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Comunicação
A explosão da
linguagem
Antes
mesmo de falar, as crianças já se comunicam
com os pais por meio de olhares, gestos e sorrisos
Por que as meninas andam,
falam e aprendem antes dos meninos?
Não há conclusões definitivas,
mas suspeita-se que sejam fatores hormonais que
variam com o sexo. O desenvolvimento tende a se
igualar na pré-adolescência
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Não importa que seja em português,
inglês, árabe ou japonês. O processo de desenvolvimento da linguagem nas
crianças é invariavelmente o mesmo. Sempre a mesma impressionante viagem
rumo ao conhecimento. Uma viagem que começa desde os primeiros minutos
de vida do ser humano. Recém-nascidos com apenas 4 dias de idade conseguem
distinguir os sons de uma língua dos sons de outra. Bebês brasileiros
mamam melhor quando ouvem alguém falando português do que falando espanhol.
E os espanhóis fazem o oposto. É assim no mundo todo, em todas as cerca
de 10.000 línguas existentes no mundo. A aquisição de vocabulário de uma
criança está diretamente ligada ao quanto a mãe fala com ela. Com 1 ano
e 8 meses, filhos de mães que conversam bastante em casa falam 130 palavras
a mais do que outros na sua idade. Com 2 anos, a diferença é de quase
300 palavras. Mães que usam sentenças complexas, não se restringindo só
ao bi-bi e au-au, têm filhos que também falam de forma mais complexa.
Como a criança só
será capaz de dizer o primeiro "mamãe" ou
"papai" perto dos 12 meses de vida, até
conseguir isso ela se vira muito bem com uma grande
ferramenta que tem para expressar ao mundo o que sente ou
quer: seu corpo. Usa o que os estudiosos chamam de
linguagem não-verbal. Observe. Toda vez que seu bebê
chora, dá um sorriso, faz uma expressão facial, emite
sons, se balança dentro do berço ou vira a cabeça para
o lado, ele está se comunicando. Está conseguindo, com
eficiência, dizer algo que, nessa fase, é demonstrar
prazer ou desprazer. "Essa é a fase em que o corpo
fala", diz a psicóloga Maria Martha Hübner, da
Universidade Mackenzie, em São Paulo. O que a criança
pequena faz é operar com o princípio do "tudo ao
mesmo tempo, agora".
Como num sistema
multimídia, em que som, imagem e movimento facilitam a
compreensão, ela usa todos os órgãos dos sentidos para
receber e mandar mensagens. "O bebê vive e expressa
a emoção no próprio corpo. Se ele sente um desprazer,
o choro é a forma de dizer isso", explica a
psicóloga paulista Ceres Alves de Araujo. Por meio do
olhar da mãe, da entonação de voz, da expressão
facial, das pausas na fala do adulto, ele entende as
coisas à sua volta. Os órgãos do sentido funcionam
como um radar. "O bebê não entende o conceito da
frase falada, mas sabe o que está por trás disso",
diz Ceres. Ele percebe a diferença de ser chamado com
uma voz suave ou ríspida, ser pego no berço de modo
carinhoso ou apressado, ou ter a fralda trocada por
alguém com cara amarrada ou sorriso aberto. Em resposta,
a criança usa recursos corporais como sorrir, franzir o
cenho, mexer as mãos ou até abrir um berreiro.
Os
bebês não chegam ao mundo falando porque o cérebro do ser humano não nasce
suficientemente maduro para isso. São necessários meses até a criança
ser capaz de entender conceitos, fazer relações mais complexas e treinar
os sons das sílabas. Todo o tempo passado no berço emitindo ga-gás, la-lás
e ne-nês serve de treino para que, na hora de juntar os sons e formar
as palavras, a comunicação seja perfeita. Quem olha o bebê falando apenas
sílabas pode ser tentado a imaginar que ele está sofrendo para expressar
uma idéia, como um adulto que tenta falar uma língua estrangeira mas tem
dificuldade. Nada disso. A criança está feliz demais ao perceber a própria
evolução, ao constatar que faz hoje um pouco mais do que fazia ontem.
Não lamenta o que ainda não consegue fazer. O processo de aprendizado
é extremamente divertido e prazeroso.

Por que uma criança
muito estimulada pode tornar-se um adulto
desorganizado?
