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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
Artigos Dominique Schnapper

artigos
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Índice
Amir Taheri
É possível a integração dos países islâmicos ao mundo moderno?
Ahmad Dallal
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd Gitlin
O antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados de 11 de setembro?
Robert Wright
O Islamismo é uma religião violenta?
Walter Laqueur
O terrorismo pode ser vencido?
Jacob Weisberg
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert Shiller
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Sir Michael Rose
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Dominique Schnapper
Os jovens muçulmanos da Europa podem se integrar à vida local?
Jacques Le Goff
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Victor Bulmer-Thomas
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés Naím
A América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países ricos?
Gustavo Franco
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando Henrique Cardoso
O que as mudanças no cenário mundial em 2001 significam para o Brasil?

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Os jovens muçulmanos da
Europa podem se integrar à
vida local ou serão sempre
focos de tensão?

Eles são milhões
e vivem entre nós

Os países europeus em sua maioria foram, até a II Guerra Mundial, países de emigração. Eles povoaram as Américas e a Austrália e também muitos países da Ásia e da África. Nesse caso, a França é uma exceção. A inversão de situação que se observa agora não poderia ser mais impressionante. A Europa tem recebido uma imigração em massa desde o fim da guerra. Dois fenômenos históricos se conjugaram: o fim dos impérios coloniais da Inglaterra, da França, da Bélgica e da Holanda e um desenvolvimento econômico que pareceu milagre para quem conheceu as crises de entre as duas guerras. As necessidades da economia criaram um verdadeiro sorvedouro, que se conjugou ao atrativo das sociedades européias, mais ricas e mais livres que as sociedades de origem. O apelo da modernidade, seja qual for a ambigüidade do termo, somou-se ao efeito da pobreza nos países de origem.

Migrações têm fluxos diversos e as populações muçulmanas não são as únicas que se instalaram na Europa estabilizada. Mas constituem uma alta proporção. A maioria dispõe, ademais, da cidadania do país de chegada. Os filhos de imigrantes nascidos na Europa só conhecem a terra natal dos pais como lugar de férias, e ninguém pretende "retornar". Mas o número não é o único ponto: é em torno da presença dos muçulmanos que se cristalizam as interrogações, inquietações e oposições, às vezes violentas, que recém-chegados sempre suscitam nas coletividades organizadas. Os paquistaneses na Inglaterra, os marroquinos, turcos, surinameses e molucanos na Holanda, os argelinos, marroquinos e tunisianos na França e os turcos na Alemanha são as mais numerosas populações recentemente instaladas. Mas, além disso, tornaram-se os símbolos do imigrante e do que é considerado um "problema" social e político. O imaginário cristão é também rico em representações fantasmagóricas do Islã, tido como irracional, fanático e perigoso. É claro que os eventos de 11 de setembro as reativaram e suscitaram nova rodada de interrogações sobre a integração dos muçulmanos.

Pergunta-se sobre sua disposição em participar de sociedades democráticas modernas e de que forma as tradições muçulmanas podem adaptar-se às exigências da sociedade democrática. Afinal, é possível a participação dos muçulmanos nas democracias européias? A prática do Islã ultrapassa o domínio apenas religioso, impondo-se a lei religiosa em todos os aspectos da vida familiar e social. A não-separação do político e do religioso, que caracteriza o islamismo, não contradiz o princípio da separação do político e do religioso inscrito na legitimidade democrática? Por outro lado, o direito islâmico, fundado na desigualdade entre homens e mulheres, não contradiz o princípio de igualdade civil e política de todos, homens e mulheres, nas democracias?

É bom não ceder à tentação de globalizar "o Islã". As culturas muçulmanas são tão diferentes entre si quanto os países de onde partiram os imigrantes. O Islã paquistanês, que é o fundamento da existência do país, é austero, autoritário e exigente, comparado ao Islã do Magreb, a região formada por Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia no norte da África. Formou-se num combate de vida ou morte pela independência da união indiana, quando da retirada das tropas inglesas. É um "Islã de combate", trazido pela forte politização dos paquistaneses britânicos. A situação é muito diferente na França, onde a maioria dos muçulmanos vem de três países do Magreb. No islamismo do Magreb se misturam as recordações romanas, as tradições cabilas e berberes e as singularidades próprias dos países mediterrâneos, sem esquecer a longa influência que os franceses exerceram sobre o país – no caso da Argélia, por mais de um século. Antes de emigrarem, os magrebinos tiveram uma forte aculturação francesa durante a colonização.

A posição do Islã na sociedade difere igualmente de um país para outro, segundo a tradição de cidadania e segundo a maneira como as relações entre a política e a religião se organizam. Em todos os casos, impõe-se a necessidade, conforme os valores democráticos, de reconhecer o islamismo como uma das religiões da população nacional. Mas as maneiras de proceder a esse reconhecimento continuam muito diferentes.

Os ingleses têm uma política de grande tolerância. Admitem a representação social da comunidade muçulmana. Os paquistaneses, em geral agrupados no espaço urbano em comunidades em volta de suas mesquitas, que fazem o papel de centros comunitários, gozam de uma autonomia cultural e institucional desconhecida nos outros países. Eles ainda não têm os mesmos direitos das outras religiões no que toca às escolas, mas dispõem de seus programas de rádio e televisão, reivindicam a construção de mesquitas, cujo número se multiplica. Conseguiram que suas filhas tenham um regime especial nas escolas, que respeite sua "discrição", conforme as regras impostas pela tradição islâmica. Desde o caso Salman Rushdie, os líderes da comunidade islâmica na Inglaterra têm assumido abertamente uma posição cada vez mais política.No clima liberal da Inglaterra, as redes islâmicas se desenvolvem com muito desembaraço. O governo inglês, contudo, recusou a possibilidade de um "Parlamento muçulmano", e os juízes negam-se, em nome da convenção européia de direitos humanos, a admitir as práticas mais arcaicas, como casamento forçado, matrimônio precoce, a proibição de desposar um não-muçulmano ou a mutilação genital.

