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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
Artigos General sir Michael Rose

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Índice
Amir Taheri
É possível a integração dos países islâmicos ao mundo moderno?
Ahmad Dallal
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd Gitlin
O antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados de 11 de setembro?
Robert Wright
O Islamismo é uma religião violenta?
Walter Laqueur
O terrorismo pode ser vencido?
Jacob Weisberg
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert Shiller
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Sir Michael Rose
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Dominique Schnapper
Os jovens muçulmanos da Europa podem se integrar à vida local?
Jacques Le Goff
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Victor Bulmer-Thomas
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés Naím
A América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países ricos?
Gustavo Franco
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando Henrique Cardoso
O que as mudanças no cenário mundial em 2001 significam para o Brasil?

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O que a luta contra o
terrorismo pode ensinar às
potências político-militares?

Nosso alvo é o
coração e a mente
de um bilhão de
muçulmanos

Desde o fim da Guerra do Vietnã, a doutrina militar americana preconiza o uso da força esmagadora contra o inimigo – e que as guerras sejam curtas, com uma clara estratégia de saída. Tem havido, ademais, grande relutância dos sucessivos governos em aceitar baixas. Nesta guerra global contra o terrorismo, nenhum desses pontos se aplica, não sendo uma guerra clássica no sentido clausewitziano, em que governos, povos e exércitos se empenham na vitória através do uso máximo da força militar. A nova forma pós-moderna de conflito em que embarcamos será uma guerra demorada contra um inimigo indefinido, sem agenda política nem ideologia coerentes. Não haverá fronteiras geográficas nem demarcações políticas facilmente identificáveis, e a vitória terá de acontecer no coração e na cabeça de mais de 1 bilhão de muçulmanos do mundo todo – não na destruição de uma máquina de guerra inimiga. E tudo sem uma clara estratégia de saída.


AP Photo/Quyen Tran
VIDA SOB AS CINZAS
Nos apartamentos próximos ao World Trade Center, os moradores que haviam abandonado a área no momento dos atentados encontraram um rastro de destruição. Outros prédios ficaram abalados pelo impacto da queda das duas torres. Sob uma nuvem de poeira e cinzas, flagrantes do cotidiano que os nova-iorquinos lutam para resgatar

Mais ainda, a guerra dos Estados Unidos, na qual todo o mundo livre precisa engajar-se, terá de travar-se simultaneamente em dois níveis. O primeiro está praticamente resolvido: a derrubada do Talibã e de seus aliados da Al Qaeda, no Afeganistão. O segundo e mais importante é a guerra global contra o terrorismo, abrangendo a situação política, econômica e social geral da humanidade, pois com um quarto do mundo sem comida, água e remédios suficientes, e com pouca instrução, as condições para o terrorismo continuarão existindo. A guerra no Afeganistão, portanto, não é o acontecimento principal, ainda que seu resultado venha a ter, claro, conseqüências fundamentais para a guerra mais ampla contra o terrorismo.

Até aqui, parece que a estratégia dos americanos entendeu que, a longo prazo, a vitória depende de a guerra ao terrorismo ser tratada como guerra popular ou revolucionária – no sentido maoísta do termo –, em que o apoio do povo é considerado essencial. A história de todas as guerras contra-revolucionárias mostra claramente que exército nenhum jamais venceu sem firme apoio popular. A guerra contra o terror não é diferente. Só há vitória quando a massa que aprova os terroristas resolve retirar o apoio moral ou material de que estes precisam. Como ressaltou o estrategista militar inglês Liddell Hart (1895-1970), força militar por si só raramente traz solução duradoura. Aliás, boa parte da parafernália e muitos conceitos do combate moderno de nada servem numa campanha antiterrorismo. Não se erradicou o terror internacional com os mísseis disparados sobre o Afeganistão e o Sudão, em 1998. Tampouco Israel, ainda agora, consegue eliminar a ameaça terrorista a seu Estado com respostas militares. Na verdade, as imagens na televisão de helicópteros de ataque disparando foguetes de forma que parece indiscriminada, contra áreas civis populosas, só serviram para angariar mais apoio aos extremistas entre a população palestina – mesmo que o governo israelense justifique suas ações com a necessidade de evitar ataques de franco-atiradores e de homens-bomba. Operação militar fora de proporção será sempre contraproducente numa guerra contra o terrorismo, ainda que, evidentemente, se exija o uso limitado deste ou daquele tipo de arma para destruir a infra-estrutura dos terroristas, se esta for localizada com precisão.

