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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
Artigos Robert Shiller

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Índice
Amir Taheri
É possível a integração dos países islâmicos ao mundo moderno?
Ahmad Dallal
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd Gitlin
O antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados de 11 de setembro?
Robert Wright
O Islamismo é uma religião violenta?
Walter Laqueur
O terrorismo pode ser vencido?
Jacob Weisberg
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert Shiller
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Sir Michael Rose
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Dominique Schnapper
Os jovens muçulmanos da Europa podem se integrar à vida local?
Jacques Le Goff
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Victor Bulmer-Thomas
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés Naím
A América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países ricos?
Gustavo Franco
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando Henrique Cardoso
O que as mudanças no cenário mundial em 2001 significam para o Brasil?

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Qual o impacto dos
atentados sobre o
processo de globalização?

As escolhas individuais vão
derrotar a recessão

Em que pesem as muitas notícias econômicas negativas que foram divulgadas de 11 de setembro em diante, o mercado acionário parece estar se sustentando bem. Desde o abismo negativo de setembro, o índice Standard & Poor's 500 da bolsa americana subiu 18%. O índice Bovespa acumulou ganhos de 28% no mesmo período. Esse sinal de vida significa então que deveríamos ignorar as sirenes de alarme e adotar uma atitude francamente otimista com relação ao desempenho da economia em geral? Afinal de contas, o mercado de ações é um dos indicadores mais confiáveis. A história recomenda que se observe o comportamento do mercado acionário nesses momentos. Em duas das três recessões dos últimos cinqüenta anos em que o mercado subiu nos primeiros seis meses, a recessão durou menos de nove meses. Em quatro das cinco recessões dos últimos cinqüenta anos em que o mercado caiu nos primeiros seis meses, a recessão durou mais de nove meses.

Infelizmente, quando usamos o funcionamento pregresso do mercado acionário como ferramenta para prever se estamos saindo da recessão, os sinais não são muito animadores. Tendo em vista que a economia começou a se estagnar em março último, estamos então em seu décimo mês. Caso estivéssemos diante de uma recessão curta, ela já deveria ter terminado. Mas observemos o comportamento do mercado desde que a recessão começou. Apesar da forte arregimentação ocorrida depois de 11 de setembro, o índice Standard & Poor's 500 caiu 3% de março para cá e 9% desde maio, quando o PIB atingiu seu ponto mais alto no ano. O índice Bovespa está 8% negativo desde março e 9% desde maio. Se o comportamento do mercado a partir de março ou de maio for usado como o principal indicador, essa medição poderia sugerir que a estagnação atual será mais longa que o normal.

No entanto, o mais acertado seria concluir que os sinais emitidos pelo mercado não são muito confiáveis como o principal indicador dos rumos e da temperatura da economia. As perspectivas econômicas para 2002 e os próximos anos estão marcadas por incertezas fora do comum. A razão disso está no passado recente. Os dois eventos econômicos preponderantes que nos colocaram onde estamos hoje até então nunca tinham ocorrido ao mesmo tempo. O primeiro evento é o fim da "exuberância irracional". O índice Nasdaq aumentou em seis vezes seu valor de 1995 a 2000, representando o surgimento de expectativas incomuns para a nova economia. Em seguida, caiu dois terços, o que marcou o fim daquelas expectativas irracionais. O único exemplo comparável de uma bolha e de seu subseqüente estouro tão dramático foi a famosa quebra da bolsa em 1929.

O segundo evento preponderante foram os atentados de 11 de setembro, os ataques bacteriológicos das semanas seguintes e a ameaça perene de que os Estados Unidos e outros países do Ocidente sofram mais atos terroristas. Essas investidas criaram uma incerteza inusitada. Elas desencadearam uma onda de sentimentos patrióticos semelhantes àqueles motivados pelas grandes guerras. Ocorre que esses sentimentos não foram obviamente acompanhados pelos estímulos econômicos que em geral vêm associados a períodos de grande mobilização militar. Na verdade, o Congresso americano até agora não conseguiu entrar num acordo sobre como seria esse pacote de estímulos.

