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Índice
Amir
Taheri
É
possível a integração
dos países
islâmicos ao
mundo moderno?
Ahmad
Dallal
O
que a luta contra o terrorismo
pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd
Gitlin
O
antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados
de 11 de setembro?
Robert
Wright
O
Islamismo é uma religião
violenta?
Walter
Laqueur
O
terrorismo pode ser
vencido?
Jacob
Weisberg
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert
Shiller
Qual
o impacto
dos atentados
sobre o processo de
globalização?
Sir
Michael Rose
O
que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências
políticas e militares?
Dominique
Schnapper
Os
jovens muçulmanos da
Europa podem se integrar à vida local?
Jacques
Le Goff
Qual
o impacto dos atentados
sobre o processo de globalização?
Victor
Bulmer-Thomas
Qual
o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés
Naím
A
América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países
ricos?
Gustavo
Franco
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando
Henrique Cardoso
O
que as mudanças no cenário
mundial em 2001 significam
para o Brasil?
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Os jovens muçulmanos da
Europa podem se integrar à
vida local ou serão sempre
focos de tensão?
Eles
são milhões
e vivem entre nós
Os países
europeus em sua maioria foram, até a II Guerra Mundial, países
de emigração. Eles povoaram as Américas e a Austrália
e também muitos países da Ásia e da África.
Nesse caso, a França é uma exceção. A inversão
de situação que se observa agora não poderia ser
mais impressionante. A Europa tem recebido uma imigração
em massa desde o fim da guerra. Dois fenômenos históricos
se conjugaram: o fim dos impérios coloniais da Inglaterra, da França,
da Bélgica e da Holanda e um desenvolvimento econômico que
pareceu milagre para quem conheceu as crises de entre as duas guerras.
As necessidades da economia criaram um verdadeiro sorvedouro, que se conjugou
ao atrativo das sociedades européias, mais ricas e mais livres
que as sociedades de origem. O apelo da modernidade, seja qual for a ambigüidade
do termo, somou-se ao efeito da pobreza nos países de origem.
Migrações
têm fluxos diversos e as populações muçulmanas
não são as únicas que se instalaram na Europa estabilizada.
Mas constituem uma alta proporção. A maioria dispõe,
ademais, da cidadania do país de chegada. Os filhos de imigrantes
nascidos na Europa só conhecem a terra natal dos pais como lugar
de férias, e ninguém pretende "retornar". Mas o número
não é o único ponto: é em torno da presença
dos muçulmanos que se cristalizam as interrogações,
inquietações e oposições, às vezes
violentas, que recém-chegados sempre suscitam nas coletividades
organizadas. Os paquistaneses na Inglaterra, os marroquinos, turcos, surinameses
e molucanos na Holanda, os argelinos, marroquinos e tunisianos na França
e os turcos na Alemanha são as mais numerosas populações
recentemente instaladas. Mas, além disso, tornaram-se os símbolos
do imigrante e do que é considerado um "problema" social e político.
O imaginário cristão é também rico em representações
fantasmagóricas do Islã, tido como irracional, fanático
e perigoso. É claro que os eventos de 11 de setembro as reativaram
e suscitaram nova rodada de interrogações sobre a integração
dos muçulmanos.
Pergunta-se
sobre sua disposição em participar de sociedades democráticas
modernas e de que forma as tradições muçulmanas podem
adaptar-se às exigências da sociedade democrática.
Afinal, é possível a participação dos muçulmanos
nas democracias européias? A prática do Islã ultrapassa
o domínio apenas religioso, impondo-se a lei religiosa em todos
os aspectos da vida familiar e social. A não-separação
do político e do religioso, que caracteriza o islamismo, não
contradiz o princípio da separação do político
e do religioso inscrito na legitimidade democrática? Por outro
lado, o direito islâmico, fundado na desigualdade entre homens e
mulheres, não contradiz o princípio de igualdade civil e
política de todos, homens e mulheres, nas democracias?
