
artigos
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Índice
Amir
Taheri
É
possível a integração
dos países
islâmicos ao
mundo moderno?
Ahmad
Dallal
O
que a luta contra o terrorismo
pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd
Gitlin
O
antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados
de 11 de setembro?
Robert
Wright
O
Islamismo é uma religião
violenta?
Walter
Laqueur
O
terrorismo pode ser
vencido?
Jacob
Weisberg
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert
Shiller
Qual
o impacto
dos atentados
sobre o processo de
globalização?
Sir
Michael Rose
O
que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências
políticas e militares?
Dominique
Schnapper
Os
jovens muçulmanos da
Europa podem se integrar à vida local?
Jacques
Le Goff
Qual
o impacto dos atentados
sobre o processo de globalização?
Victor
Bulmer-Thomas
Qual
o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés
Naím
A
América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países
ricos?
Gustavo
Franco
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando
Henrique Cardoso
O
que as mudanças no cenário
mundial em 2001 significam
para o Brasil?
|
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Fábrica de Quadrinhos
 |
Qual o impacto dos
atentados sobre o
processo de globalização?
Um fato novo na
globalização:
o perigo
No fim de
semana anterior a 11 de setembro, eu estava em Washington hospedado no
hotel onde, no ano anterior, o movimento antiglobalização
promovera uma importante manifestação de protesto contra
o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, por ocasião
de sua reunião anual. O assunto do momento era a iminente reunião
do FMI e do Banco Mundial, transferida para um local mais "seguro", com
um número reduzido de representantes e menor duração.
Apesar dessas medidas, conseguiriam os manifestantes tumultuar a reunião?
O mundo,
agora, parece bem diferente. A partir dos ataques terroristas de 11 de
setembro, o movimento antiglobalização perdeu impulso e
a reunião do FMI e do Banco Mundial transcorreu quase sem ser notada
(no Canadá). A minoria violenta presente no movimento foi marginalizada,
mas a maioria não-violenta ainda não conseguiu recuperar
a voz. Acaso isso significa que a resistência à globalização
diminuiu em definitivo?
Parece ser
o caso, numa visão superficial. Os Estados Unidos, a única
superpotência mundial, ainda apóiam a globalização
e seu êxito militar na guerra no Afeganistão reforçou
a capacidade de alcançar seus objetivos. Isso ficou demonstrado
com muita clareza na reunião ministerial da Organização
Mundial do Comércio (OMC) em Doha, no Catar, em novembro, na qual
se decidiu dar início a uma nova rodada de negociações
de comércio mundial.
Alguns afirmaram
que a atenção exagerada com a segurança, a partir
de 11 de setembro, e a necessidade de policiar as fronteiras com mais
rigor vão minar os esforços no sentido da globalização.
Porém isso é ilusório. A mobilidade da mão-de-obra
nunca fez parte do programa de globalização pelo
menos nos países ricos e as novas medidas para restringir
a movimentação de pessoas não implicam restrições
na movimentação de capital (a meu ver, a chave para a globalização).
É verdade que alguns centros financeiros em paraísos fiscais
poderão ter uma vida mais difícil nos próximos anos,
mas isso não será o bastante para proclamar que a globalização
foi revogada.
Acaso isso
significa que a globalização se tornou menos polêmica?
De forma alguma. Os custos e os benefícios fundamentais da globalização
continuam os mesmos e o movimento antiglobalização logo
vai recobrar a voz (esperemos que sem a minoria violenta). No entanto,
o valor das apostas subiu, pois agora os custos serão vistos como
um dos fatores que estão na raiz do terrorismo e os benefícios
constituem nitidamente um modo de cortar essa raiz. Assim, a partir de
11 de setembro, tornou-se ainda mais premente definir os custos e os benefícios
e pesquisar maneiras de reduzir os custos.
Alguns ficarão
tentados a afirmar que não há ligação entre
as raízes do terrorismo e os custos da globalização.
Vão salientar o fato de que quinze dos dezenove seqüestradores
do dia 11 de setembro vieram da Arábia Saudita, que está
longe de ser um país pobre, e foram incitados por uma versão
radical do Islã, na qual o mundo se divide entre fiéis e
infiéis. Mas isso incorre em uma petição de princípio.
Sempre haverá fanáticos, em todas as sociedades, que pregarão
a intolerância e o ódio. O que importa saber é se
suas palavras encontram eco no conjunto da população. Onde
existe um sentimento de desespero engendrado pela pobreza, falta de mobilidade
social e corrupção da elite política há muito
mais probabilidade de a intolerância encontrar eco no conjunto da
população.
A globalização
é um fenômeno altamente complexo, ainda em evolução.
