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Índice
Amir
Taheri
É
possível a integração
dos países
islâmicos ao
mundo moderno?
Ahmad
Dallal
O
que a luta contra o terrorismo
pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd
Gitlin
O
antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados
de 11 de setembro?
Robert
Wright
O
Islamismo é uma religião
violenta?
Walter
Laqueur
O
terrorismo pode ser
vencido?
Jacob
Weisberg
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert
Shiller
Qual
o impacto
dos atentados
sobre o processo de
globalização?
Sir
Michael Rose
O
que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências
políticas e militares?
Dominique
Schnapper
Os
jovens muçulmanos da
Europa podem se integrar à vida local?
Jacques
Le Goff
Qual
o impacto dos atentados
sobre o processo de globalização?
Victor
Bulmer-Thomas
Qual
o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés
Naím
A
América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países
ricos?
Gustavo
Franco
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando
Henrique Cardoso
O
que as mudanças no cenário
mundial em 2001 significam
para o Brasil?
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O que as mudanças no
cenário mundial em 2001
significam para o Brasil?
O mundo após
o
11 de setembro
Diz-se que
em 14 de julho de 1789 o diário de Luís XVI conteria apenas
uma anotação: hoje, nada a registrar. A veracidade eventual
do fato importa menos que a lição que encerra: é
tarefa das mais árduas antecipar o rumo da história e perceber
suas inflexões no momento mesmo em que ocorrem. A dificuldade contrária
se manifestou claramente no debate que surgiu após o 11 de setembro.
Sob o impacto do gesto brutal, foi comum encontrar declarações
peremptórias sobre o caráter histórico do acontecimento.
O ineditismo da manifestação irracional de violência
deixa em todos nós a marca profunda de termos sido testemunhas
do episódio que, anos adiante, talvez venha a ser reconhecido como
o evento que inaugurou o século XXI.
A pergunta
que se impõe, diante disso, é a seguinte: que podemos fazer
para evitar que o destino das sociedades humanas siga regido pela guerra?
Estou convencido de que devemos voltar nossa atenção não
para o que mudou, mas, mesmo que paradoxalmente, para o que não
mudou. Nem tudo o que é extraordinário é transformador,
muito menos renovador. Em outras palavras, afastar o fantasma da guerra
requererá vencer desafios que não são novos: combater
as desigualdades, reduzir a exclusão, promover a tolerância,
construir a legitimidade do consenso livre. A paz é muito mais
que o contrário da guerra. Ela é o corolário da justiça.
Ao refletir,
nesse contexto, sobre o mundo desde o 11 de setembro, creio que um primeiro
fato a ser sublinhado é que toda a reação foi precedida
de cuidadoso trabalho de consultas político-diplomáticas.
Quando muitos imaginavam uma reação militar imediata e intempestiva,
preferiu-se trilhar o caminho mais seguro de, por um lado, obter os apoios
políticos necessários e, por outro, deixar claro que o confronto
por iniciar-se não representava de forma alguma um conflito entre
o Ocidente e o Islã, mas sim o combate a grupos radicais que não
se podem reclamar herdeiros de nenhuma tradição religiosa
ou civilizacional.
O que ficava
claro naquele momento era que mesmo a única superpotência
remanescente sabe que há limites para a ação unilateral
e que, sem o apoio da comunidade internacional, suas ações
careceriam de legitimidade.
A redescoberta
da necessidade do consenso talvez seja o principal avanço que terá
emergido desse confronto. Num momento em que se insinuavam com força
crescente tendências que apontavam para um unilateralismo indesejado,
é um alívio perceber o rápido amadurecimento da percepção
de que vivemos em uma sociedade internacional profundamente interligada
e no seio da qual mesmo o mais categórico diferencial de poder
não se traduz imediatamente na capacidade de agir isoladamente.
O que hoje
a sociedade internacional reclama é justamente que esse papel renovado
da busca do consenso seja colocado a serviço da construção
da paz. Nesse âmbito, tenho insistido na necessidade de avanços
em algumas áreas.
