Trabalho

Tempo para eles

Como acertar a agenda para poder
ficar um pouco com os filhos

Roupa: The Mark Kids; Tapete: Tapetes Cochinilhe
Brinquedos: PB Kids Pacaembu


O que acontece quando a criança ganha presentes demais?

O ideal é dar presentes no Natal e no aniversário, com direito a lembrancinhas no Dia da Criança e na Páscoa. Presente demais pode levar a criança a confundir vínculo afetivo com objetos materiais

A médica radiologista Anna Patrícia Riello, 30 anos, do Rio de Janeiro, trabalha como analista de raio X em três clínicas e passa uma eternidade no trânsito se deslocando entre os empregos. Resultado: Patrícia tem só a hora do almoço para ficar com Érica, 6 anos, Vitória, 3 anos, e Arthur, de 4 meses. É nessa janela que dá as ordens domésticas para seu "time" de apoio — um motorista, uma babá e uma empregada. O marido de Anna, o também médico Eduardo, de 42 anos, nem a hora do almoço tem. Sua agenda lotada só permite que veja a garotada à noite, mas não raro chega depois que os três já estão dormindo. Tenta compensar nos fins de semana. Quando põem a cabeça no travesseiro, é comum que Anna e Eduardo lamentem estar dedicando pouco tempo para os filhos. Qualquer pai ou mãe sabe como isso é frustrante. Quando planeja ter filhos, o casal discute como cuidar deles, como educá-los e imagina os programas que a família poderia fazer. Na hora em que os filhos surgem, não há tempo para nada.

Num passado recente, o pai trabalhava fora e a mãe ficava em casa. Na Europa e nos Estados Unidos, de cada 100 pessoas empregadas no final da década de 30, 94 eram homens e seis, mulheres. Hoje, as mulheres representam 35% da mão-de-obra. Segundo o IBGE, mais de 18 milhões de mães brasileiras acumulam os serviços domésticos com um trabalho regular fora de casa. Ao mesmo tempo que a mulher saiu para trabalhar, os homens passaram a se sentir na obrigação de também dividir a responsabilidade de criar os filhos. Uma geração que foi criada ao pé da cadeira do papai, com a barra da saia da mãe ao alcance de um puxão, vê-se obrigada a educar suas crianças praticamente a distância. O resultado é que pai e mãe ficam frustrados. Estudos americanos revelaram que pais e filhos ficam menos de duas horas juntos por dia sob o mesmo teto, enquanto, trinta anos atrás, permaneciam cerca de dez horas diárias.

Sobre a falta de tempo, há um dado perturbador. Ela é irreversível, já que os pais precisam e também querem trabalhar. Para os mais preocupados, no entanto, é bom saber que as crianças não sofrem nenhum dano por estar algo longe dos pais. "Nenhuma pesquisa foi capaz de provar que a distância dos pais produz efeitos adversos na habilidade intelectual e no desenvolvimento da criança", diz a psicóloga Gláucia Diniz, professora da Universidade de Brasília. Ela está elaborando uma pesquisa com 300 casais, a maioria com filhos, para saber como se concilia trabalho e família, e, pelo que tem visto até agora, a distância não traz prejuízo à família. "O que a afeta é um casamento ruim, a falta de participação do pai e o grau de ansiedade e culpa que a mãe transmite para o filho por trabalhar fora." Entre as crianças pequenas, o fato de os pais trabalharem é perfeitamente compreendido.

Para os especialistas no assunto, há pais e mães que lamentam a falta de tempo, mas quando chega o final de semana permanecem sentados em frente à televisão em vez de sair com os filhos. Há também os pais que enchem a agenda do filho de compromissos na esperança de que, ocupadas, as crianças não sintam falta deles. Não dá certo. Como tempo para a família é mercadoria cada vez mais rara, pais e mães desenvolvem um tipo todo especial de remorso: a sensação de que não dão às crianças tudo aquilo de que elas precisam. E acabam compensando de duas formas. Com presentes -- como se isso aumentasse a compreensão para o fato de que os adultos precisam trabalhar — e deixando a criança fazer tudo o que quer. "Os pais se tornam escravos dos filhos, o que está errado", diz a psicoterapeuta carioca Rosita Koschar.

Para compensar com qualidade a falta de quantidade, há alguns pequenos truques. Um deles é telefonar do trabalho para casa pelo menos uma vez por dia. Além de o filho perceber que é importante, os pais ficam sabendo o que ele está fazendo. Quando voltar para casa, não leve o trabalho junto. Nada pior para uma criança que se sentir trocada por um aparelho de fax. Os pais também devem aproveitar as oportunidades que têm com o filho, como preparar o jantar juntos e jogar alguma coisa. Um último cuidado é tirar férias com as crianças. Isso não significa necessariamente ir à Disney. O importante é que a família esteja reunida sem os horários de aulas e trabalho para atrapalhar. Os pais precisam estar acessíveis para que a criança possa recorrer a eles nos momentos em que precisa de apoio ou simplesmente para dividir suas descobertas sobre o universo. Trocando em miúdos, qualidade é mais importante que quantidade de tempo, sim, como já vinham dizendo os americanos desde os anos 70. Mas há limites impostos pelo bom senso. Não dá para dispor de apenas dez ou vinte minutos por dia para a criançada. Com tão pouco tempo, a relação só se sustenta por mágica.

Não seguir todas as regras não é desgraça alguma. Afinal, quando tem um compromisso de trabalho, o pai ou a mãe não pode chegar para o chefe e informar que vai atrasar o serviço porque precisa ficar com os filhos. Se perder o emprego, vai ter um problema ainda maior para enfrentar. As pessoas precisam aprender a conviver com as limitações que têm. Se nada há a fazer, a saída para os pais é resolver não na agenda mas na cabeça a falta de tempo que têm para os filhos. A advogada paulista Cláudia Politanski, 27 anos, mãe de dois filhos pequenos, é um bom exemplo de como resolver, não na agenda, mas na cabeça e em casa, a falta de tempo com os filhos. Trabalhando cerca de doze horas por dia num banco, às vezes é obrigada a levar tarefas para casa e dar expediente aos sábados e domingos. Aprovada num programa de mestrado de um ano, nos Estados Unidos, para onde se muda com as filhas e uma empregada no próximo semestre, a família vai passar por uma provação. O marido, que é cirurgião, não poderá ir e promete visitá-las a cada dois meses. Cláudia enfrenta o problema sem medo. "Minha mãe não trabalhava. Quando os filhos cresceram, ela ficou de repente sem ter o que fazer na vida. Foi penoso para ela e não quero que se repita comigo. Por isso, resolvi investir em mim."




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