Gêmeos

Com a casa cheia

Cada vez mais mulheres estão tendo
dois, três ou quatro filhos de uma vez

Roupa: Na Barra da Saia ; Edredon: Veranda Linens

Qual é o risco de uma gestante ter o filho no carro, a caminho da maternidade?

Mínima. Entre os primeiros sinais do início do trabalho de parto e o nascimento há, pelo menos, seis horas

Em plena noite de Natal, o padre da cidade goiana de Anhangüera interrompeu o sermão para anunciar o nascimento dos quíntuplos da conterrânea Selma Maria Vieira de Araujo. Os pais logo receberam doações de fraldas, roupas, chupetas, mamadeiras, banheiras e berços. Um senhor levou ao hospital um cheque de 60 reais, roupas antigas da netinha e uma caixa de suco de maracujá para o pai. "É para ele ficar calmo", explicou. Quando os filhos de Irenita Feltes nasceram, em 1991, parou o desfile militar de 7 de Setembro, na cidade gaúcha de Campo Bom, e os alto-falantes avisaram sobre a chegada dos quadrigêmeos. Há algumas semanas, o casal paulista Eurico e Vanessa Pelegrino saiu de casa com seus trigêmeos de 7 meses para comer doce na esquina. "Em menos de 200 metros, fomos parados pelo menos cinco vezes", conta o pai. "Todo mundo quer ver e conversar." Irmãos gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos, quíntuplos ainda chamam a atenção, provocam espanto e encantamento, mas estão cada vez menos raros. O nascimento de filhos múltiplos, que acontecia a uma média de dez em cada 1.000 nascimentos, aumentou cerca de 10% de uns anos para cá.

Filhos aos pares ou aos montes, e de uma vez só, significam, em geral, uma grande alegria para quem sofria com a expectativa de não ter nenhum. Mas os médicos estão preocupados com tanta festa. "É importante pensar na saúde e na qualidade de vida dos bebês", diz o neonatologista mineiro Eduardo Carlos Tavares. Uma gestação múltipla aumenta em sete vezes a chance de nascimento prematuro. Nessas condições, os bebês ainda não possuem várias das funções do organismo plenamente desenvolvidas e têm quatro vezes mais chance de alterações congênitas e retardo de crescimento.

Passado o perigo da gravidez e do parto, a alegria da chegada dos bebês se mistura a uma nova rotina que põe a casa de pernas para o ar. Quando os trigêmeos de Eurico e Vanessa foram para casa, depois de quarenta dias hospitalizados, o casal ainda morava no antigo apartamento de dois quartos e teve de se virar para acomodar os novos moradores. "O Eurico dormia com nossa filha de 9 anos no quarto do casal e eu ficava no outro com os três e minha mãe, que ficou em casa um mês nos ajudando", conta Vanessa. Agora, num apartamento maior, eles organizam o dia-a-dia de Beatriz, Julio e Adriano com uma planilha de computador, em que anotam horários de mamada, quem trocou a fralda ou tomou banho e os remédios. Todas as manhãs são preparadas 24 mamadeiras e uma jarra de leite. Não falta confusão. "A sobra do leite de um vai para o outro e, às vezes, confundo em quem dei banho." São consumidos, a cada dia, trinta fraldas, uma lata de leite em pó e um tubo de pomada para assaduras.

Além de requerer ambientes maiores, os gêmeos também exigem cuidados especiais. Embora o desenvolvimento seja muito semelhante ao de outra criança qualquer, há uma área em que costumam ficar para trás: a linguagem. Os médicos têm algumas suspeitas para isso. Uma delas seria o fato de a mãe raras vezes falar diretamente só com um dos filhos. Ou então, por estar sempre atarefada, ela teria menos tempo de conversar com as crianças. A terceira explicação seria a de que o principal modelo de linguagem da criança é seu irmão, que também não sabe falar ou ainda fala errado. Assim, o erro de um seria reforçado pelo outro. O que também não se sabe é se o começo de vida dividido apertadamente durante nove meses no útero tem conseqüências sobre a personalidade dos gêmeos. É possível que essa experiência os torne diferentes dos filhos unitários.

