Opinião

Estímulo no ponto certo

O excesso de estimulação produz um resultado oposto:
desestimula. Com tanto a fazer, a criança se ressente
de ter de atingir o sucesso e pode negar-se a aprender

Maria Célia Couto Mello

Ilustração: Will

Os pais que levam a sério a tarefa de educar os filhos podem estar desorientados. O excesso de recursos oferecidos pela sociedade moderna tanto por seus avanços tecnológicos como pela facilidade de acesso a um número infindável de informações, via Internet, por exemplo, longe de simplificar, está complicando o trabalho de educação. A cada dia surge uma novidade que parece ter o poder de estimular a criançada a aprender mais ou melhor, e isso é perturbador. Todo pai e toda mãe querem que seus filhos tenham uma vida de sucesso, e esse desejo é mais do que normal. O problema é que, com o desejo, vem junto a obsessão de tentar estimulá-los o tempo todo. Inconscientemente, lidamos com nossos filhos como se falássemos de máquinas, já que esperamos coisas como um "bom desempenho". Se estamos tão ansiosos por estimular nossos filhos, seria útil nos perguntar por que isso é tão importante para nós. Será que existe um secreto medo de que eles não venham a ser normais sem essa ajuda?

Com freqüência, o excesso de estimulação produz um resultado oposto: desestimula. Com tanto a fazer, com agenda cheia, a criança se ressente de ter de atingir o sucesso, de estar acima das demais crianças e pode negar-se obstinadamente a aprender. Por trás dessa reação está um aviso indireto dado pelos pequenos de que podem ter chegado ao limite. Por trás da decisão dos pais de insistir na estimulação também pode haver um aviso escondido. Muitas vezes, o excesso de oferta de atividades, de estímulos sensoriais, pode estar dissimulando a grande dificuldade dos pais em estabelecer um verdadeiro contato afetivo com seus filhos. O computador, os brinquedos sofisticados ou então um número exagerado de atividades esportivas ou intelectuais podem ser providenciais para que as angústias dos pais continuem mal resolvidas e a comunicação humana, real, afetiva e efetiva com seus filhos não aconteça. Encobre-se o grande desafio que é ser estímulo vivo para o pequeno ser que colocamos num mundo que, às vezes, é tão confuso e problemático para todos nós.

O respeito pela personalidade única da criança tem uma importância muito grande. Antes de forçar ou condicionar a criança ao que consideram melhor para ela, os pais deveriam desenvolver sensibilidade para compreender o que melhor se adapta ao seu filho especificamente. Por que empurrá-lo para aulas de piano se ele dá sinais claros de que prefere jiló a música? Em vez da preocupação excessiva com a estimulação, o importante é que os pais estejam acessíveis para que a criança possa recorrer a eles nos momentos em que precisa de apoio ou simplesmente para dividir suas descobertas sobre o universo. Isso é que vai ajudá-la a se tornar a pessoa que ela quer ser — não a que nós, pais, queremos que ela seja.

Fazendo isso, os pais deixarão espaço para as lutas do filho na ultrapassagem de certos estágios de desenvolvimento. E também lhe darão o tipo de apoio e de estímulo que lhe permita encontrar boas soluções. Os pais que conseguem sentir-se bem, confortáveis, razoavelmente tranqüilos no exercício desse papel, têm mais chance de passar a necessária segurança, tão importante ao desenvolvimento infantil, e de saber aplicar o bom senso na seleção e adequação dos estímulos importantes para seus filhos.

Maria Célia Couto Mello é psiquiatra em Brasília




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