
artigos
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Índice
Amir
Taheri
É
possível a integração
dos países
islâmicos ao
mundo moderno?
Ahmad
Dallal
O
que a luta contra o terrorismo
pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd
Gitlin
O
antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados
de 11 de setembro?
Robert
Wright
O
Islamismo é uma religião
violenta?
Walter
Laqueur
O
terrorismo pode ser
vencido?
Jacob
Weisberg
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert
Shiller
Qual
o impacto
dos atentados
sobre o processo de
globalização?
Sir
Michael Rose
O
que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências
políticas e militares?
Dominique
Schnapper
Os
jovens muçulmanos da
Europa podem se integrar à vida local?
Jacques
Le Goff
Qual
o impacto dos atentados
sobre o processo de globalização?
Victor
Bulmer-Thomas
Qual
o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés
Naím
A
América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países
ricos?
Gustavo
Franco
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando
Henrique Cardoso
O
que as mudanças no cenário
mundial em 2001 significam
para o Brasil?
|
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Fábrica de Quadrinhos
 |
Por estar distante do
epicentro da crise global
desencadeada pelos
atentados, a América Latina
vai ser uma vez mais esquecida?
O maior risco para
a América Latina é
continuar invisível
No fim de
2001, São Paulo, a Cidade do México e Buenos Aires tiveram
de competir pela atenção mundial com Cabul, Kondoz e Kandahar.
E perderam. Isso é natural e talvez não tenha importância.
Daqui a uns meses, essas cidades do Afeganistão, e tudo o que significam,
serão tão remotas e esquecidas como hoje estão as
cidades de Kosovo ou da Somália que, em seu momento, também
ocuparam a atenção mundial. Lamentavelmente, é possível
que a invisibilidade mundial que se abateu sobre a América Latina
e o Caribe no fim deste ano persista quando a guerra no Afeganistão
tiver deixado de ser o tema central e Osama bin Laden estiver morto ou
desaparecido.
A América
Latina não é considerada parte importante dos problemas
que vão preocupar, em 2002, os países mais influentes do
mundo nem parte importante de suas soluções.
O 11 de
setembro introduziu novos temas na agenda política mundial e acelerou
tendências econômicas internacionais que já existiam.
A guerra ao terrorismo e a recessão econômica na maior parte
do planeta são experiências para as quais a década
de 90 não havia preparado o mundo. Então, para esse mundo
mais preocupado em neutralizar as redes globais de terroristas suicidas
e em reativar as economias anêmicas dos Estados Unidos, da Europa
e do Japão, as necessidades e as oportunidades da América
Latina ficam ainda mais invisíveis do que normalmente já
são.
Essa invisibilidade
não constitui nenhuma catástrofe, mas é um problema.
Que a prioridade política ou militar que Washington ou Bruxelas
atribuam à América Latina seja mínima não
é tão grave. Mas que as bolsas de Nova York e de Londres
não tenham a América Latina em suas telas de radar, a não
ser para se protegerem da Argentina, isso, sim, é mais preocupante.
Mudou o
mundo depois de 11 de setembro? Sim e não. Ainda é cedo
para identificar quais as conseqüências mais permanentes e
quais serão passageiras. Poucos dias antes dos ataques terroristas,
Vicente Fox, presidente do México, era recebido com festa pelo
presidente Bush como o melhor amigo dos Estados Unidos. Na campanha eleitoral,
Bush não soube responder ao jornalista gaiato que lhe perguntou
quem era o presidente do Paquistão, país que os EUA castigavam
com sanções econômicas e isolamento político.
Depois de 11 de setembro, Vicente Fox desapareceu do noticiário
e da cabeça do governo americano, enquanto Pervez Musharraf virou
um aliado crucial dos EUA. Quase instantaneamente, a ajuda econômica
e os empréstimos do Banco Mundial substituíram as sanções
e o isolamento do Paquistão.
Será
essa recomposição de prioridades dos Estados Unidos uma
conseqüência permanente de 11 de setembro? Não. A geografia
e as realidades geopolíticas não são assim tão
voláteis. O atentado terrorista não mudou o fato de que
os EUA têm uma extensa fronteira com o México, que o tratado
de livre comércio faz do México um sócio permanente
e que os mexicanos que vivem nos EUA se tornam rapidamente uma das minorias
de maior influência política. A longo prazo, esses três
fatores garantem para o México um lugar de relevo na agenda americana.
Mas no momento não.
Por ora,
as prioridades geopolíticas dos Estados Unidos são avançar
na guerra ao terrorismo, fortalecer suas defesas ante novos ataques, controlar
a efervescência no Oriente Médio e consolidar suas novas
e melhores relações com a Rússia e a China. E, naturalmente,
reativar a economia. Não quer isso dizer que outros objetivos sejam
abandonados. Até é possível que, no âmbito
formal e retórico, outros objetivos continuem sendo mencionados
como muito importantes, talvez mesmo como prioridades do governo Bush.