A política francesa tem um estilo aparentemente diverso. País de imigração desde a primeira metade do século XIX, a França tem uma política tradicional de integração dos imigrantes, adaptada à integração nacional de tipo jacobino e ao ideal da cidadania individual. A integração é pessoal, não reconhece comunidades. A maioria das populações imigradas reivindica direitos de cidadania, mas não direitos comunitários. Os muçulmanos franceses se abstiveram de manifestação na crise Salman Rushdie. Não se manifestaram durante a Guerra do Golfo.

A Alemanha é ainda um caso diferente. Há muito tempo, recusa considerar-se um país de imigração e quer adotar uma política de gastarbeiter, quer dizer, de trabalhadores vindos de fora em busca de um emprego por tempo limitado. Declaradamente, espera-se que retornem ao país de origem. Não se trata de transformar imigrantes em alemães. Um código restritivo de nacionalidade contribuiu para essa política.

Apesar das diferenças, vê-se que as políticas de diversos países europeus ante as populações muçulmanas acabam convergindo. A presença destas se tornou um fato e um direito e impõe aos governos o objetivo de ajudar o processo de integração dos imigrantes e sobretudo de seus filhos na coletividade nacional.

Todos os países estão num processo de reconhecimento. A Alemanha debate o assunto, mas a reticência das populações e dos governos estaduais não permitiu ainda concluir o avanço. A organização de um "culto" muçulmano é, de resto, difícil, pois o Islã vem sendo diversificado por islamismos nacionais. Turcos e marroquinos, na Holanda, recusam-se a participar da mesma organização. Na França, sucessivos ministros da Justiça tentaram formar uma representação muçulmana no modelo da representação judaica. Mas os muçulmanos estão divididos e o projeto ainda não se concluiu. Como na Holanda, os turcos se recusam a colaborar com os muçulmanos magrebinos.

É claro que o reconhecimento institucional não é o único fator de integração. O que dizer da integração social? As pesquisas sociológicas mostram as populações muçulmanas da Europa democrática, em sua maioria, evoluindo para a integração, cada qual no estilo do país onde se instalou. Os muçulmanos franceses aceitam os princípios fundadores da república laica. Na Alemanha, o comportamento das famílias turcas alinha-se mais e mais ao das alemãs: a fecundidade das mulheres turcas criadas e educadas na Alemanha é próxima à das mulheres alemãs, não à de suas compatriotas na terra natal. As normas de educação, mais indulgentes e individualistas, conformam-se àquelas correntes na sociedade global. Vêem-se os mesmos resultados na França. Apenas os paquistaneses britânicos se conservam mais específicos. Brilham na vida econômica e cultural, mesmo mantendo os valores muçulmanos, de modo que seus filhos, ao mesmo tempo que participam da vida coletiva, têm o comportamento e os valores marcados pela tradição que os pais lhes inculcaram. Entretanto, de modo geral, não há dúvida quanto à tendência à integração.

Mas por vezes essa adoção de um islamismo "tranqüilo", estimulada pelas famílias e pelos assistentes sociais, se transforma. Alguns dos convertidos acabaram por entrar nas redes islâmicas mundiais. Trata-se de uma ínfima minoria, que pode tornar-se significativa se adotar a suspeita dos nacionais de que o Islã é inassimilável pelas democracias européias.

Na Inglaterra, os paquistaneses cultivam relações antigas com os movimentos fundamentalistas. Mantêm-se em contato estreito, econômico, familiar, cultural com seu país de origem. Alguns são bem ligados aos meios integristas. Veja-se a fúria com que aderiram à fatwa que condenou Salman Rushdie à morte. Nos outros países, o apoio à sentença iraniana contra o escritor anglo-indiano foi esporádico ou nenhum.

A identificação com um Islã combativo perante o Ocidente é grande na população britânica de origem paquistanesa. Os muçulmanos modestos das periferias francesas têm uma consciência islâmica e nacional bem menos forte, mas sua solidariedade com o Islã vem crescendo desde 11 de setembro, e o anti-semitismo se desenvolve.

Os acontecimentos de 11 de setembro nos ensinaram que a adoção de alguns traços de modernidade ocidental com a profunda rejeição do poder e dos valores do Ocidente é uma combinação possível na cabeça dos muçulmanos que vivem na Europa. As populações muçulmanas instaladas na Europa integram-se cada vez mais na vida coletiva. Mas isso não exclui a solidariedade com o Islã transnacional. Não basta falar a mesma língua nem ter a mesma formação técnica para compartilhar os mesmos valores morais e políticos. De qualquer modo, a integração objetiva em larga escala não impede que os acontecimentos mundiais dificultem a plena participação dos muçulmanos nas sociedades democráticas da Europa.

 

Dominique Schnapper
Socióloga, integrante do Conselho Constitucional da França,
estudiosa do fenômeno das migrações

Tradução de Roberta Saraiva



 
 
   
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