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Índice
Amir
Taheri
É
possível a integração
dos países
islâmicos ao
mundo moderno?
Ahmad
Dallal
O
que a luta contra o terrorismo
pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd
Gitlin
O
antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados
de 11 de setembro?
Robert
Wright
O
Islamismo é uma religião
violenta?
Walter
Laqueur
O
terrorismo pode ser
vencido?
Jacob
Weisberg
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert
Shiller
Qual
o impacto
dos atentados
sobre o processo de
globalização?
Sir
Michael Rose
O
que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências
políticas e militares?
Dominique
Schnapper
Os
jovens muçulmanos da
Europa podem se integrar à vida local?
Jacques
Le Goff
Qual
o impacto dos atentados
sobre o processo de globalização?
Victor
Bulmer-Thomas
Qual
o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés
Naím
A
América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países
ricos?
Gustavo
Franco
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando
Henrique Cardoso
O
que as mudanças no cenário
mundial em 2001 significam
para o Brasil?
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O que a luta contra o
terrorismo pode ensinar às
potências político-militares?
Nosso alvo é
o
coração e a mente
de um bilhão de
muçulmanos
Desde o fim
da Guerra do Vietnã, a doutrina militar americana preconiza o uso
da força esmagadora contra o inimigo e que as guerras sejam
curtas, com uma clara estratégia de saída. Tem havido, ademais,
grande relutância dos sucessivos governos em aceitar baixas. Nesta
guerra global contra o terrorismo, nenhum desses pontos se aplica, não
sendo uma guerra clássica no sentido clausewitziano, em que governos,
povos e exércitos se empenham na vitória através do
uso máximo da força militar. A nova forma pós-moderna
de conflito em que embarcamos será uma guerra demorada contra um
inimigo indefinido, sem agenda política nem ideologia coerentes.
Não haverá fronteiras geográficas nem demarcações
políticas facilmente identificáveis, e a vitória terá
de acontecer no coração e na cabeça de mais de 1 bilhão
de muçulmanos do mundo todo não na destruição
de uma máquina de guerra inimiga. E tudo sem uma clara estratégia
de saída.
AP Photo/Quyen Tran
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VIDA
SOB AS CINZAS
Nos apartamentos próximos ao World Trade Center, os moradores
que haviam abandonado a área no momento dos atentados encontraram
um rastro de destruição. Outros prédios ficaram
abalados pelo impacto da queda das duas torres. Sob uma nuvem de poeira
e cinzas, flagrantes do cotidiano que os nova-iorquinos lutam para
resgatar |
Mais ainda,
a guerra dos Estados Unidos, na qual todo o mundo livre precisa engajar-se,
terá de travar-se simultaneamente em dois níveis. O primeiro
está praticamente resolvido: a derrubada do Talibã e de
seus aliados da Al Qaeda, no Afeganistão. O segundo e mais importante
é a guerra global contra o terrorismo, abrangendo a situação
política, econômica e social geral da humanidade, pois com
um quarto do mundo sem comida, água e remédios suficientes,
e com pouca instrução, as condições para o
terrorismo continuarão existindo. A guerra no Afeganistão,
portanto, não é o acontecimento principal, ainda que seu
resultado venha a ter, claro, conseqüências fundamentais para
a guerra mais ampla contra o terrorismo.
Até
aqui, parece que a estratégia dos americanos entendeu que, a longo
prazo, a vitória depende de a guerra ao terrorismo ser tratada
como guerra popular ou revolucionária no sentido maoísta
do termo , em que o apoio do povo é considerado essencial.
A história de todas as guerras contra-revolucionárias mostra
claramente que exército nenhum jamais venceu sem firme apoio popular.
A guerra contra o terror não é diferente. Só há
vitória quando a massa que aprova os terroristas resolve retirar
o apoio moral ou material de que estes precisam. Como ressaltou o estrategista
militar inglês Liddell Hart (1895-1970), força militar por
si só raramente traz solução duradoura. Aliás,
boa parte da parafernália e muitos conceitos do combate moderno
de nada servem numa campanha antiterrorismo. Não se erradicou o
terror internacional com os mísseis disparados sobre o Afeganistão
e o Sudão, em 1998. Tampouco Israel, ainda agora, consegue eliminar
a ameaça terrorista a seu Estado com respostas militares. Na verdade,
as imagens na televisão de helicópteros de ataque disparando
foguetes de forma que parece indiscriminada, contra áreas civis
populosas, só serviram para angariar mais apoio aos extremistas
entre a população palestina mesmo que o governo israelense
justifique suas ações com a necessidade de evitar ataques
de franco-atiradores e de homens-bomba. Operação militar
fora de proporção será sempre contraproducente numa
guerra contra o terrorismo, ainda que, evidentemente, se exija o uso limitado
deste ou daquele tipo de arma para destruir a infra-estrutura dos terroristas,
se esta for localizada com precisão.
Como disse
muito bem o secretário de Estado Colin Powell, os EUA entraram
num conflito de longa duração, a ser travado em muitas frentes,
inclusive militar, de inteligência, legal e diplomática.