Porque, na tentativa de estimular
seus filhos, os pais montam uma agenda repleta de
compromissos. Quando, no futuro, couber à
criança tomar as decisões sobre o que fazer,
ela ficará sem saber por onde começar
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As primeiras
palavras aprendidas pela criança são as mais próximas
do seu universo por isso ela diz mamãe, papai e
nenê. Nada é decorado. A criança aprende o que lhe foi
ensinado, o que lhe parece fazer sentido. Antes de falar
uma palavra, precisa identificar uma relação entre o
nome e seu significado. Para entender melhor o que isso
quer dizer, imagine-se num país de língua estranha. De
repente, um cachorro passa na sua frente e alguém grita
"isvertan!". O que isso quer dizer? A resposta
mais óbvia seria "cachorro". Mas existem
outras alternativas possíveis, como "Isvertan"
ser o nome do animal, uma expressão de susto com o
surgimento do cão ou uma ordem dada aos bichos para que
corram. No processo mental da criança, enquanto ela não
tirar essa dúvida, a palavra pode até ser proferida,
mas não terá sentido algum. Quando ela perceber o que
"isvertan" realmente quer dizer, estará
aumentando o seu vocabulário.
O desenvolvimento
da linguagem da criança guia-se por uma ordem que vai do
genérico para o específico. Num primeiro momento, todos
os seres que se mexem, mas não são humanos, podem ser
chamados de au-au, se é esta a expressão usada pelos
pais diante dela para designar cachorro. Depois, a
criança percebe que existe um tipo de au-au que voa.
Surge o piu-piu. E assim ela vai batizando o que vê,
aplicando nomes que ouve a itens específicos. Para cada
coisa, a criança tem um nome, sem direito a sinônimo.
Se existe uma xícara e o pai se refere a ela como
caneca, a criança não vai entender do que se fala. Os
sinônimos vão fazer parte da linguagem no final do
segundo ano de vida. Para conhecer o mundo e seus nomes,
a criança questiona tudo ao seu redor. Por volta dos 2
anos explode a onda de "o que é isso?" e, aos
3 anos, de "por quê?".
No campo de estudos
em torno da comunicação infantil há uma grande dúvida
se a relação entre mãe e filho na fase intra-uterina
pode ser chamada de comunicação ou se é uma troca
biológica. Experiências com recém-nascidos de 48 horas
de vida mostraram que eles ficavam calmos quando ouviam a
língua materna e tornavam-se tensos ao som de um idioma
estrangeiro, o que poderia sugerir que a aquisição da
linguagem começa na barriga da mãe. Os trabalhos nessa
área mostraram que falar é uma atividade inata que
depende menos do que se imagina de fatores como
educação, origem étnica, geográfica ou cultural. Uma
pesquisa divulgada neste ano por duas psicólogas da
Universidade de Chicago comprovou que a aquisição de
linguagem é genética. O que a educação faz é
torná-la mais complexa e sofisticada. Isso foi
demonstrado analisando-se crianças surdas-mudas
americanas e chinesas de 3 anos de idade. Elas nunca
tinham tido contato com a linguagem escrita, só se
comunicavam por gestos e eram mais eficientes nisso que
as próprias mães com quem trocavam sinais. Colocadas
diante de frascos com bolhas de sabão, tanto americanas
quanto chinesas tiveram os mesmos gestos e na mesma
ordem. Ou seja, reagiram da mesma forma independentemente
da origem, e fizeram aquilo sem ter sido ensinadas por
ninguém. "A aquisição de linguagem em seres
humanos é tão natural quanto o latir para os
cachorros", disse a psicóloga americana Lisa
Gleitman, da Universidade de Pensilvânia, nos Estados
Unidos, em fevereiro deste ano, num encontro da
Associação Americana de Ciência Avançada.
A velocidade com
que uma criança aprende a falar é impressionante. Do
primeiro para o segundo ano de vida acontece um boom, no
qual, segundo cientistas da Universidade de San Diego,
nos Estados Unidos, a criança passa de um repertório de
quarenta palavras no primeiro aniversário para, em
média, 600 no segundo. Daí para a frente não pára
mais de aprender a falar. É verdade que o ritmo vai
ficando menos intenso e varia muito entre as pessoas.
Mas, de acordo com estudos americanos, incorporamos novas
palavras ao nosso vocabulário até os 30 anos, quando
dominamos entre 80.000 e 100.000 termos a língua
portuguesa tem cerca de 400.000 palavras. Depois disso,
diminuímos o ritmo, provavelmente porque as palavras
mais comuns já foram aprendidas. O fato é que, tendo
aprendido a falar, uma criança não terá só dominado a
forma mais complexa e perfeita que o ser humano tem para
se expressar. Terá adquirido um mecanismo que, desde
nossos remotos ancestrais, serve de arma para a
sobrevivência do homem. "Somos frágeis fisicamente
diante de outras espécies e a linguagem foi nossa
ferramenta para trocar informações e conhecimentos
sobre como dominar a natureza", explica a
psicolingüista Leonor Scliar, da Universidade Federal de
Santa Catarina.