Trouxe muitos benefícios para os países que adaptaram com
sucesso seus sistemas econômicos à liberalização
do comércio e da conta capital e somaram a isso medidas simplificadoras
do mercado e novas estruturas reguladoras. Os Estados Unidos são,
seguramente, o país desenvolvido que mais ganhou com a globalização,
ao passo que a Coréia do Sul talvez seja o melhor exemplo de uma
importante nação em desenvolvimento que colheu benefícios
substanciais, apesar de suas dificuldades nos últimos anos. O Brasil
ainda tem um bom caminho pela frente, antes de poder declarar que se beneficiou
de forma substancial.
Os principais
benefícios da globalização nos países desenvolvidos
foram o aumento da competição no mercado de bens e a queda
do preço ajustado à inflação de numerosos
produtos, em benefício dos consumidores. Nos países em desenvolvimento,
os benefícios principais dizem respeito às oportunidades
para o crescimento estimulado pela exportação e ao aumento
dos salários reais devido à absorção de mão-de-obra.
São essas as razões fundamentais por que o Brasil não
conseguiu beneficiar-se de modo significativo com a globalização,
uma vez que seu setor exportador continua muito pequeno em relação
ao tamanho de sua economia e o crescimento tem sido muito modesto.
Em vista
desses benefícios, era de esperar que a globalização
levasse a uma aceleração do crescimento mundial e a uma
melhoria da distribuição da renda, tanto no âmbito
de cada país quanto entre países ricos e países pobres.
Mas há muito poucos sinais de que isso tenha acontecido. A taxa
de crescimento da economia mundial não aumentou, embora se possa
argumentar que ela teria sido mais baixa sem a globalização,
e a distribuição da renda em muitos países se tornou
mais desigual. Na questão crucial do abismo entre países
ricos e países pobres, a sentença ainda está em aberto.
Porém, se excluirmos a República Popular da China (RPC),
com sua população enorme e sua taxa de crescimento espetacular,
há provas circunstanciais de que o abismo de renda, na verdade,
se ampliou.
A necessidade
de reduzir o abismo entre ricos e pobres, tanto entre os países
como no âmbito de cada país, constitui um ponto fraco muito
grave da globalização e tornou-se mais urgente depois de
11 de setembro. Não existe nenhuma correlação simples
entre pobreza e terrorismo, mas a ausência de esperança de
melhorias nas condições materiais de vida favorece, sem
dúvida nenhuma, as condições em que o terrorismo
floresce.
É
preciso, ainda, considerar de forma adequada outros custos ligados à
globalização. O primeiro diz respeito à elevada volatilidade.
Os países sempre estiveram sujeitos a choques externos, que tanto
podem ser positivos como negativos, porém, mantendo-se as demais
variáveis inalteradas, esses choques serão mais fortes se
o comércio constituir uma fração mais elevada do
PIB e se o influxo de capitais representar uma proporção
mais elevada na formação do capital fixo bruto. A globalização
nada fez para conter a volatilidade dos preços de produtos primários
nos mercados mundiais e o crescimento do fluxo de capital tem sido associado
ao aumento da variação desses preços. Mesmo mercados
emergentes bem administrados sofreram com o aumento da volatilidade, associada
à globalização.
Nenhuma
das propostas para uma nova arquitetura financeira global se aproxima
de reduzir, muito menos de eliminar, o problema da volatilidade. Para
países com grandes mercados internos e instituições
financeiras sólidas, como os Estados Unidos, isso talvez não
importe. No entanto, para a maioria das nações inclusive
quase todos os países em desenvolvimento , o aumento da volatilidade
constitui um problema central, e as tentativas das instituições
financeiras internacionais e do G-7 para enfrentar a questão não
tiveram grande efeito.
Outro problema
ligado à globalização é o aumento da concentração.
A globalização faz crescer a competição e
obriga as empresas a cortar custos. No entanto, isso acarretou fusões
e aquisições que, não raro, podem gerar um comportamento
anticompetitivo. Acresce que o processo de privatização,
em um número muito grande de países, meramente substituiu
um monopólio público por um monopólio privado, menos
regulamentado. Por fim, as leis de propriedade intelectual muitas vezes
incentivaram um processo de concentração, já que
as empresas buscam tirar partido de seu poder de mercado para conquistar
uma posição de liderança.
O impacto
negativo da globalização no que tange à concentração
pode ser atenuado mediante enérgicas leis antitrustes e regulamentação
eficaz. Essa é uma das razões pelas quais os Estados Unidos,
onde leis desse tipo são aplicadas, não sofrem com a globalização.
No entanto, a maioria dos países em desenvolvimento não
dispõe de leis anticompetição e, onde elas existem,
muitas vezes não são respeitadas. A regulamentação
de empresas de serviços públicos também é
fraca e ineficaz. Talvez não surpreenda, portanto, que a distribuição
da renda, funcional e proporcional, se tenha degradado sob a globalização
em muitos países em desenvolvimento.
O custo
final associado à globalização é a transferência
de poder dos governos, de outras empresas e, em certa medida, dos
trabalhadores para empresas multinacionais. Essas empresas são,
a um só tempo, os agentes de transformação no âmbito
da globalização e seus principais beneficiários.
