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Problemas Congênitos
Além dos limites
As
crianças com síndrome de Down vivem melhor hoje

Por que a grávida pode
ter problemas dentários?
Em função das alterações
hormonais, as gestantes podem ter sangramento nas
gengivas.
E, em virtude do aumento
de PH na saliva, podem
ter mais cáries
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Quando o pediatra
sentou na beirada da cama do hospital, a psicóloga
gaúcha Maria do Carmo Maciel Junqueira, na época com 30
anos, estranhou que o marido, Júlio, segurasse suas
mãos de uma maneira tão firme. Foi no dia seguinte ao
nascimento do filho do casal. "Algumas coisas nos
levam a crer que o Frederico tem síndrome de Down",
disse-lhe o médico. A notícia atingiu-a como um tiro.
Sua reação inicial foi chorar, angustiada. A síndrome
era para sempre, iria marcar a vida da criança, dela, da
família. Teve medo do futuro. O sentimento de culpa por
não ter gerado um filho perfeito misturou-se à
sensação de morte. "Naquele momento, eu não
estava ganhando um filho, estava perdendo", conta.
Júlio e Maria do Carmo entravam no mundo das crianças
especiais.
Ainda no hospital,
olhando para o bebê em seus braços, Maria do Carmo
conseguiu superar a dor. "Chorei o que tinha de
chorar", diz. "Mas, depois, me dei conta de que
queria o Frederico de qualquer jeito." A tristeza
cedeu lugar ao amor e à dedicação. Quinze dias depois,
o casal foi procurar a Associação de Familiares e
Amigos de Down, de Porto Alegre, onde obteve
informações sobre a síndrome. Frederico iniciou um
trabalho de estimulação e agora, com quase 2 anos de
idade, está aprendendo a falar e a andar,
desenvolvimento que pode ser considerado apropriado.
A chance de uma
mãe ter um filho com problema é pequena. Três em cada
100 bebês nascem com alguma anomalia. As doenças não
ocorrem por culpa dos pais, por sua vontade ou por sua
responsabilidade. As mais freqüentes são as de mais
fácil solução, como um dedinho a mais ou uma
cardiopatia simples. Problemas graves são mais raros.
Das anomalias congênitas de causa genética, a síndrome
de Down é a mais freqüente. Atinge uma em cada 800
crianças em todo o mundo e é considerada um acidente
biológico. A vida de um portador de Down é hoje
infinitamente melhor do que no passado. Pode-se dizer que
está até mais inteligente em razão do acesso à
escola, do contato com outras pessoas. Houve um tempo em
que os pais tinham "vergonha" do defeito do
filho e a criança vivia trancada em casa. Hoje se sabe
que 80% dos portadores da síndrome que chegam aos 35
anos poderão atingir a idade de 55 anos. Com a mão da
ciência, o Down tem uma sobrevida maior. Antibióticos
ajudam no combate a infecções e exames permitem
diagnosticar precocemente doenças como o
hipotireoidismo, problema fatal para o portador da
síndrome.
Apesar das feições físicas
características e das complicações que, em maior ou
menor grau, podem acompanhar a síndrome, o portador se
desenvolve praticamente como qualquer outra pessoa e
passa por quase todas as etapas. Só que em ritmo mais
lento. Corre, brinca e anda de bicicleta. A diferença
maior acontece quando chega à idade escolar, pois a
deficiência dificulta o aprendizado. É difícil para
ele acompanhar o raciocínio lógico da matemática ou
compreender a estrutura do português. No Brasil, não
há nenhum caso de Down que tenha feito universidade, nem
mesmo o 2º grau. Assim como é raro, por exemplo, um
Down ter habilitação para dirigir. Por ter um
raciocínio mais lento e ser dispersivo, ele pode
esquecer o caminho de casa e demorar para reagir em uma
situação crítica.
Até bem pouco
tempo atrás, o Down era rotulado como
"treinável". Não se acreditava que pudesse
aprender uma profissão, indo além dos trabalhos
meramente mecânicos e repetitivos. Hoje, os jovens Down
estão fazendo cursos profissionalizantes, sonhando em
ter uma carteira de trabalho assinada. No Centro de
Preparação para o Trabalho, CPT, entidade ligada à
Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, Apae, de
São Paulo, 22 adolescentes são preparados para
estágios remunerados em diversas empresas, podendo ser
contratados no futuro. Entre eles está a jovem Ilka
Farrath Fornaziero, de 19 anos, que vive sua segunda
experiência profissional. Após trabalhar em uma
floricultura, Ilka tornou-se auxiliar de classe na
pré-escola Espaço Aberto Educação Infantil.
A derrubada de
muitos preconceitos em torno da síndrome e o aumento da
participação dos Down na sociedade são conquistas que
devem muito ao movimento organizado de pais, incansáveis
na luta pelos direitos de seus filhos. Só no Brasil são
1.500 Apaes e quarenta instituições exclusivas para o
tratamento da síndrome. Todas surgiram a partir de
pessoas que se uniram para trocar experiências e
oferecer aos filhos oportunidades de um desenvolvimento
saudável.
Como me apaixonei
por meu filho
Eu não estava preparada para
ter um filho diferente. Durante a gravidez, você só imagina que
ele será lindo, que poderá sair numa capa de revista. Quando o Leonardo
nasceu, esse sonho morreu. Levei um susto, pensava que ele era um
monstro que ia babar, mostrar a língua. Eu sofria muito. Se eu sentia
vergonha dele, como a sociedade iria tratá-lo? Meu marido teve uma
rejeição ainda maior. Dizia que preferia que ele tivesse morrido.
Foi uma experiência de luto. Com o tempo, tudo se inverteu e minha
família ganhou muito com o Leonardo. Aprendemos a amar por amar,
sem condições, e hoje acho meu filho lindo.
| "As conquistas
dele são uma vitória para a família" |
Que as
pessoas vão olhar na rua, não há dúvida.
Entendo esse olhar de desconhecimento. Talvez, se
eu não tivesse um filho diferente, agiria como
elas. O importante é que para mim o Leonardo é
uma fonte de satisfação. Cada conquista dele é
uma vitória para a família. Ele faz aula de
computação, natação, vai ao clube. Prepara o
próprio lanche quando sente fome, escolhe o
vídeo que vai assistir, toma banho e se veste
sozinho.
Quanto ao
futuro dele, eu e meu marido queremos que ele
trabalhe. Acredito que terá uma profissão
simples, talvez que nem dê para se sustentar. Se
vai casar ou não, envolver-se com alguém ou
não, é um ponto de interrogação. Ele já tem
suas paixões pelas meninas como ele. Por tudo
isso, a síndrome de Down não deve ser vista
como uma prisão para a criança e para a
família. Para isso, é vital o apoio de pai e
mãe, mesmo que no começo as pessoas fiquem
perdidas. É natural. Mas a gente supera.
Maria Cristina Fernandes
de Oliveira é
professora em São Paulo e mãe de Leonardo,
10 anos, portador da síndrome de Down
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