O que elas falam e com que idade
Apesar de cada criança ter um ritmo próprio,
que varia de acordo com a personalidade e os
estímulos que recebe em casa, ela tem um
vocabulário mais ou menos uniforme para cada
idade. Confira:
Até 3 meses
Além de sua principal forma de
comunicação, o choro, o bebê produz ruídos
com a garganta e estala o céu da boca
3 a 6 meses
Emite sons ao acaso, brinca com
os barulhos que produz e responde à sua maneira
quando se fala com ela. A criança sorri quando
quer a atenção do adulto e se diverte com jogos
do tipo "Cadê o nenê? Achou!"
6 a 12 meses
Fase da lalação, do treino com
monossílabos do tipo "ma-ma",
"da-da", "ne-ne", que a
criança diz como se estivesse conversando. Ela
faz isso quando quer conseguir algo, chamar a
atenção, recepcionar alguém, comer etc. Bate
palmas, joga beijos e entende quando lhe dizem
tchau. Começa a reservar cada som para um objeto
específico, ou seja, não vai chamar a todos da
casa de "mã-mã", por exemplo
1 a 2 anos
Fase do grande boom. A criança pode aprender
duas palavras novas por dia, segundo estudos
americanos. Ela primeiro faz frases de uma
palavra só, tipo "nenê-bola,
nenê-naná", mas termina o ano construindo
frases de até três palavras como "quer ver
tevê". Nessa etapa, a criança não se
cansa de fazer perguntas para a família
"Que é isso?"
2 a 3 anos
As frases vão aumentando e surge
o plural. As formas verbais vão ficando mais
corretas e começa a fase do "por
quê", que exige grande energia dos pais.
Cuidado: nessa fase, o grau de compreensão dos
pequenos é espetacular. Eles entendem tudo o que
se conversa à sua volta, até mesmo quando são
dois adultos falando em grande velocidade
3 a 4 anos
Já constrói frases com até
seis palavras, sobre o dia-a-dia, situações
reais e pessoas próximas. A criança compreende
a existência de regras gramaticais e tenta
usá-las (como o correto é "eu bebi",
diz "eu queri"). É comum a troca do R
pelo L, como plato, blincar e tloca, que acaba
até os 3 anos e 6 meses
4 a 5 anos
Espera-se que a criança fale
cerca de 10.000 palavras. Ela expressa seus
sentimentos e emprega verbos como
"pensar" e "lembrar". Também
fala de coisas ausentes e usa palavras de
ligação entre as sentenças, como "e
então", "porque", "mas"
etc.
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Como choram e...
O volume do choro de uma criança pode variar
de um murmúrio a um berro de 84 decibéis --
semelhante a uma britadeira. As razões que levam
uma criança a chorar também variam, e, com o
tempo, os pais passam a identificá-las ao
primeiro acorde. Há, no entanto, três tipos
principais:
MANHA: é a grande
arma da criança para fazer prevalecer sua
vontade. Aparece nos momentos de birra, quando a
criança sente ciúme ou é proibida de fazer
algo
MÁGOA: é um choro comum
também entre os adultos, o que muda é a
situação. A criança chora quando uma
brincadeira dá errado, sente medo de ficar só
ou em outras situações semelhantes
DOR: todo mundo sabe o que é
sentir dor a ponto de chorar. Nas crianças, isso
não acontece apenas quando ela se machuca, mas
também quando está com frio ou fome
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...como sorriem
Estudo recente mostra que o sorriso das
crianças ajuda na vida social. As crianças mais
sorridentes costumam atrair a atenção de
professores na escola, têm a preferência dos
avós e tios e, entre os amigos, são tidas como
pessoas "legais". Assim como o choro,
há um sorriso para cada situação, que pode ser
agrupado em três famílias
FECHADO: é aquele sorriso
envergonhado, acompanhado muitas vezes de um
rubor na face. É dado normalmente quando a
criança fica sem graça ao receber uma crítica
ou elogio
SUPERIOR: é o sorriso
social, quando a criança quer apenas ser
agradável. É usado quando a professora conta
uma história ou quando a criança é apresentada
aos amigos dos pais
LARGO: é a demonstração
máxima de felicidade, de diversão. É a risada
expressiva, com direito a som, quase uma
gargalhada. A criança dá essa risada larga
quando está se divertindo em brincadeiras, ou
depois de uma travessura
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