Na área
política, por exemplo, é inadiável que os principais
mecanismos de decisão sejam reformados. É inexplicável
que o Conselho de Segurança das Nações Unidas mantenha
uma composição de membros permanentes que congela as realidades
do poder da época da II Guerra Mundial e não traduz o surgimento
de novas vozes e perspectivas no cenário internacional desde então.
É inexplicável também que se mantenham círculos
restritos de deliberação como o Grupo dos 7/8, que hoje
nem sequer consegue reunir-se com tranqüilidade em meio aos protestos
antiglobalização.
Na área
econômica, se o lançamento da nova Rodada de Comércio
em Doha deve ser saudado como um avanço, ao incorporar temas que
são do interesse direto dos países em desenvolvimento, não
deixa de causar preocupação que o principal parceiro comercial
das Américas tenha recebido, ao menos em primeira instância,
mandato negociador que essencialmente proíbe concessões
em áreas nas quais as vantagens competitivas trabalham em favor
dos parceiros menos ricos e, ao mesmo tempo, criam constrangimentos adicionais,
como vincular consultas sobre flutuações cambiais a temas
de liberalização comercial. Certamente não será
este o mandato que levará a uma América comercialmente mais
unida.
Ao pensar
sobre os desafios que teremos pela frente, tenho a convicção,
serena e realista, de que somos um país com credenciais para participar
de forma construtiva da elaboração de um futuro comum para
a humanidade. O peso de nossa tradição diplomática
se vê hoje reforçado por uma economia sólida e estável,
com regras do jogo claras e que segue crescendo em meio à recessão
mundial que nos cerca. Somos uma sociedade comprometida com a busca da
prosperidade em ambiente democrático. A verdade é que o
Brasil foi capaz, internamente, de dar resposta pacífica a alguns
dos graves dilemas que hoje afligem a cena internacional. Por isso mesmo,
temos a autoridade moral para erguer nossa voz em defesa de um futuro
melhor.
Essa autoridade
moral está amparada em quatro conquistas essenciais. A primeira
é o caráter plural de nossa sociedade. A segunda é
a solidez de nossas instituições democráticas. Com
isso, as vozes mais diversas convivem em ambiente político harmônico,
no qual o que as une não é o consenso obrigatório,
mas a certeza de que a diversidade é valor a ser respeitado. A
terceira conquista que nos distingue é a firmeza de nosso compromisso
no combate à desigualdade e à pobreza. Nos últimos
anos, milhões de brasileiros se ergueram da linha da pobreza absoluta.
Ainda falta muito, mas os avanços são claros. A quarta conquista
de que nos podemos orgulhar como nação é a solidez
que alcançamos para nossa economia. Os números estão
aí. Hoje o Brasil é um país melhor do que era na
virada dos anos 90.
Foi como
presidente desta nação orgulhosa de si mesma que me dirigi
à Assembléia-Geral da ONU para transmitir a mensagem de
que o Brasil tem uma contribuição importante a prestar para
uma ordem internacional que se reconstrói ante nossos olhos. Essa
é uma mensagem realista. O que desejamos para a sociedade das nações
é o que procuramos construir para nós mesmos. Os desafios
vencidos pelo povo brasileiro nos últimos anos nos ensinam que,
sim, é possível superarmos os dramas da desigualdade. Sim,
é possível associar prosperidade com justiça. Estamos
fazendo isso no Brasil. Nada nos condena a um mundo dividido entre ricos
e pobres, cindido pelo ressentimento e pela desesperança. Mais
de três meses passados da manifestação de irracionalidade
destrutiva, nosso desafio é construir um mundo amparado na solidariedade,
orientado pela Razão, voltado para a Paz. Mãos à
obra. O Brasil é parceiro solidário nessa tarefa.
Fernando
Henrique Cardoso
Sociólogo, presidente da República do Brasil
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