Um dos únicos estudos sobre a relação entre gêmeos foi feito pela neuropsiquiatra italiana Alessandra Piontelli. Ela estudou quatro pares de gêmeos. Durante a gravidez, a médica fazia de quatro a cinco observações de uma hora dos bebês dentro da barriga das mães, auxiliada por aparelhos de ultra-som. Depois, fez visitas semanais às crianças até os 4 anos de vida. As irmãs Marisa e Beatriz se estapeavam no útero materno. Um radiologista narrou assim o que via no vídeo: "...o da direita reagiu. Este é o punho do da esquerda. Eles estão brigando, se esmurrando literalmente, vejam. A mão do da esquerda, agora a mão do da direita..., murros..., socos..., suas mãos estão muito próximas, é um soco atrás do outro. Incrível". Na hora do parto, a disputa foi tanta que o obstetra teve de optar pela cesariana para salvar a vida de Beatriz. As irmãs continuaram brigando e se odiando pelo menos até os 4 anos de vida. Os gêmeos Alice e Luca agiam de forma oposta, estavam sempre se acariciando, o que lhes valeu o apelido de "os gêmeos carinhosos" dado pela equipe médica que os assistia. A brincadeira preferida de Alice e Luca, quando completaram 1 ano de idade, era cada um ficar de um lado da cortina da sala de estar mexendo na cabeça do outro, exatamente como faziam no útero separados pelas membranas dos sacos amnióticos.

Os prováveis responsáveis pela maior parte dos gêmeos da geração "assistida" são os remédios que induzem a ovulação. Eles fazem que a mulher produza, num único ciclo menstrual, vários óvulos prontos para ser fecundados, quando o natural é um por vez. Com a fertilização in vitro, a probabilidade de uma mulher ter filhos múltiplos é de cerca de 20% e com indutores ovulatórios, de 12,5%. A probabilidade natural é de apenas 1,25%. Nos Estados Unidos, o número de nascimentos múltiplos quadruplicou nos últimos 25 anos. Apenas na maternidade São Luiz, em São Paulo, os partos de gêmeos aumentaram 80% no último ano e os de trigêmeos, 20%. "É um surto", brinca o presidente do Centro de Prematuros do Rio de Janeiro, Luiz Eduardo Vaz Miranda. As vendas de indutores ovulatórios no Brasil cresceram 134% nos últimos dois anos, e a expectativa é de que continuem aumentando em média 20% até o ano 2000. Mais gêmeos à vista.

Os irmãos gêmeos se dão bem?

Quem tem gêmeos faz. Quem não tem faria se tivesse. Na hora de vestir as crianças, os pais colocam lacinhos iguais no cabelo das meninas e o mesmo modelo de bermuda xadrez nos meninos. Na rua, é aquele sucesso. Na cabeça dos pimpolhos, nem tanto. Ter um irmão gêmeo, dizem os especialistas, é estressante. E atitudes como essa dos pais, aliadas a outras que exploram a incontornável semelhança, podem muitas vezes contaminar a relação entre os dois. "Explorando o parecido, ela pode tornar-se insegura e causar, inclusive, comportamento de rivalidade entre irmãos", diz a psicoterapeuta infantil Ana Cristina Ribeiro Alves, de Santa Catarina.

Há poucos estudos sobre o comportamento dos gêmeos e como ele difere do das demais crianças. Sabe-se que gêmeos idênticos tendem a ter seus primeiros relacionamentos amorosos na mesma época, se casam mais ou menos juntos e os filhos nascem quase ao mesmo tempo. Comportamentos diversos, como fumar, ter insônia, divórcio, escolha da carreira, hobbies, consumo de café, têm mais chances de coincidir entre gêmeos idênticos do que entre gêmeos fraternos — uma descoberta que sugere que esses traços talvez sejam mais influenciados pelos genes do que se podia imaginar.




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