Os pais

Personagens centrais

Para o bebê, o apego é tão vital como sono e comida

Até quando os pais devem dar colo para os filhos?

Até quando quiserem ou agüentarem o peso. Colo é sempre bom. Não vicia, acalma

Durante toda a vida dos filhos, os pais sempre serão a grande referência, a maior influência. É deles que se quer ouvir que o quarto foi bem arrumado, é deles que se quer receber um abraço, é o único carinho que interessa. Esse amor dos filhos coloca uma responsabilidade espetacular nas costas dos pais. Não basta dar casa, comida, pagar a escola e levar ao médico. É preciso muito mais. Nos primeiros anos de vida, o filho acha a mãe e o pai perfeitos. Até os 5 anos de idade, os pais são tudo para seus pequenos. Isso acontece não porque o filho não enxerga os defeitos dos pais. A criança idealiza os pais porque depende deles em tudo e, estando em mãos ideais, sente-se segura e orientada. No primeiro ano de vida, quem realmente conta é a mãe. A paixão pela figura materna é tanta que alguns choram diante de alguém fisicamente diferente da mãe — como o avô bigodudo e de barba branca. No final do primeiro ano, o pai entra nessa relação criando um triângulo. "Através da chegada do pai, a criança aprenderá a se relacionar com o mundo", ensina a psicóloga Ceres Alves de Araújo.

Como são perfeitos para os filhos, tudo o que os pais falam é encarado como verdade absoluta. Olha que responsabilidade. É apenas junto aos pais que a criança busca suas respostas. Até mesmo quando repete para eles uma mesma pergunta pela vigésima vez. Ela não está duvidando do que ouviu antes. Quer somente escutar a resposta de novo para reforçar o que já guardou como certo e errado, bom e ruim. Só mais tarde, já na pré-adolescência, seu filho irá confrontar os seus valores com os que recebe do mundo e então optar por um caminho próprio. Para os pais, a saída é ser autênticos, porque o importante não é o que o pai faz na frente do filho, mas como ele é. Por isso é que se diz que a paternidade e a maternidade dependem muito mais da arte do que da ciência. "Para o recém-nascido é questão de sobrevivência, enquanto para os maiores representa conhecimento: é com os pais que eles vão aprender a ser gente", sentencia Sônia Sampaio, psicóloga da Universidade Federal da Bahia.

Desenvolvida pelo psicólogo inglês John Bowlby, a teoria do vínculo afetivo, de longe a mais popular nos dias de hoje, entende o crescimento de uma criança como resultado da relação que ela mantém com os pais. Segundo Bowlby, o apego é uma necessidade tão primária e vital como água, sono e comida. "Um bebê que se sente protegido terá muito mais chance de se tornar um adulto seguro de si mesmo e capaz de amar e se sentir amado", afirma Maria Isabel Pedrosa, psicóloga da Universidade Federal de Pernambuco. Pesquisas mostram que crianças seguras em relação aos pais choram menos e são mais persistentes na exploração do ambiente. Já as inseguras são mais submissas ou agressivas.

A qualidade dessa ligação entre pais e filhos vai depender do tipo de vínculo estabelecido entre eles. Uma criança cujas solicitações são atendidas pelos pais quando quer brincar, dormir, comer ou, simplesmente, quando deseja colo tende a ser segura na vida. Isso não quer dizer que os pais devam fazer tudo que os filhos pedem. O importante é que a criança se sinta ouvida, compreendida, considerada. "Mesmo quando a resposta à sua solicitação é um sonoro não, a criança percebe nos pais um interesse pelo que disse se, de fato, houver esse interesse. É como se os pais estivessem passando um recibo para seus filhos de que eles valem muito", diz Vera Bussab, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Até os 5 anos de idade, uma criança passa por diversas fases. Ela sai daquela condição de total dependência quando bebê para um sentimento de onipotência ao conseguir falar e andar. A partir daí, entra na etapa das regras: primeiro da necessidade de tê-las, seguida pela vontade de quebrá-las. Esse ciclo vai-se repetir durante toda a vida. Daí a importância da primeira infância.

Tanta responsabilidade faz da vida dos pais um dilema: estou ou não cumprindo as minhas funções? A popularização da psicologia levou a um questionamento do comportamento adotado no passado. Só que nem mesmo os teóricos chegaram a um consenso sobre a melhor forma de agir. "Muitos pais não sabem dizer não e, quando o fazem, acabam voltando atrás no momento seguinte por não estar seguros de que estão certos", ensina a educadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro Tania Zagury, autora de livros sobre o relacionamento entre pais e filhos. Amar um filho e educá-lo requer um processo de amadurecimento que envolve alguns acertos e muitos erros. Como dizia Freud há quase um século, a educação é uma dessas funções em que errar é inevitável.

O pequeno papel do pai

Enquanto a mulher se sente mãe pouco depois de conhecer o resultado do teste de gravidez, o pai demora a encontrar seu papel — não raro pensa menos no bebê e mais sobre como sua chegada vai interferir na vida do casal, ou tirar o seu sono. Quando a criança nasce, vira o centro das atenções, a mãe é cercada de mimos e ao pai resta um papel de contínuo. Cabe a ele comprar a pomada, pegar a fralda, esterilizar a chupeta e providenciar a pizza, enquanto a mãe, as avós e algumas tias ficam com a criança. O contato do homem com o filho é pequeno nessa fase, o que só reforça velhos papéis na sociedade: o pai é o provedor e a mãe, a genitora.

Há uma razão objetiva para que isso aconteça. Como mama no peito, o recém-nascido precisa mais da mãe. Mas há um fundo psicológico nisso tudo, já que os papéis são convenientes para os dois. A conveniência da mãe: "Por insegurança e receio de perder importância, muitas mulheres têm dificuldade para abrir mão de seu poder como mãe e dar espaço para o homem", afirma a socióloga Sandra Ridenti, de São Paulo. A conveniência do pai: "Boa parte dos homens se sente bem como provedor financeiro e ditador das regras da casa", comenta o psicólogo pernambucano Jorge Lyra. Isso explica por que a maioria dos homens reclama de ser secundário, mas pouco faz para ocupar o papel principal.




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