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Superproteção Olho no excessoOs riscos de pôr seu filho numa redoma
A pedido da família, o caso a seguir será descrito com o auxílio de nomes fictícios. Eram 11 horas da manhã de uma quarta-feira e a dona de casa Ivete, do Pará, estava no trânsito quando o telefone celular tocou. Já imaginando quem fosse, pegou o aparelho. Como supunha, seu filho Bruno, de 5 anos, estava do outro lado da linha perguntando a que horas a mãe voltaria para casa. Pela manhã, como de hábito, o menino havia feito um escândalo ao ver a mãe sair sem levá-lo junto, e aquela era a sexta ligação em apenas uma hora. No fim do telefonema, Ivete decidiu interromper as compras e voltar para casa. Bruno sofre de um mal que os psicólogos chamam de "síndrome do reizinho" ou "síndrome da princesinha", conseqüência da superproteção de que foi vítima por parte dos pais. Bruno foi tão paparicado desde o berço que hoje tem dificuldades com os colegas na escola, assume ares de dominador com os empregados e não sabe lidar com nenhum tipo de recusa. Ivete sente-se culpada e sofre com a reprovação dos amigos. "Eu só pretendia dar uma educação perfeita", diz. "Não sei onde errei." Proteger as crianças é uma obrigação dos pais. Se seu filho recebe um convite para ir à casa de um amiguinho que está gripado, é razoável que você não permita. Também é absolutamente normal que você proíba seu filho de brincar no parquinho ao notar que o tanque de areia é freqüentado por cães e gatos. O difícil é saber identificar o limite entre a proteção, atitude saudável, e a superproteção, um comportamento patológico (veja qual é o seu caso fazendo o teste). A superproteção vai-se manifestando aos poucos. O pai superprotetor começa enchendo o bebê de roupa ao primeiro sopro de vento, ainda que esteja no auge do verão. Também manda esterilizar a chupeta de meia em meia hora. Para que o bebê não suje as mãozinhas e depois resolva colocá-las na boca, o pai também proíbe que ele engatinhe na sala de jantar da casa dos avós. Brincar com outras crianças no clube ou participar de um passeio promovido pela escola, então, nem pensar. Quanto mais cuida, mais teme que algo de mal aconteça com o filhote. O resultado é que pai e filho vão ficando viciados e acabam doentes. O caso de Ivete é tão grave que ela procurou ajuda profissional. Quando foi para a escola, com 4 anos, Bruno teve um desempenho péssimo. Como insiste em só fazer o que quer, não participava das atividades propostas pelos professores. Foram eles que alertaram a mãe para a gravidade do problema. "A necessidade de Ivete provar seu bom desempenho como mãe torna árdua a aceitação de que terá de modificar sua postura com o filho", comenta Arline Tourinho, psiquiatra paraense especialista em crianças e adolescentes, encarregada do caso. Outro caso típico de supermãe é o da carioca Beatriz, que, constrangida, também pediu para não ser identificada pelo nome real. Há cinco anos, Beatriz ficou grávida de Maria. Tinha 41 anos na época e um filho de 10. Maria nasceu prematura e passou o primeiro mês de vida numa encubadora. Traumatizados, os pais passaram a superprotegê-la e a cuidar da menina como se ela pudesse quebrar. Maria não dorme sozinha e só quer saber de brincar com os pais. "Ela nunca esteve 100% e sempre pede para eu ficar com ela", alega a mãe. Pais de idade mais avançada, adotivos ou que tiveram um filho único ou prematuro estão no grupo de risco dos superprotetores. Mães culpadas por trabalhar e gostar do que fazem muitas vezes procuram compensar a falta de tempo com excesso de zelo. Pessoas inseguras também tendem a tratar o filho como um bibelô porque vivem o medo de perdê-lo. "São pais que telefonam para o médico por qualquer motivo e vão à escola tomar satisfação se o filho aparecer com um arranhão", conta o pediatra Gláucio José Granja de Abreu, de São Paulo. O comportamento dos superprotetores tem alguns traços em comum. A maioria procura tirar os obstáculos do caminho dos filhos achando que, assim, vai tornar a vida de seus pequenos mais fácil. "Em contrapartida cobram muito das crianças, porque o comportamento superprotetor para que nada de ruim aconteça não admite nem mesmo o dissabor de uma nota baixa", comenta o pediatra. Tiranos e despreparados. Esse é o perfil dos filhos da superproteção. Como têm tudo o que querem, os pequenos não conhecem limites e tendem a se achar os donos do mundo. A tendência é ter dificuldades de relacionamento. No fundo, não estão preparados para enfrentar a vida fora do casulo paterno. Podem tornar-se pessoas inseguras e covardes, porque estão sempre presos às rédeas dos pais. Não enfrentam riscos. No caso dos bebês, alguns demoram a andar, outros a falar, porque lhes é negada a chance de explorar o meio ambiente.
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