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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
Artigos Gustavo Franco

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Índice
Amir Taheri
É possível a integração dos países islâmicos ao mundo moderno?
Ahmad Dallal
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd Gitlin
O antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados de 11 de setembro?
Robert Wright
O Islamismo é uma religião violenta?
Walter Laqueur
O terrorismo pode ser vencido?
Jacob Weisberg
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert Shiller
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Sir Michael Rose
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Dominique Schnapper
Os jovens muçulmanos da Europa podem se integrar à vida local?
Jacques Le Goff
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Victor Bulmer-Thomas
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés Naím
A América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países ricos?
Gustavo Franco
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando Henrique Cardoso
O que as mudanças no cenário mundial em 2001 significam para o Brasil?

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O papel do governo
voltou a ser louvado.
Qual o significado disso?

O desafio à
globalização vai
além da economia

É pouco o que já pode ser dito sobre os efeitos econômicos dos atentados de 11 de setembro, pela singularidade do episódio. No plano estritamente econômico, a seqüência dos desdobramentos tem início nas companhias de seguros, passa pelo turismo, pelas empresas de transporte aéreo, pelas fábricas de aviões e daí se espalha e se alimenta do efeito das iniciativas militares americanas e das respectivas represálias. Torna-se perigosa a já complexa relação com o mundo islâmico, com aquele reflexo no preço do petróleo, sempre uma dor de cabeça para a economia global em momentos de tensão no Oriente Médio.


AP
O DIFÍCIL RECOMEÇO
A economia americana já estava dando sinais de resfriamento depois de uma década de crescimento acelerado. Uma vez mais os ciclos econômicos empurravam os indicadores para baixo. O ataque terrorista apressou a chegada da recessão. Nos dias que se seguiram aos ataques, os operadores da bolsa em Wall Street (como o homem que aparece nesta foto) foram trabalhar com máscara para proteger os pulmões da poeira. Ela se assentou. A economia também visitou os abismos e começou a voltar de lá

Mais perigoso ainda é o fato de armas de destruição em massa, disponíveis, sabe-se lá como, para grupos de fanáticos, permitirem conceber novas e apavorantes formas de "guerra", não mais entre Estados nacionais, mas de países contra grupelhos, cartéis e quadrilhas, estes usando a capacidade de atacar populações civis indefesas com bactérias, gases ou drogas. São "guerras" com lógica de seqüestro, em que somos todos reféns, e nas quais a segurança das potências militares se vê atingida. Seus espetaculares arsenais e sua capacidade diplomática se mostram igualmente inúteis. O inimigo está fora de alcance, em cavernas na Ásia Central, nas selvas da Colômbia ou na casa ao lado como uma pessoa comum e sem limites para o uso de armamento químico, biológico e nuclear, contra alvos sem nenhuma lógica.

Diante disso, mesmo os mais frios economistas não podem deixar de reconhecer a espantosa dimensão da caixa de Pandora aberta em 11 de setembro. Pior, os efeitos econômicos já visíveis vão bem além do impacto direto, pois sacodem o imaginário, as bases subjetivas do capitalismo e da globalização. A maior economia do planeta se vê tomada por uma onda de insegurança, medo e desânimo, e também de chauvinismo, isolacionismo e ódio, exatamente o pretendido pelos terroristas.

A tradução desses sentimentos em termos econômicos não está descrita em nenhuma teoria conhecida. São fenômenos que o economês apenas consegue empacotar numa expressão antiga, em que tudo é permitido, "deterioração da confiança". Para alívio dos analistas econômicos, existem, em vários países, estatísticas conhecidas como "índices de confiança" do consumidor, do produtor ou de gerentes de compras, que medem a disposição desses senhores em assumir compromissos futuros, medem a intenção de comprar. Graças a esses números, a onda de insegurança econômica ganhou um termômetro e alguma concretude ou, ao menos, certa manuseabilidade pelos analistas. Fica até parecendo não ser algo no domínio da psicologia das massas, e apenas mais uma estatística econômica ruim, aliás péssima, mas como dezenas de outras, publicadas a toda hora, sempre tocando os mercados para baixo ou para cima em doses geralmente semelhantes.

As estatísticas pós-atentados que aferem "confiança" vieram realmente horrorosas. Como já se conhece de recessões passadas a relação histórica entre esses indicadores ditos "antecedentes" e o PIB, é possível aplicar as fórmulas econométricas e chegar a uma previsão de crescimento. Evidentemente, sujeita a chuvas e trovoadas.

Assim, o PIB mundial, que vinha crescendo forte, 3,8% em 2000, puxado pelos EUA (4,1%) e pela Ásia emergente (7,2%), deve fechar 2001 com crescimento de 1,1%. Mas para 2002 os oráculos estão revendo suas previsões para baixo a cada semana, a mais recente chegando a 0,2%. O ano de 2002, portanto, a distância, e já consideradas as respostas convencionais à crise, deverá ser pior que 2001 para a economia mundial, cheio de sobressaltos, escorregando para algo descrito como uma recessão suave.

