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Índice
Amir
Taheri
É
possível a integração
dos países
islâmicos ao
mundo moderno?
Ahmad
Dallal
O
que a luta contra o terrorismo
pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd
Gitlin
O
antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados
de 11 de setembro?
Robert
Wright
O
Islamismo é uma religião
violenta?
Walter
Laqueur
O
terrorismo pode ser
vencido?
Jacob
Weisberg
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert
Shiller
Qual
o impacto
dos atentados
sobre o processo de
globalização?
Sir
Michael Rose
O
que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências
políticas e militares?
Dominique
Schnapper
Os
jovens muçulmanos da
Europa podem se integrar à vida local?
Jacques
Le Goff
Qual
o impacto dos atentados
sobre o processo de globalização?
Victor
Bulmer-Thomas
Qual
o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés
Naím
A
América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países
ricos?
Gustavo
Franco
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando
Henrique Cardoso
O
que as mudanças no cenário
mundial em 2001 significam
para o Brasil?
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Bombeiros, soldados, políticos
e até os carteiros se tornaram
heróis da vida americana nos
dias que se seguiram aos
atentados. O papel do
governo voltou a ser louvado.
Qual o significado disso?
Apertem
os cintos,
o governo voltou
Um
dos fenômenos mais bem documentados na vida política moderna
dos Estados Unidos, e de resto nos países onde a influência
americana tende a ser grande, é o declínio da confiança
no governo. Desde os anos 40, quando se iniciaram as pesquisas de opinião
pública em larga escala, pesquisadores repetem a pergunta: "Com
que constância você acha possível acreditar que o governo
fará o que é certo?" Em 1964, 76% responderam "na maior
parte do tempo" ou "sempre". Desde então, o índice caiu
de forma contínua, chegando ao ponto mais baixo em 1994, quando
bateu em 14%, para reerguer-se apenas ligeiramente antes do dia 11 de
setembro de 2001. Na última década, o desencanto com os
governos cresceu na opinião pública de muitos outros países
ocidentais. Entre eles, certamente se pode contar o Brasil.
A ascensão
do Partido Republicano nos Estados Unidos nas duas últimas décadas
baseou-se na perda de confiança dos americanos em todas as formas
de governo. Podemos acompanhar a evolução do movimento antigoverno
a partir do primeiro discurso de posse de Ronald Reagan, quando ele declarou
que o governo não era a solução, mas sim o problema.
Durante seu reinado como presidente da Câmara dos Deputados, em
meados da década de 90, o líder antigoverno Newt Gingrich
esbravejou contra a "burocracia corrupta". Membros dos dois partidos passaram
a acreditar que, para um candidato a cargo público obter êxito,
era preciso firmar posição como uma pessoa estranha a Washington,
mesmo que morasse lá havia décadas. A vida em Washington
foi assolada por uma espécie de auto-repúdio. Políticos
antigoverno faziam o papel de missionários devotos em um território
pagão. O caráter pecaminoso desse território não
podia se refletir neles em nenhum aspecto.
Mesmo depois
do atentado a bomba na cidade de Oklahoma em 1995, um assassinato em massa
cometido por um fanático antigoverno, todo um vocabulário
destinado a zombar da sede do poder nacional continuou em vigor. Washington
designava um local onde "políticos de carreira" esbanjavam "os
dólares suados dos impostos do povo" em "soluções
estereotipadas" aquilo que o presidente George W. Bush, até
pouco tempo atrás, preferia chamar de "soluções de
Washington". Um amigo meu gostava de brincar dizendo que a palavra "Washington"
se tornara mero sinônimo de "ruim", a tal ponto que se poderia perfeitamente
dizer: "Aquela ostra Washington que comi me fez muito mal".
Depois de
11 de setembro, esse sentimento mudou radical e rapidamente. Nas pesquisas
de opinião pública, a confiança no governo voltou
a ultrapassar 60%, nível que não se via neste país
desde os anos 60. Essa atitude manifestou-se numa efusão de apoio
aos funcionários do governo que ocupam a linha de frente, muitos
dos quais sacrificaram a vida na tentativa de resgatar vítimas
do ataque ao World Trade Center. Na cidade de Nova York, os clientes aplaudiam
de pé quando bombeiros e policiais entravam nos restaurantes.
Mas a atitude
não se alterou apenas com relação aos funcionários
do governo que protegem diretamente nossa vida. Ela se modificou mesmo
no que tange aos funcionários civis cujos cargos têm pouca
relação com a segurança pública. Cobradores
de impostos e carteiros, que em geral trabalham em troca de um salário
menor do que ganhariam no setor privado, podem agora, em virtude de sua
posição como funcionários do governo, enfrentar riscos
para cumprir sua missão. Isso atrai simpatia. Pela primeira vez
em muitos anos, pessoas que se habituaram a ser ridicularizadas como "burocratas"
andam de cabeça erguida.
A mentalidade
antigoverno parece ter mudado mesmo entre os republicanos conservadores.
Não se trata de mera trégua na difamação contra
o governo, como ocorreu por um tempo após o atentado a bomba em
Oklahoma. Trata-se de uma mudança que vem do núcleo mais
íntimo do conceito que as instituições jornalísticas
e políticas fazem de sua própria posição,
importância e poder na sociedade.