É natural que se queira tomar a recessão em que nos encontramos agora como mais uma de uma longa lista. E é natural que se procurem padrões nas recessões anteriores que possam servir de indicativo para o que vai ocorrer desta vez. Nem sempre o que nos parece natural, porém, é correto. Além de não haver precedentes históricos que se encaixem exatamente sobre os acontecimentos recentes, o venerando conceito de recessão nem sempre é uma boa maneira de organizar as idéias.

O termo "recessão" (ou contração) foi definido de maneira clara, pela primeira vez, por Arthur Burns e Wesley Clair Mitchell num livro de 1946 intitulado Medindo os Ciclos Econômicos. Foi uma obra de grande influência, e até hoje os dados sobre recessão usados pelos economistas são meras atualizações da famosa Tabela 16 de Burns e Mitchell. Como se tratasse de um homem altamente estimado por seu trabalho erudito a respeito dos ciclos econômicos, Burns era um candidato natural à presidência do Fed, o banco central americano, posição que ocupou de 1970 a 1978. Mas ele não foi um dirigente bem-sucedido. Burns baixou de tal forma as taxas de juro que elas se tornaram nitidamente negativas ao mesmo tempo que a economia vivia um momento inflacionário peculiar. Isso numa ocasião em que o país enfrentava a maior onda inflacionária de sua história fora de um período de guerra. Além disso, o douto presidente do Fed foi pego de surpresa por uma grande crise de energia e por um ciclo vicioso de expectativas inflacionárias. Foram fenômenos igualmente sem precedentes naquele período histórico. Talvez por isso, nem todas as fabulosas análises estatísticas de ciclos econômicos anteriores feitas por Burns foram capazes de ajudá-lo a entender o que estava ocorrendo na economia.

Um novo termo para a recessão de 1973-1974 e a seguinte se popularizou: a temida palavra "estagflação", que se referia a uma estagnação econômica desencadeada ao mesmo tempo que um período de inflação alta. As barbeiragens da política econômica de Burns que alimentaram a inflação tiveram de ser desfeitas pelo presidente seguinte do Fed, Paul Volcker. O custo da correção de curso foi a mais pronunciada estagnação econômica americana desde o pós-guerra, a recessão de 1981-1982.

O que nos ensinam os passos errados de Burns? Entre todos os presidentes do Fed, foi ele quem presidiu o maior fracasso econômico. Esse seu fracasso não é necessariamente uma refutação teórica do conceito de "recessão" que ele ajudou a criar. O caso Burns indica, porém, que devemos ao menos ser cautelosos quando tentarmos generalizar e passar de acontecimentos econômicos anteriores aos atuais. Cada recessão é distinta das demais, e esta agora é, sem dúvida, a mais diferente. No momento, enfrentamos uma grande incógnita e não sabemos qual será a evolução do consumo e dos investimentos nos próximos anos. Será que os consumidores cortarão ainda mais os gastos devido às ameaças terroristas? Será que continuarão reduzindo despesas com viagens e férias? Será que irão cortar a demanda por imóveis e forçar a queda dos preços, ampliando ainda mais o declínio da riqueza total do país? Ou será que uma vitória espetacular sobre o terrorismo conseguirá restaurar de repente o bom humor de todos? Será que aqueles antigos sentimentos puramente patrióticos conseguirão no fim das contas incentivar o consumidor a gastar?

E, com relação às empresas, elas se tornarão pessimistas demais para lançar campanhas, investir dinheiro em novas fábricas e equipamentos, contratar e treinar funcionários? Os empreendedores estarão ainda dispostos a se comprometer em aventuras arriscadas que lhes sugarão tempo e energia emocional em troca de possíveis recompensas incertas no futuro? Ou encontrarão oportunidades e coisas emocionantes para fazer em época de grandes mudanças?

Essas são perguntas que não podem ser respondidas tomando-se por base padrões observados durante recessões passadas. Não estamos condenados a repetir a história. Felizmente. O que acontecerá daqui para a frente depende das escolhas que fizermos hoje. Depende do tipo de pacote de estímulos econômicos que o Congresso nos der. Depende da decisão de cada um de nós de levar adiante nossos negócios, apesar da incerteza atual.

Robert Shiller
Professor de economia e finanças na
Universidade Yale e autor de
Exuberância Irracional

Tradução de Beth Vieira

 
 
   
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