Todavia, as previsões podem estar com viés para pior em vista da "sensação de depressão" provocada pelos atentados. Ao que tudo indica, teremos crescimento baixo, combinado com os ventos gelados da guerra contra o terrorismo.

Quando se pensa no papel do Estado numa conjuntura tão confusa e repleta de elementos estranhos aos manuais de economia, são necessários cuidados adicionais com o receituário conhecido e com outra criatura perigosa, sempre presente em momentos de perplexidade, o "oportunismo ideológico".

O mundo vive problemas inéditos, com os quais ninguém sabe lidar, mas todas as correntes de pensamento econômico se igualam ao alegar que vinham avisando havia tempo que as coisas iam mal e que, se tais e tais providências não fossem tomadas, ou desfeitas, iríamos enfrentar dificuldades. É o velho sofisma das "perdas internacionais", o axioma de que "alguma coisa sempre vai dar errado em algum momento", de modo que ao oportunista apenas cabe profetizar, aguardar o desfecho e afirmar que sua visão crítica do universo estava correta e apontava naquela direção.

Contudo, é necessário deixar claro que o tumulto ora em andamento não evidencia o fracasso do consenso de Washington nem prova o acerto das cosmologias e teorias conspiratórias antiglobalização que florescem em toda parte. Cá no Brasil isso se vê no modo carrancudo porém benevolente como todos os candidatos de oposição, e também o governista, se referem à importância de preservar políticas fiscais e monetárias responsáveis e a eficiência na ação regulatória e compensatória do Estado. Não há revolução alguma a fazer. O pior que pode ocorrer é atrapalhação diante de uma conjuntura confusa.

Mas, voltando à economia mundial, desde a crise da Ásia perdemos parâmetros, certezas e convenções numa extensão sem precedentes. Considerem-se a solidez do modelo econômico asiático, no qual vários "milagres econômicos" ocorreram no pós-guerra, as esperanças abertas com a queda do Muro e o processo de reformas nos países que pertenceram ao império soviético, a exuberância da economia americana, as incríveis promessas da nova economia, o sistema bancário internacional e suas formidáveis fusões, o potencial das economias emergentes da América Latina, a integração européia, a criação do euro para equiparar-se ao dólar, a tão esperada recuperação do Japão, grande locomotiva do Oriente. Quem poderia imaginar que teríamos dificuldades em cada uma dessas áreas, a partir da maxidesvalorização na Tailândia, em 1997? Jamais uma reação em cadeia ocorreu de forma tão espetacular e rápida: uma borboleta no Oriente, uma crise no Brasil, como na famosa imagem da teoria do caos.

Aqui, como no resto do mundo, esses últimos anos foram do agente Mulder, personagem central de Arquivo X, personificação do crente em teorias conspiratórias, e também em alienígenas, paranormais, feiticeiros, mutantes, todos bem conhecidos e bem escondidos pelo sistema imunológico da nação americana. Quis o destino, todavia, como disse uma autoridade brasileira, que todos os fantasmas aparecessem ao mesmo tempo. O fato é que, diante da sucessão ininterrupta de más notícias, e especialmente desde os primeiros grandes tombos do Nasdaq, os bancos centrais mundo afora vêm diminuindo os juros. Mensalmente, os presidentes de BCs acionistas do Banco de Compensações Internacionais (BIS) reúnem-se na Basiléia para conversar. Até 1996, eram apenas as principais economias desenvolvidas, daí em diante foram admitidos como "sócios" os principais países emergentes. Em conseqüência, jamais houve tamanha coordenação entre BCs, não apenas na fixação dos juros mas também em atividades ligadas à supervisão e regulamentação bancária. De dezembro de 2000 até o começo de dezembro de 2001, os juros mundiais (taxas para um dia, média ponderada pelos respectivos PIBs) caíram de 6,4% para 3,5%. Nos EUA, a queda foi de 6,5% para 1,75%; na Eurolândia, de 4,75% para 3,75%; e no Japão, de 0,26% para inacreditáveis 0,01%. Como os indicadores de atividade estão vindo piores e a inflação nunca foi tão baixa em toda parte, já se diz que as quedas serão ainda maiores.

Nesse período, afora a Argentina e a Turquia, países em crise aguda, os juros subiram apenas no Brasil, na Indonésia e na Tailândia, onde as taxas alcançaram, respectivamente, 19,0%, 17,6% e modestos 2,5%. Por que os juros subiram no Brasil? Bem, a única boa razão vinda do exterior é a Argentina. De resto, ao deixar o câmbio desvalorizar-se de forma absolutamente exagerada e indevida, o próprio BC fechou os espaços para acompanhar o resto do mundo na espiral descendente de taxas de juros. Pena.