As
"soluções de Washington" foram rapidamente elevadas da condição
de suspeitas à de vitais para a sobrevivência do país.
O governo federal é visto, agora, não só como capaz,
mas como dotado de capacidade sem paralelo para cumprir uma grande variedade
de tarefas urgentes: combater nossos inimigos no exterior, é claro,
mas também estimular nossa economia em declínio, salvar
empresas aéreas da bancarrota, reconstruir as ruínas de
Nova York, proteger-nos da guerra biológica e devolver a segurança
ao espaço aéreo. A velha piada de Reagan sobre as dez palavras
mais assustadoras na língua inglesa "Oi, eu sou do governo
e estou aqui para ajudar" já não é mais uma
piada. Ao contrário, tornou-se, literalmente, a atitude dos republicanos
ao percorrer os escombros onde ocorreu a devastação ou visitar
suas vítimas. Agora eles se orgulham de ser parte do governo.
A par dessa
atitude empreendedora, vem um sentimento novo e vigoroso de auto-estima.
Estar em Washington, uma cidade sob ataque, uma cidade hoje fortificada
por barricadas de concreto, barreiras policiais e soldados armados da
guarda nacional, dá uma sensação de centralidade
e de importância. O novo espírito de improvisação
entusiástica recorda relatos a respeito de Washington no tempo
de Franklin Roosevelt e também de John F. Kennedy. Jornalistas
que se sentiam infelizes por ter de fazer a cobertura de uma Casa Branca
fria e cerimoniosa em uma era soporífera sentem-se de repente imbuídos
da empolgação que acompanha a proximidade de uma emergência
nacional.
Entre as
ironias dessa transformação está o fato de que a
renascente autoconfiança de Washington é o resultado direto
de seu próprio e evidente fracasso. Nós, como nação,
nos voltamos para o governo federal em busca de ajuda porque ele não
conseguiu cumprir uma tarefa tão básica para a qual até
os libertários reconhecem sua autoridade: defender a segurança
física do país diante de um ataque externo. E, mais ainda,
depositamos a máxima confiança nos mesmos indivíduos
e órgãos do governo aos quais cabe a maior parcela de responsabilidade
por não nos protegerem com mais eficiência, como o FBI e
a CIA.
As atitudes
com relação a Washington, é claro, sempre tiveram
uma forte dimensão irracional, sobretudo a curto prazo. A confiança
pública no governo começou a declinar nos anos 60 por causa
de uma variedade de razões justas, inclusive a Guerra do Vietnã,
a elevação dos índices de criminalidade e uma expansão
aparentemente irresistível do tamanho do governo federal. Um fator
adicional foi que o crescimento econômico americano, tão
vigoroso entre a II Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã, diminuiu
drasticamente seu ritmo na década de 70, por motivos não
inteiramente esclarecidos. Sofreu um sério golpe a idéia
dominante de que Washington poderia proporcionar a cada americano uma
ascensão constante de seu padrão de vida.
O que não
fazia muito sentido era a maneira como a descrença no governo continuava
a crescer durante a paz, a prosperidade e a retração dos
orçamentos federais, nos anos 90. A administração
eficiente da economia e o retorno do crescimento da produtividade, que
significaram a volta da ascensão do padrão de vida, pareciam
não fazer a menor diferença. Examinando as pesquisas de
opinião, as únicas coisas que invariavelmente fizeram o
público expressar-se mais positivamente em relação
a Washington foram as guerras que travamos em Granada, no Golfo, na Bósnia
e em Kosovo. Mas, assim que essas guerras terminaram, acabou também
o entusiasmo das pessoas com relação ao governo e aos políticos
no poder.
Será
que desta vez os benefícios desaparecerão novamente quando
tivermos vencido a guerra contra o terrorismo? Estou otimista quanto à
possibilidade de a resposta ser não essa confiança
no governo como instituição pode persistir ainda por longo
tempo, mesmo após o fim da guerra. Existem motivos importantes
para esse prognóstico. O primeiro é que a guerra contra
o terrorismo não é nada semelhante às guerras do
Golfo, de Granada ou de Kosovo uma vitória relativamente
rápida em uma luta que em nenhum momento ameaçou profundamente
a segurança ou o padrão de vida da maioria dos americanos.
Mesmo que
a guerra contra o terrorismo continue a correr fora dali tão bem
quanto correu até agora no Afeganistão, os americanos reconhecem
que vivemos num mundo fundamentalmente modificado. Não voltaremos
a encarar nossa segurança como algo fora de qualquer dúvida.
E enquanto sentirmos necessidade de proteção nos voltaremos
para o governo e líderes democraticamente eleitos para protegerem
a nós e a nossos interesses, interna e externamente.
Quando terroristas
derrubam edifícios, quando a seca arrasa fazendeiros, quando a
economia ameaça parar, mesmo aqueles ideologicamente hostis ao
governo se voltam para ele, tanto por lógica quanto por reflexo,
em busca de ajuda. Os EUA estão sob ataque. Confiamos agora no
governo não só porque ele fez algo digno de nossa confiança,
mas porque a alternativa de não confiar se tornou demasiado assustadora.
Jacob
Weisberg
Ensaísta, autor do livro
Em Defesa do Governo Ascensão e Queda da Confiança
Pública
Tradução
de Rubens Figueiredo
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