Mas não nos iludamos com retórica. Uma coisa são
as prioridades fundamentais, outra são os objetivos atraentes.
Montar um tratado de livre comércio em todo o continente continua
sendo um objetivo atraente para os EUA. Mas não é uma prioridade
fundamental. Pelo menos comparado com o objetivo de garantir que a monarquia
da Arábia Saudita não sofra o mesmo destino do xá
do Irã e se veja substituída por um regime fundamentalista
islâmico. Ou, comparado com a necessidade de desmantelar todos os
laços da Al Qaeda fora do Afeganistão, de tornar a China
um aliado estratégico e não um rival conflituoso, de a Rússia
não ser uma ameaça nuclear ou o Iraque uma ameaça
biológica. Esses não são objetivos interessantes,
são prioridades fundamentais a que se subordinam todos os demais
objetivos, por mais atraentes que sejam.
É
bem verdade que avançar nessas prioridades fundamentais não
impede tratar de atingir outros objetivos menos cruciais. Teoricamente
é possível, digamos, amarrar um tratado continental de livre
comércio ao mesmo tempo que se manobra a transição
árabe-saudita. Teoricamente. Na prática, o capital político,
os recursos humanos e os meios de organização de qualquer
governo, mesmo um tão rico quanto o dos Estados Unidos, têm
limites. Nada mais escasso que o tempo de um presidente e de seus ministros,
nem algo mais congestionado que a agenda de um Congresso como o americano.
A falta de tempo do presidente e de seu gabinete ou a impossibilidade
de incluir assuntos na pauta de discussões e deliberações
do Congresso são questões poucas vezes consideradas na análise
das forças que determinam a conduta internacional dos EUA. Mas
na prática esses engarrafamentos que parecem triviais são
os fatores que definem com a maior precisão que objetivos importantes,
sem nenhuma contradição, é necessário adiar.
Muitos dos
objetivos relacionados com a América Latina serão, portanto,
adiados em 2002. Na América Latina, aparecem apenas dois candidatos
à atenção de alto nível e a algum tipo de
reação por parte dos EUA no futuro próximo: a Colômbia
e a Venezuela.
A piora
do conflito armado na Colômbia e a clara possibilidade de que as
guerrilhas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia
(Farc) e do Exército de Libertação Nacional (ELN)
avancem no controle do território colombiano a ponto de pôr
em perigo a sobrevivência do governo de Bogotá poderiam motivar
uma ação americana, provavelmente por intermédio
de outros países do hemisfério. A intensificação
e a exportação do ativismo antiamericano de Hugo Chávez
na Venezuela e uma guerra civil prolongada ali poderiam resultar em reação
similar. Essas duas crises são possíveis, mas, no momento,
pouco prováveis.
Coisa que
também parece pouco provável é a assinatura de um
tratado de livre comércio na América Latina. Essa improbabilidade
não resulta apenas da concentração do governo americano
em outros objetivos mais prioritários. Vem também do pouco
apoio político nos EUA a essa idéia e da precariedade das
economias que são os atores fundamentais de um possível
acordo. A experiência mostra que os principais ingredientes para
o êxito da integração econômica não são
a vontade política ou a freqüência dos encontros presidenciais.
É a estabilidade macroeconômica dos países que devem
participar dessa integração. O progresso do Mercosul, por
exemplo, não foi freado pela falta de vontade política,
mas pela volatilidade macroeconômica de seus membros principais.
Infelizmente, volatilidade macroeconômica continuará sendo
uma característica da América Latina nos anos vindouros.
Uma das
características dos anos 90 foi que, de quando em vez, algum país
do mundo sofreu um colapso financeiro. Todos pegaram de surpresa banqueiros,
governos, políticos, acadêmicos e demais especialistas de
fama mundial voltados para o assunto. Além disso, todos esses terremotos
financeiros tiveram efeitos surpreendentes e imediatos em outros países,
mesmo os que, situados em outro continente, não mantinham muitas
relações econômicas com os atingidos. O Brasil, por
exemplo, sofreu mais com a crise financeira russa de 1998 que com o crash
financeiro do México em 1995. A América Latina ainda não
se recuperou de todo dos efeitos da crise asiática. E agora deve
sofrer as conseqüências da mãe de todas as crises: o
colapso dos investimentos americanos em empresas ligadas à nova
economia, em particular à internet. O superinvestimento em bens
de capital relacionados com empresas destinadas a beneficiar-se da nova
economia não é a causa única da recessão americana.
Mas é a principal. A falência de muitas dessas empresas,
a queda da confiança dos investidores, a perda de 3 trilhões
de dólares de capital nas bolsas de valores e seu efeito sobre
a propensão de consumo conjugaram-se para que, depois de 120 meses
seguidos de crescimento (de março de 1991 a março de 2001),
a economia americana começasse a encolher. Os ataques terroristas
de 11 de setembro naturalmente contribuíram para agravar os problemas
econômicos dos EUA.
