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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
Artigos Fernando Henrique Cardoso

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Índice
Amir Taheri
É possível a integração dos países islâmicos ao mundo moderno?
Ahmad Dallal
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd Gitlin
O antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados de 11 de setembro?
Robert Wright
O Islamismo é uma religião violenta?
Walter Laqueur
O terrorismo pode ser vencido?
Jacob Weisberg
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert Shiller
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Sir Michael Rose
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Dominique Schnapper
Os jovens muçulmanos da Europa podem se integrar à vida local?
Jacques Le Goff
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Victor Bulmer-Thomas
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés Naím
A América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países ricos?
Gustavo Franco
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando Henrique Cardoso
O que as mudanças no cenário mundial em 2001 significam para o Brasil?

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O que as mudanças no
cenário mundial em 2001
significam para o Brasil?

O mundo após o
11 de setembro

Diz-se que em 14 de julho de 1789 o diário de Luís XVI conteria apenas uma anotação: hoje, nada a registrar. A veracidade eventual do fato importa menos que a lição que encerra: é tarefa das mais árduas antecipar o rumo da história e perceber suas inflexões no momento mesmo em que ocorrem. A dificuldade contrária se manifestou claramente no debate que surgiu após o 11 de setembro. Sob o impacto do gesto brutal, foi comum encontrar declarações peremptórias sobre o caráter histórico do acontecimento. O ineditismo da manifestação irracional de violência deixa em todos nós a marca profunda de termos sido testemunhas do episódio que, anos adiante, talvez venha a ser reconhecido como o evento que inaugurou o século XXI.

A pergunta que se impõe, diante disso, é a seguinte: que podemos fazer para evitar que o destino das sociedades humanas siga regido pela guerra? Estou convencido de que devemos voltar nossa atenção não para o que mudou, mas, mesmo que paradoxalmente, para o que não mudou. Nem tudo o que é extraordinário é transformador, muito menos renovador. Em outras palavras, afastar o fantasma da guerra requererá vencer desafios que não são novos: combater as desigualdades, reduzir a exclusão, promover a tolerância, construir a legitimidade do consenso livre. A paz é muito mais que o contrário da guerra. Ela é o corolário da justiça.

Ao refletir, nesse contexto, sobre o mundo desde o 11 de setembro, creio que um primeiro fato a ser sublinhado é que toda a reação foi precedida de cuidadoso trabalho de consultas político-diplomáticas. Quando muitos imaginavam uma reação militar imediata e intempestiva, preferiu-se trilhar o caminho mais seguro de, por um lado, obter os apoios políticos necessários e, por outro, deixar claro que o confronto por iniciar-se não representava de forma alguma um conflito entre o Ocidente e o Islã, mas sim o combate a grupos radicais que não se podem reclamar herdeiros de nenhuma tradição religiosa ou civilizacional.

O que ficava claro naquele momento era que mesmo a única superpotência remanescente sabe que há limites para a ação unilateral e que, sem o apoio da comunidade internacional, suas ações careceriam de legitimidade.

A redescoberta da necessidade do consenso talvez seja o principal avanço que terá emergido desse confronto. Num momento em que se insinuavam com força crescente tendências que apontavam para um unilateralismo indesejado, é um alívio perceber o rápido amadurecimento da percepção de que vivemos em uma sociedade internacional profundamente interligada e no seio da qual mesmo o mais categórico diferencial de poder não se traduz imediatamente na capacidade de agir isoladamente.

O que hoje a sociedade internacional reclama é justamente que esse papel renovado da busca do consenso seja colocado a serviço da construção da paz. Nesse âmbito, tenho insistido na necessidade de avanços em algumas áreas.

Na área política, por exemplo, é inadiável que os principais mecanismos de decisão sejam reformados. É inexplicável que o Conselho de Segurança das Nações Unidas mantenha uma composição de membros permanentes que congela as realidades do poder da época da II Guerra Mundial e não traduz o surgimento de novas vozes e perspectivas no cenário internacional desde então. É inexplicável também que se mantenham círculos restritos de deliberação como o Grupo dos 7/8, que hoje nem sequer consegue reunir-se com tranqüilidade em meio aos protestos antiglobalização.

Na área econômica, se o lançamento da nova Rodada de Comércio em Doha deve ser saudado como um avanço, ao incorporar temas que são do interesse direto dos países em desenvolvimento, não deixa de causar preocupação que o principal parceiro comercial das Américas tenha recebido, ao menos em primeira instância, mandato negociador que essencialmente proíbe concessões em áreas nas quais as vantagens competitivas trabalham em favor dos parceiros menos ricos e, ao mesmo tempo, criam constrangimentos adicionais, como vincular consultas sobre flutuações cambiais a temas de liberalização comercial. Certamente não será este o mandato que levará a uma América comercialmente mais unida.

Ao pensar sobre os desafios que teremos pela frente, tenho a convicção, serena e realista, de que somos um país com credenciais para participar de forma construtiva da elaboração de um futuro comum para a humanidade. O peso de nossa tradição diplomática se vê hoje reforçado por uma economia sólida e estável, com regras do jogo claras e que segue crescendo em meio à recessão mundial que nos cerca. Somos uma sociedade comprometida com a busca da prosperidade em ambiente democrático. A verdade é que o Brasil foi capaz, internamente, de dar resposta pacífica a alguns dos graves dilemas que hoje afligem a cena internacional. Por isso mesmo, temos a autoridade moral para erguer nossa voz em defesa de um futuro melhor.

Essa autoridade moral está amparada em quatro conquistas essenciais. A primeira é o caráter plural de nossa sociedade. A segunda é a solidez de nossas instituições democráticas. Com isso, as vozes mais diversas convivem em ambiente político harmônico, no qual o que as une não é o consenso obrigatório, mas a certeza de que a diversidade é valor a ser respeitado. A terceira conquista que nos distingue é a firmeza de nosso compromisso no combate à desigualdade e à pobreza. Nos últimos anos, milhões de brasileiros se ergueram da linha da pobreza absoluta. Ainda falta muito, mas os avanços são claros. A quarta conquista de que nos podemos orgulhar como nação é a solidez que alcançamos para nossa economia. Os números estão aí. Hoje o Brasil é um país melhor do que era na virada dos anos 90.

Foi como presidente desta nação orgulhosa de si mesma que me dirigi à Assembléia-Geral da ONU para transmitir a mensagem de que o Brasil tem uma contribuição importante a prestar para uma ordem internacional que se reconstrói ante nossos olhos. Essa é uma mensagem realista. O que desejamos para a sociedade das nações é o que procuramos construir para nós mesmos. Os desafios vencidos pelo povo brasileiro nos últimos anos nos ensinam que, sim, é possível superarmos os dramas da desigualdade. Sim, é possível associar prosperidade com justiça. Estamos fazendo isso no Brasil. Nada nos condena a um mundo dividido entre ricos e pobres, cindido pelo ressentimento e pela desesperança. Mais de três meses passados da manifestação de irracionalidade destrutiva, nosso desafio é construir um mundo amparado na solidariedade, orientado pela Razão, voltado para a Paz. Mãos à obra. O Brasil é parceiro solidário nessa tarefa.

 

 

Fernando Henrique Cardoso
Sociólogo, presidente da República do Brasil



 
 
   
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