No plano fiscal, observa-se fenômeno semelhante, uma movimentação coordenada com vista a reanimar a economia mediante maiores déficits, porém de forma bastante comedida. O indicador coletivo para países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta para a passagem de um superávit de 0,4% do PIB em 2000 para um déficit de 1,3% em 2001 e de 2,4% em 2002. Para os EUA, o superávit cairia de 2,3% do PIB para 1,6% e para um pequeno déficit de menos 0,2% em 2002. Parte disso é provocada pela própria desaceleração econômica, de modo que a efetiva mudança de "filosofia" da política fiscal é medida descontando-se esses efeitos. Dessa maneira, o crescimento do déficit de 2000 para 2002 seria de pouco mais de 1% do PIB para a OCDE e para os EUA. São números muito modestos para que neles se enxergue o início de uma nova era de keynesianismo. Exceto em países de tradição populista, onde o pensamento marxista tem mais adeptos, o tratamento do assunto foi mais para o banal que para o sério. É certo que, desde Keynes, os governos sabem que a política fiscal serve para reanimar economias em depressão, mas o tempo mostrou que serve também para embriagar, através da dívida pública e de suas seqüelas.

Em países como o nosso, os atentados não estão ressuscitando apenas Keynes, mas também seu "clone" de esquerda, bem menos conhecido, Michal Kalecki, economista polonês que muitos dizem ter antecipado todas as descobertas de Keynes, mas que aventurou algumas outras que habitam o folclore da teoria econômica. Em um de seus textos mais famosos, Kalecki dizia que, depois de a economia capitalista ter descoberto como se manter permanentemente no pleno emprego, não necessariamente os comandantes do sistema o fariam, pois era necessário conservar certo desemprego a fim de "disciplinar" a classe operária. É o agente Mulder da esquerda, sem dúvida.

Está enorme o assanhamento heterodoxo com Keynes, Kalecki, o crescimento dos déficits nos países da OCDE e a ajuda governamental às companhias aéreas, por exemplo. Qualquer pretexto nos serve para justificar a gandaia do gasto público, da política industrial, dos gastos militares e do "tudo pelo social". Um economista desses "alternativos", por exemplo, observou que "eles" estão fazendo exatamente o que "nós" (do PT, PC do B etc.) preconizamos faz tempo. É preciso atinar que, partindo de superávits fiscais, "eles" podem tomar seu traguinho de política fiscal expansionista num momento de ventos frios e obter certo alívio, mas nós, ex-alcoólatras, não podemos porque não sabemos parar.

Sem dúvida, o ataque às torres gêmeas, tal como o desastre do Titanic, em 1912, permite leituras moralistas sobre os custos do progresso, o excesso de velocidade, a destruição de paraísos perdidos e de identidades nacionais, bem como o estupro da mãe natureza mediante a destruição das florestas, de espécies em extinção e do Protocolo de Kioto.

Corre também, à boca pequena, que temos aí uma espécie de grito dos excluídos do processo de globalização, um aterrorizante aviso de que as crescentes tensões e desigualdades multiplicadas pela "ordem econômica internacional" terão conseqüências monstruosas nos atos de "radicais porém sinceros", como Osama bin Laden. A militância antiglobalização, constrangida, pareceu cancelar as violentas demonstrações planejadas para o encontro anual do FMI e do Banco Mundial em Washington, antes mesmo de o próprio encontro ser cancelado. Por razões semelhantes, o IRA depôs seu arsenal. A "hipermilitância" provou seu ponto: seus poderes podem ser gigantescos, as "ruas" não podem deixar de ser ouvidas e a exclusão ou os conflitos distantes não podem mais ser ignorados num mundo onde a chave para o sucesso de qualquer causa é obter a atenção da mídia.

Com efeito, esta guerra, como a do Golfo, é travada principalmente no terreno do simbólico, de modo que a mídia será fundamental, desta vez não apenas para administrar o fluxo de informações sobre a guerra e satanizar os bandidos, mas também para repor o imaginário de uma sociedade multicultural democrática e cosmopolita no seu devido lugar. É inegável que o inimigo começou com uma enorme vantagem. As espetaculares imagens provocadas pelo choque dos aviões contra as torres produziram uma ferida narcísica nos americanos, e também no processo de globalização, que vai demorar a cicatrizar. Aviões suicidas, cartas com anthrax, a varíola, a Aids têm em comum os signos da globalização – o deslocamento de pessoas, o contato, o contágio, a circulação de informações.

É claro que a globalização está diante de um enorme desafio, que vai bem além da economia. É claro que tudo isso pode dissipar-se gradualmente se a economia mundial se recuperar em resposta às ferramentas convencionais. Afinal de contas, nada aconteceu que abalasse os "fundamentos" da economia capitalista ocidental. Mas se a medicina convencional não funcionar vamos ter uma encrenca inteiramente nova.

 

Gustavo Franco
Economista e ex-presidente do Banco Central do Brasil



 
 
   
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