É
bom não ceder à tentação de globalizar "o
Islã". As culturas muçulmanas são tão diferentes
entre si quanto os países de onde partiram os imigrantes. O Islã
paquistanês, que é o fundamento da existência do país,
é austero, autoritário e exigente, comparado ao Islã
do Magreb, a região formada por Marrocos, Argélia, Tunísia
e Líbia no norte da África. Formou-se num combate de vida
ou morte pela independência da união indiana, quando da retirada
das tropas inglesas. É um "Islã de combate", trazido pela
forte politização dos paquistaneses britânicos. A
situação é muito diferente na França, onde
a maioria dos muçulmanos vem de três países do Magreb.
No islamismo do Magreb se misturam as recordações romanas,
as tradições cabilas e berberes e as singularidades próprias
dos países mediterrâneos, sem esquecer a longa influência
que os franceses exerceram sobre o país no caso da Argélia,
por mais de um século. Antes de emigrarem, os magrebinos tiveram
uma forte aculturação francesa durante a colonização.
A posição
do Islã na sociedade difere igualmente de um país para outro,
segundo a tradição de cidadania e segundo a maneira como
as relações entre a política e a religião
se organizam. Em todos os casos, impõe-se a necessidade, conforme
os valores democráticos, de reconhecer o islamismo como uma das
religiões da população nacional. Mas as maneiras
de proceder a esse reconhecimento continuam muito diferentes.
Os ingleses
têm uma política de grande tolerância. Admitem a representação
social da comunidade muçulmana. Os paquistaneses, em geral agrupados
no espaço urbano em comunidades em volta de suas mesquitas, que
fazem o papel de centros comunitários, gozam de uma autonomia cultural
e institucional desconhecida nos outros países. Eles ainda não
têm os mesmos direitos das outras religiões no que toca às
escolas, mas dispõem de seus programas de rádio e televisão,
reivindicam a construção de mesquitas, cujo número
se multiplica. Conseguiram que suas filhas tenham um regime especial nas
escolas, que respeite sua "discrição", conforme as regras
impostas pela tradição islâmica. Desde o caso Salman
Rushdie, os líderes da comunidade islâmica na Inglaterra
têm assumido abertamente uma posição cada vez mais
política.No clima liberal da Inglaterra, as redes islâmicas
se desenvolvem com muito desembaraço. O governo inglês, contudo,
recusou a possibilidade de um "Parlamento muçulmano", e os juízes
negam-se, em nome da convenção européia de direitos
humanos, a admitir as práticas mais arcaicas, como casamento forçado,
matrimônio precoce, a proibição de desposar um não-muçulmano
ou a mutilação genital.
A política
francesa tem um estilo aparentemente diverso. País de imigração
desde a primeira metade do século XIX, a França tem uma
política tradicional de integração dos imigrantes,
adaptada à integração nacional de tipo jacobino e
ao ideal da cidadania individual. A integração é
pessoal, não reconhece comunidades. A maioria das populações
imigradas reivindica direitos de cidadania, mas não direitos comunitários.
Os muçulmanos franceses se abstiveram de manifestação
na crise Salman Rushdie. Não se manifestaram durante a Guerra do
Golfo.
A Alemanha
é ainda um caso diferente. Há muito tempo, recusa considerar-se
um país de imigração e quer adotar uma política
de gastarbeiter, quer dizer, de trabalhadores vindos de fora em
busca de um emprego por tempo limitado. Declaradamente, espera-se que
retornem ao país de origem. Não se trata de transformar
imigrantes em alemães. Um código restritivo de nacionalidade
contribuiu para essa política.
Apesar das
diferenças, vê-se que as políticas de diversos países
europeus ante as populações muçulmanas acabam convergindo.
A presença destas se tornou um fato e um direito e impõe
aos governos o objetivo de ajudar o processo de integração
dos imigrantes e sobretudo de seus filhos na coletividade nacional.
