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Índice
Amir
Taheri
É
possível a integração
dos países
islâmicos ao
mundo moderno?
Ahmad
Dallal
O
que a luta contra o terrorismo
pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd
Gitlin
O
antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados
de 11 de setembro?
Robert
Wright
O
Islamismo é uma religião
violenta?
Walter
Laqueur
O
terrorismo pode ser
vencido?
Jacob
Weisberg
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert
Shiller
Qual
o impacto
dos atentados
sobre o processo de
globalização?
Sir
Michael Rose
O
que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências
políticas e militares?
Dominique
Schnapper
Os
jovens muçulmanos da
Europa podem se integrar à vida local?
Jacques
Le Goff
Qual
o impacto dos atentados
sobre o processo de globalização?
Victor
Bulmer-Thomas
Qual
o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés
Naím
A
América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países
ricos?
Gustavo
Franco
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando
Henrique Cardoso
O
que as mudanças no cenário
mundial em 2001 significam
para o Brasil?
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Qual o impacto dos
atentados sobre o
processo de globalização?
Vamos construir
a
globalização que
nos convém
Há
uma linha mais ou menos contínua de perseverança da globalização
como futuro da história. Essa tendência é estimulada
pelo progresso das técnicas e dos instrumentos de comunicação.
Na Antiguidade, foram as estradas romanas; da Idade Média ao século
XIX, foi a navegação marítima. Nos séculos
XIX e XX, foram os barcos a vapor, o telefone, o telégrafo, o avião.
Hoje em dia, é a internet.
Fernand
Braudel ressaltou que a globalização capitalista modela
o espaço político-geográfico. Ao redor de um centro,
de uma cidade, sede de um organismo de impulsão, da Bolsa, funcionam
"satélites" mais ou menos afastados. A relação centro-periferia
domina esse sistema espacialmente hierarquizado. Foram os casos sucessivamente
de Antuérpia, Amsterdã, Londres e Nova York. Creio sobretudo
na importância de certos espaços e Estados econômico-políticos.
Na Antiguidade, foi a Roma mediterrânea, da Idade Média ao
século XIX, a Europa, hoje em dia, os Estados Unidos. Quase sempre
surge uma saudável e racional resistência a essas hegemonias
centrais.
Essa resistência
pode degenerar e assumir formas extremas e condenáveis, sobretudo
no caso da globalização atual, em que certos extremistas
podem colocar-se como vítimas e responder com a arma do terrorismo.
Sendo os Estados Unidos a potência dominante da globalização
atual, os atentados de 11 de setembro foram a resposta de grupos que se
apresentam como os intérpretes de populações muçulmanas
que entendem a globalização dominada pelos Estados Unidos
como uma opressão.
Detendo-me
em dois dos principais tipos de globalização histórica,
pretendo abordar de forma sucinta o que talvez pareça óbvio,
mas que julgo ser útil para a reflexão e a discussão
do que se pode chamar de progresso acarretado pela globalização.
No fenômeno da globalização há uma idéia
de resultado, de produzir qualquer coisa; mas, se há um progresso,
há simultaneamente males que estão ligados às globalizações
históricas e colocam em pauta os perigos da globalização
atual. O que Roma ofereceu às regiões que ela dominou por
séculos? Ela trouxe a paz. A pax romana é um elemento ligado
à dominação romana. Por conseguinte, o espaço
da globalização pode e deve ser considerado um espaço
pacífico. Evidentemente, há que se perguntar o que significa
essa pacificação, como ela foi obtida e o que representa
a dominação mesmo pacífica que ela ofereceu. Por
outro lado, a globalização romana promoveu um sentimento
entre os habitantes ou, ao menos, entre a camada superior dos habitantes
desse espaço mundial, de uma cidadania universal cidadãos
do mundo. O exemplo mais conhecido é o de Paulo de Tarso, São
Paulo, esse judeu em via de se tornar cristão que afirmava com
toda a força, como proteção e orgulho, "civis romanus
sum", "sou cidadão romano". Em 212, o imperador Caracalla proclamou
um edito atribuindo a cidadania romana a todos os sujeitos livres do império,
não importando a origem étnica ou cultural. Ademais, a globalização
romana resultou na formação de um espaço jurídico
em que existiam, portanto, noções e práticas de direito
que eram ligadas a essa pacificação e que a acompanhavam.
Daí provém ainda hoje a noção de Estado de
direito. Enfim (secundariamente?), há um problema que vivenciamos
ainda hoje, o problema da língua, da unificação lingüística.
É um terreno delicado no qual se trata de encontrar um equilíbrio
entre a língua materna e a língua de comunicação
e de civilizações, língua que não é
superior, porém mais útil, abrangente, sociável.
Em compensação,
o que se deve apontar como débito dessa globalização?