Ainda não
se sabe quanto, quando e onde se farão sentir os efeitos da recessão
americana. Sabemos, sim, que a América Latina já os sente
e que 2002 será um ano péssimo para as economias do hemisfério,
especialmente as que já se apresentavam débeis. Por azar,
as más notícias vêm de todos os lados. Os preços
internacionais dos produtos que a América Latina exporta estão
baixos demais porque se contraiu a demanda mundial de minérios
e de commodities em geral. Também o turismo caiu drasticamente,
o que afeta particularmente os países do Caribe e o México.
As remessas de fundos por parte dos imigrantes latinos que vivem nos EUA
para a família na América Latina também cairão,
já que o desemprego americano reduzirá as fontes de emprego
e de renda dos latinos.
O mais sério,
porém, é que uma vez mais governos e empresas latino-americanos
enfrentarão enormes problemas no financiamento internacional de
que tanto dependem. É bem verdade que uma das boas notícias
é que a recessão mundial trouxe como conseqüência
uma forte queda nas taxas de juros. Mas não para os governos e
empresas latino-americanos que requerem capital novo. As multinacionais,
a principal fonte de investimento estrangeiro direto, ainda digerem os
efeitos da recessão, cortando orçamentos de inversão
e analisando as conseqüências que o estado da segurança
pós-11 de setembro terá sobre suas operações
internacionais. Os investidores institucionais e os fundos de investimento
ainda não se recuperaram das perdas sofridas no colapso de suas
aplicações na nova economia. Um mundo onde os investidores
pareciam ignorar o que fosse o risco e se mostravam dispostos a investir
somas imensas em empresas da internet sem ativos tangíveis e sem
lucros previsíveis deu lugar a outro em que os investidores vêem
perigos e riscos em toda parte, mesmo onde não existem. É
também um mundo onde antes se premiava a velocidade e agora se
premia a cautela, a paciência. Por que investir agora na América
Latina se ainda não sabemos que conseqüências terá
o colapso da Argentina?, perguntam-se os investidores. A probabilidade
de que minhas aplicações na América Latina, dentro
de seis meses, valham mais é muitíssimo menor que a de valerem
menos, observa outro. Daí, entre ele e muitos outros colegas, a
decisão mais comum é não investir na América
Latina. Por ora.
Nesse sentido,
é muito importante que o desenlace da crise argentina seja absorvido.
Só depois de analisadas as conseqüências do "grande
evento" e suas ondas de choque em outros países a situação
se encaminhará para a normalidade. Uma boa surpresa possível
é que o contágio desse "grande evento" cujo epicentro é
a Argentina não seja nem tão profundo, nem tão longo,
nem tão disseminado por outros países como muitos esperam.
Para haver contágio é preciso haver surpresa. Ora, desde
meados do ano que passou a possibilidade de a Argentina sofrer um acidente
financeiro de vulto não era mais surpresa. Mas também é
certo que, se os investidores internacionais em bônus argentinos
considerarem muito grandes suas perdas, esse sentimento poderá
afetar a confiança do mercado nesse tipo de bônus no âmbito
mundial.
Por outro
lado, também é possível divisar sinais encorajadores
para certas economias da América Latina. No início dos anos
90, houve um boom de afluxo de capitais na região. As reformas
econômicas daquela época serviram de ímã para
capitais que eram expulsos das economias européias por taxas de
juros muito baixas. A década de 2000 começa também
com taxas de juros ainda mais baixas e com investidores que, mais cedo
ou mais tarde, recuperarão algo de seu apetite pelo risco. Muitos
não tolerarão por longo tempo que seu dinheiro renda 3%
ao ano. A América Latina hoje não causa o entusiasmo que
as reformas econômicas produziram naquele momento. Mas agora tem
algo melhor: preços baixíssimos. Empresas familiares e grupos
econômicos que precisam de capital para crescer e aumentar sua competitividade
estão à venda total ou parcialmente por preços muito
atraentes. Os preços de edificações, fábricas,
equipamentos e terras produtivas podem ser o ímã que atraia
parte dos investidores que buscam maior rendimento para seu dinheiro.
Esses investidores não irão aos países mais instáveis,
àqueles cujo governo não consiga estabilizar a economia
ou onde as leis repelem o investimento estrangeiro, em vez de atraí-lo.
Mas na América Latina a maioria dos governos empenha-se em criar
um clima atrativo ao investimento. Essa é uma grande lição
dos anos 90 que não se perdeu. E é aprendendo que a América
Latina pode evitar ser financeiramente invisível nos próximos
anos.
Moisés
Naím
Venezuelano, economista e editor da revista Foreign Policy,
em Washington
|
|
 |