A maioria está consciente do aumento de responsabilidade que acompanha
essa transferência de poder. As multinacionais, hoje, desenvolvem
programas destinados a fazer face à responsabilidade social das
empresas e estão cientes da necessidade de harmonizar sua ética
e seus negócios em diferentes regiões. Mas a auto-regulamentação
raramente funciona, e existem demasiados exemplos de multinacionais que
fazem mau uso do poder para arrancar concessões tributárias
de governos fracos ou impor condições de trabalho inseguras
a seus trabalhadores.
São,
acima de tudo, esses custos que os manifestantes contrários à
globalização têm em mente. O sonho, alimentado por
muitos, de revogar a globalização é, sem dúvida,
utópico, mas os manifestantes ganharão impulso, a menos
que se tomem medidas para atenuar os custos recapitulados acima. E, mesmo
que os governos dos países adiantados estejam aptos a descartar
os manifestantes como mal informados e não representativos, não
podem mais pelo menos a partir de 11 de setembro se permitir
nenhum sentimento de soberba, em vista dos possíveis elos entre
os custos da globalização e as raízes do terror.
As medidas
adotadas para dividir esses custos da globalização foram,
até agora, tímidas. O fardo do ajuste recai, em larga medida,
sobre os próprios Estados. Contudo, eles não conseguem admitir
que muitos países em desenvolvimento, em especial, têm Estados
fracos, incapazes de reagir de forma adequada ao desafio da globalização.
Existem talvez trinta Estados, sobretudo na África, no Oriente
Médio e na Ásia, onde a capacidade de se ajustar ao desafio
da globalização é quase inexistente.
Diz-se,
muitas vezes, que a responsabilidade para enfrentar o aumento da volatilidade
cabe às instituições financeiras internacionais,
mas os governos dos países em desenvolvimento também têm
um papel a cumprir na regulamentação do influxo de capitais.
Esses governos e não seus credores estão em
uma posição melhor para avaliar a capacidade de absorção
de seus Estados e é necessário adotar mecanismos capazes
de prevenir o influxo excessivo de capital de curto prazo, que, subseqüentemente,
acarreta crises financeiras. Porém, quando ocorrerem as crises,
novos mecanismos terão de ser desenvolvidos para dividir, de forma
mais eqüitativa, o peso do ajuste entre credores e devedores.
Melhorar
a distribuição da renda entre países ricos e países
pobres exige, dos países adiantados, medidas muito mais generosas
do que temos visto até aqui, no âmbito do comércio
e da dívida. O objetivo supremo da globalização parece
ser um jogo em igualdade de condições para todos, mas as
equipes que entram em campo não têm forças iguais
e ainda se faz necessário algum elemento compensatório.
As medidas anunciadas em Doha, referentes aos direitos de propriedade
intelectual, em grande parte decorrentes da pressão do Brasil,
são bem-vindas. No entanto, outras medidas serão necessárias
e os governos dos países desenvolvidos terão, por fim, de
vencer a resistência dos grupos de pressão dos setores têxtil,
agrícola e do aço, para mencionar apenas três.
Regulamentar
as multinacionais é uma questão, sobretudo, dos governos
anfitriões, mas os países desenvolvidos podem fazer muito
mais por meio do exemplo e do incentivo. O salário mínimo
é, hoje, amplamente aceito como uma ferramenta legítima
da política social. Por que não adotar um valor mínimo
para os impostos sobre os lucros? Isso impediria que as multinacionais
usassem seu poder para reduzir seus tributos nos países anfitriões,
em razão de sua capacidade de transferir-se para outros países
onde a carga fiscal é mais baixa. Se o princípio fosse aceito
pelas instituições financeiras internacionais e pelos governos
dos países desenvolvidos, poderia representar um grande passo para
reduzir uma das distorções mais graves no modo de arrecadar
impostos nos países em desenvolvimento, onde os detentores do capital
não raro têm seus lucros, dividendos e ganhos de capital
isentos de impostos.
Para países
importantes como o Brasil, é necessário e viável
encarar essas questões. O Brasil talvez ainda não tenha
conseguido beneficiar-se tanto quanto deveria com a globalização,
mas pelo menos tem capacidade no que tange ao seu Estado e à
qualidade de seus recursos humanos para mudar a situação.
O Brasil fez grandes progressos nos últimos dez anos, tanto política
quanto economicamente, mas não foi o bastante. Os acontecimentos
terríveis de 11 de setembro são um aviso para todos nós,
inclusive o Brasil, de que o mundo é um lugar perigoso e os países
têm a responsabilidade de conter as tensões sociais antes
que se tornem explosivas.
Victor
Bulmer-Thomas
Pesquisador, diretor do Royal Institute of International Affairs, de
Londres
Tradução
de Rubens Figueiredo
|
|
 |