Pode-se resumir afirmando que, ao termo de um longo período de
vários séculos, a globalização romana se mostrou
incapaz de integrar ou assimilar novos cidadãos, aqueles que ela
denominou de "bárbaros" e que, não podendo ser integrados
no espaço e no sistema romano, sublevaram-se contra esse espaço.
A globalização provoca, em maior ou menor tempo, a revolta
daqueles aos quais ela se tornou não um benefício, mas uma
exploração e mesmo uma exclusão.
Quanto à
colonização ligada à expansão da Europa e
que acabará sob as formas do capitalismo, ela começa nos
séculos XV e XVI e atinge sobretudo a África e a América.
Dentre o que poderíamos chamar de progresso, deve-se mencionar
que ela pôs um fim choca-me o fato de se mencionar isso tão
raramente à crueldade das dominações e das
culturas pré-colombianas na América. Os Estados astecas,
os incas e até os maias eram de uma grande crueldade interna, de
que o exemplo mais evidente eram os sacrifícios humanos. Da mesma
maneira, tanto na América como na África, a colonização
européia, apesar de suas injustiças e seus males, fez mais
ou menos desaparecer as guerras endêmicas entre clãs e etnias.
Um problema
muito importante no que toca à globalização diz respeito
à saúde, ao estado biológico das populações.
Aqui também a balança não encontra um equilíbrio.
Na América, o resultado foi globalmente catastrófico. Os
colonizadores trouxeram involuntariamente, salvo talvez indiretamente
pela difusão do álcool, suas doenças, micróbios,
bacilos, que perturbaram profundamente o equilíbrio biológico
dos povos globalizados. Mas também há que se observar que
essa colonização promoveu um progresso na higiene e na medicina
e isso é particularmente verdadeiro para o caso da África
contemporânea. No entanto, não estou cedendo ao mito dos
colonizadores franceses, em particular do século XIX e da Terceira
República, ao dizer que a globalização deve proporcionar,
e freqüentemente proporciona, a difusão da escola, do saber,
do uso da escrita e da leitura. É certo que no outro prato da balança
dois grandes males se apresentam: o primeiro é o que eu chamo de
violação das culturas anteriores dos povos por meio de uma
verdadeira destruição dessas culturas, e aqui entra em cena
um componente da globalização que é a religião.
O terreno não é apenas aquele da civilização,
mas também aquele da religião. É um problema enorme
em que a posição de cada um e sua sensibilidade podem levar
a posições particulares, mas prefiro falar não
sou o primeiro a fazê-lo, mas não estou certo de que o faço
de maneira aprofundada do que se pode denominar, com risco de chocar
certo número de meus leitores, de perigos do monoteísmo.
A globalização adquiriu um caráter monoteísta.
A história comprova que não raro o monoteísmo desliza
para a intolerância e mesmo para a perseguição. O
Deus único não se contenta apenas em caçar os deuses
anteriores, ele também destrói toda a civilização
que está relacionada a eles e impõe à sociedade globalizada
um modelo de sociedade dominado por um poder absoluto. Em seu mais alto
nível, a globalização acarreta o maior dos males
que pode sofrer uma sociedade: a recusa da tolerância. Por outro
lado, e aqui se trata de ordem social, para retomar um termo de Braudel,
percebe-se que, depois que o aspecto econômico se torna primordial,
a globalização desenvolve, cria ou até mesmo exacerba
as oposições entre pobres e ricos ou dominadores. A pauperização
é um mal até hoje praticamente inevitável das globalizações.
Para voltar ao papel das culturas, quero sublinhar de uma vez que as globalizações
não violaram apenas as culturas, mas a história. Tal questão
está no cerne de minha reflexão. A expressão inventada,
geralmente pelos colonizadores, "povos sem história", e retomada
pelos etnólogos imersos nas próprias culturas, dizimou populações
que de fato tinham uma história, geralmente uma história
oral, uma história particular e que foi sem dúvida destruída.
A destruição da memória, da história, do passado
é algo terrível para uma sociedade. A globalização
deve assumir as histórias particulares anteriores, não as
eliminar.
Minha conclusão
é simples e talvez banal: deve-se supervisionar, controlar e combater
os perigos da globalização e fazer frutificar as potenciais
contribuições positivas. Os principais perigos são,
a meu ver, a dominação do econômico, o desenvolvimento
da desigualdade e da injustiça social e a uniformização,
a qual nunca é aceitável. Que existam compromissos sociais
e políticos que façam o conjunto funcionar é admissível,
mas a uniformização não é um ideal a ser proposto
para a humanidade. Deve-se, portanto, desenvolver as instituições,
os movimentos, os ideais que possam fazer triunfar com a globalização
a partilha, a paz no respeito das diversidades. Uma globalização
assassina das diversidades é nociva e catastrófica.
Jacques
Le Goff
O mais eminente historiador francês da atualidade,
autor de dois livros lançados no Brasil:
a vida dos santos São Francisco de Assis e São
Luís
Tradução
de Fábio Duarte Joly
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