Como disse muito bem o secretário de Estado Colin Powell, os EUA entraram num conflito de longa duração, a ser travado em muitas frentes, inclusive militar, de inteligência, legal e diplomática. De fato, todos os meios de governo, até mesmo econômicos e sociais, terão de entrar para vencer nessa guerra. Até o momento, o uso da força tem sido limitado, específico e destinado a interromper e destruir a infra-estrutura militar do Talibã e a liderança terrorista da Al Qaeda no Afeganistão. Tem-se usado a força de forma que nem alienou a massa popular nem permitiu aos terroristas mais apoio a sua causa. O governo dos Estados Unidos já demonstrou a lição primordial do antiterror, a de que não adianta cortar uma cabeça se outras dez crescem no lugar. O povo americano também já aceitou que a campanha contra o terrorismo será longa e que complexos problemas humanos, em evolução há gerações, não podem ser resolvidos da noite para o dia. Mesmo assim, a estrutura militar dos EUA tem uma capacidade única de projetar o poder a longa distância e a tem usado com ótimos resultados. Ante a relutância histórica do povo afegão em ver grande número de soldados estrangeiros em seu território, a estratégia americana apelou para o uso limitado da força aérea, combinado com pequenos grupos de forças especiais em terra, junto a forças tribais locais contrárias ao Talibã. A coalizão resultante pôde derrotar rapidamente um inimigo pouco sofisticado e eliminar a capacidade da Al Qaeda de treinar e equipar terroristas em território afegão.

Mesmo depois de vencida a guerra no Afeganistão, a guerra contra o terrorismo vai continuar, é claro. E, aí, a prioridade já deveriam ser a obtenção e a expansão da inteligência, política e militar – porque, em guerra, a força militar só é eficaz se o emprego se basear em informações precisas transmitidas a tempo. Numa campanha contra o terror, a inteligência é ainda mais importante para a vitória. Pois o poderio militar, se não for direcionado de forma bem específica, será ineficaz, e é provável que ainda piore a situação pelo seu uso indiscriminado. Essa foi uma dura lição para o Exército inglês na fase inicial da campanha antiterrorismo na Irlanda do Norte, quando o confinamento de grande número de católicos em Belfast, sem dúvida, contribuiu muito para engordar as fileiras do IRA.

Obviamente é dificílimo obter informações globais em volume suficiente para evitar que o tipo de ataque ocorrido nos EUA se repita, lá ou em outra parte. Segurança total não existe. Mas, por mais seguros que os terroristas se sintam e por mais distantes que estejam seus tesoureiros, ainda é possível que agências de inteligência bem equipadas, com determinação, penetrem qualquer infra-estrutura terrorista – através de ataques técnicos ou pelo uso ativo de fontes humanas infiltradas. É preciso, porém, ter em mente que uma rede de agentes leva muito tempo para ser criada e que, no momento, a inteligência americana cobre mal as organizações terroristas dos extremistas islâmicos. Além disso, o nível necessário de penetração nos movimentos terroristas só se consegue com um bom equilíbrio de ação política, econômica, social e militar. Isso porque se a massa do povo percebe que tem um governo justo trabalhando para melhorar suas condições sociais, políticas e econômicas, e que as forças de segurança não atuam de forma opressiva, as informações começam a aparecer. A eficácia dessa estratégia já ficou provada com o fim da campanha terrorista do IRA na Irlanda do Norte, onde, com a limitação do uso de força militar e graças a um amplo programa de reforma política, econômica e social, os terroristas foram isolados de seu apoio popular, o que levou a um influxo enorme de informações e finalmente ao desmantelamento da organização.

O Ocidente pode ter vencido militarmente a guerra contra o Talibã no Afeganistão, mas ainda precisa vencer a batalha da informação nos corações e mentes de muçulmanos não-comprometidos do mundo inteiro. No momento, corremos o risco de perder essa batalha, pois a maioria dos meios de comunicação islâmicos continua numa posição hostil aos EUA e a seus aliados. Para vencer a batalha da informação, o Ocidente precisa aparecer justo e equilibrado na guerra em curso no Afeganistão e, de modo mais geral, no tratamento a todos os povos oprimidos e desvalidos do mundo. Coisa impossível, diante do permanente conflito árabe-israelense, que leva milhões de muçulmanos a achar que os EUA tomaram o partido de Israel – Estado que, para eles, executa ele próprio ações terroristas contra os palestinos. Interromper o ciclo de violência no Oriente Médio e eliminar o senso de agravo dos muçulmanos é pré-requisito essencial para vencer a batalha da informação. Noutros lugares, o Ocidente se acha em terreno mais firme. O sucesso militar no Afeganistão, as baixas limitadas entre a população civil, a maciça operação de auxílio humanitário nas áreas liberadas e a oferta de colaboração futura para a reconstrução do país são elementos-chave na batalha da informação e ajudarão a ganhar a confiança não só do povo afegão, mas também dos muçulmanos do mundo.

Sir Michael Rose
General do Exército britânico que comandou
as tropas aliadas na Guerra dos Bálcãs

Tradução de Beth Vieira

 
 
   
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