Todos os
países estão num processo de reconhecimento. A Alemanha
debate o assunto, mas a reticência das populações
e dos governos estaduais não permitiu ainda concluir o avanço.
A organização de um "culto" muçulmano é, de
resto, difícil, pois o Islã vem sendo diversificado por
islamismos nacionais. Turcos e marroquinos, na Holanda, recusam-se a participar
da mesma organização. Na França, sucessivos ministros
da Justiça tentaram formar uma representação muçulmana
no modelo da representação judaica. Mas os muçulmanos
estão divididos e o projeto ainda não se concluiu. Como
na Holanda, os turcos se recusam a colaborar com os muçulmanos
magrebinos.
É
claro que o reconhecimento institucional não é o único
fator de integração. O que dizer da integração
social? As pesquisas sociológicas mostram as populações
muçulmanas da Europa democrática, em sua maioria, evoluindo
para a integração, cada qual no estilo do país onde
se instalou. Os muçulmanos franceses aceitam os princípios
fundadores da república laica. Na Alemanha, o comportamento das
famílias turcas alinha-se mais e mais ao das alemãs: a fecundidade
das mulheres turcas criadas e educadas na Alemanha é próxima
à das mulheres alemãs, não à de suas compatriotas
na terra natal. As normas de educação, mais indulgentes
e individualistas, conformam-se àquelas correntes na sociedade
global. Vêem-se os mesmos resultados na França. Apenas os
paquistaneses britânicos se conservam mais específicos. Brilham
na vida econômica e cultural, mesmo mantendo os valores muçulmanos,
de modo que seus filhos, ao mesmo tempo que participam da vida coletiva,
têm o comportamento e os valores marcados pela tradição
que os pais lhes inculcaram. Entretanto, de modo geral, não há
dúvida quanto à tendência à integração.
Mas por
vezes essa adoção de um islamismo "tranqüilo", estimulada
pelas famílias e pelos assistentes sociais, se transforma. Alguns
dos convertidos acabaram por entrar nas redes islâmicas mundiais.
Trata-se de uma ínfima minoria, que pode tornar-se significativa
se adotar a suspeita dos nacionais de que o Islã é inassimilável
pelas democracias européias.
Na Inglaterra,
os paquistaneses cultivam relações antigas com os movimentos
fundamentalistas. Mantêm-se em contato estreito, econômico,
familiar, cultural com seu país de origem. Alguns são bem
ligados aos meios integristas. Veja-se a fúria com que aderiram
à fatwa que condenou Salman Rushdie à morte. Nos
outros países, o apoio à sentença iraniana contra
o escritor anglo-indiano foi esporádico ou nenhum.
A identificação
com um Islã combativo perante o Ocidente é grande na população
britânica de origem paquistanesa. Os muçulmanos modestos
das periferias francesas têm uma consciência islâmica
e nacional bem menos forte, mas sua solidariedade com o Islã vem
crescendo desde 11 de setembro, e o anti-semitismo se desenvolve.
Os acontecimentos
de 11 de setembro nos ensinaram que a adoção de alguns traços
de modernidade ocidental com a profunda rejeição do poder
e dos valores do Ocidente é uma combinação possível
na cabeça dos muçulmanos que vivem na Europa. As populações
muçulmanas instaladas na Europa integram-se cada vez mais na vida
coletiva. Mas isso não exclui a solidariedade com o Islã
transnacional. Não basta falar a mesma língua nem ter a
mesma formação técnica para compartilhar os mesmos
valores morais e políticos. De qualquer modo, a integração
objetiva em larga escala não impede que os acontecimentos mundiais
dificultem a plena participação dos muçulmanos nas
sociedades democráticas da Europa.
Dominique
Schnapper
Socióloga, integrante do Conselho Constitucional da França,
estudiosa do fenômeno das migrações
Tradução
de Roberta Saraiva
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