvir pai ou mãe ler uma história, se interessando por algo que para elas é importante. É um momento de atenção total. Se o pai-narrador se dispõe a interpretar uma história com vários personagens e resolve fazer uma voz diferente por personagem, o livro ganha uma coloração especial. Crianças dessa idade acompanham os lances com entusiamo, reconhecem o que já foi contado na noite anterior e insistem em pedir que se repita a mesma história inúmeras vezes, e sem modificações. Se a mãe pula uma parte ou conta rápido demais, elas criticam e pedem que voltem. "O que ela quer é uma confirmação do que já sabe", diz a orientadora pedagógica carioca Patrícia Lins e Silva. Como em qualquer atividade, se a criança começa a ficar irrequieta, é sinal de que o interesse acabou e é hora de mudar de atividade.
Investir no interesse de seu filho por histórias exige disposição e energia, já que é mais cômodo chegar em casa e ligar a TV. Esteja certo, porém, de que essa opção pode estar privando a criança de momentos valiosos. Diante da televisão, a criança fica muda, fascinada com a postura dos personagens, as imagens, o movimento e as cores. Já com os livros, ela tem a chance de parar a história, perguntar o que não entendeu, rir, pedir repetição. "A TV pode levar a uma atitude passiva, enquanto a leitura abre a possibilidade de ela questionar, dialogar e se sentir com atenção", diz a professora Rosa Kulcsar, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
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