De fato, todos os meios de governo, até mesmo econômicos
e sociais, terão de entrar para vencer nessa guerra. Até
o momento, o uso da força tem sido limitado, específico
e destinado a interromper e destruir a infra-estrutura militar do Talibã
e a liderança terrorista da Al Qaeda no Afeganistão. Tem-se
usado a força de forma que nem alienou a massa popular nem permitiu
aos terroristas mais apoio a sua causa. O governo dos Estados Unidos já
demonstrou a lição primordial do antiterror, a de que não
adianta cortar uma cabeça se outras dez crescem no lugar. O povo
americano também já aceitou que a campanha contra o terrorismo
será longa e que complexos problemas humanos, em evolução
há gerações, não podem ser resolvidos da noite
para o dia. Mesmo assim, a estrutura militar dos EUA tem uma capacidade
única de projetar o poder a longa distância e a tem usado
com ótimos resultados. Ante a relutância histórica
do povo afegão em ver grande número de soldados estrangeiros
em seu território, a estratégia americana apelou para o
uso limitado da força aérea, combinado com pequenos grupos
de forças especiais em terra, junto a forças tribais locais
contrárias ao Talibã. A coalizão resultante pôde
derrotar rapidamente um inimigo pouco sofisticado e eliminar a capacidade
da Al Qaeda de treinar e equipar terroristas em território afegão.
Mesmo depois
de vencida a guerra no Afeganistão, a guerra contra o terrorismo
vai continuar, é claro. E, aí, a prioridade já deveriam
ser a obtenção e a expansão da inteligência,
política e militar porque, em guerra, a força militar
só é eficaz se o emprego se basear em informações
precisas transmitidas a tempo. Numa campanha contra o terror, a inteligência
é ainda mais importante para a vitória. Pois o poderio militar,
se não for direcionado de forma bem específica, será
ineficaz, e é provável que ainda piore a situação
pelo seu uso indiscriminado. Essa foi uma dura lição para
o Exército inglês na fase inicial da campanha antiterrorismo
na Irlanda do Norte, quando o confinamento de grande número de
católicos em Belfast, sem dúvida, contribuiu muito para
engordar as fileiras do IRA.
Obviamente
é dificílimo obter informações globais em
volume suficiente para evitar que o tipo de ataque ocorrido nos EUA se
repita, lá ou em outra parte. Segurança total não
existe. Mas, por mais seguros que os terroristas se sintam e por mais
distantes que estejam seus tesoureiros, ainda é possível
que agências de inteligência bem equipadas, com determinação,
penetrem qualquer infra-estrutura terrorista através de
ataques técnicos ou pelo uso ativo de fontes humanas infiltradas.
É preciso, porém, ter em mente que uma rede de agentes leva
muito tempo para ser criada e que, no momento, a inteligência americana
cobre mal as organizações terroristas dos extremistas islâmicos.
Além disso, o nível necessário de penetração
nos movimentos terroristas só se consegue com um bom equilíbrio
de ação política, econômica, social e militar.
Isso porque se a massa do povo percebe que tem um governo justo trabalhando
para melhorar suas condições sociais, políticas e
econômicas, e que as forças de segurança não
atuam de forma opressiva, as informações começam
a aparecer. A eficácia dessa estratégia já ficou
provada com o fim da campanha terrorista do IRA na Irlanda do Norte, onde,
com a limitação do uso de força militar e graças
a um amplo programa de reforma política, econômica e social,
os terroristas foram isolados de seu apoio popular, o que levou a um influxo
enorme de informações e finalmente ao desmantelamento da
organização.
O Ocidente
pode ter vencido militarmente a guerra contra o Talibã no Afeganistão,
mas ainda precisa vencer a batalha da informação nos corações
e mentes de muçulmanos não-comprometidos do mundo inteiro.
No momento, corremos o risco de perder essa batalha, pois a maioria dos
meios de comunicação islâmicos continua numa posição
hostil aos EUA e a seus aliados. Para vencer a batalha da informação,
o Ocidente precisa aparecer justo e equilibrado na guerra em curso no
Afeganistão e, de modo mais geral, no tratamento a todos os povos
oprimidos e desvalidos do mundo. Coisa impossível, diante do permanente
conflito árabe-israelense, que leva milhões de muçulmanos
a achar que os EUA tomaram o partido de Israel Estado que, para
eles, executa ele próprio ações terroristas contra
os palestinos. Interromper o ciclo de violência no Oriente Médio
e eliminar o senso de agravo dos muçulmanos é pré-requisito
essencial para vencer a batalha da informação. Noutros lugares,
o Ocidente se acha em terreno mais firme. O sucesso militar no Afeganistão,
as baixas limitadas entre a população civil, a maciça
operação de auxílio humanitário nas áreas
liberadas e a oferta de colaboração futura para a reconstrução
do país são elementos-chave na batalha da informação
e ajudarão a ganhar a confiança não só do
povo afegão, mas também dos muçulmanos do mundo.
Sir
Michael Rose
General do Exército britânico que comandou
as tropas aliadas na Guerra dos Bálcãs
Tradução
de Beth Vieira
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