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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
Artigos Jacob Weisberg

artigos
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Índice
Amir Taheri
É possível a integração dos países islâmicos ao mundo moderno?
Ahmad Dallal
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd Gitlin
O antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados de 11 de setembro?
Robert Wright
O Islamismo é uma religião violenta?
Walter Laqueur
O terrorismo pode ser vencido?
Jacob Weisberg
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert Shiller
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Sir Michael Rose
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Dominique Schnapper
Os jovens muçulmanos da Europa podem se integrar à vida local?
Jacques Le Goff
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Victor Bulmer-Thomas
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés Naím
A América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países ricos?
Gustavo Franco
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando Henrique Cardoso
O que as mudanças no cenário mundial em 2001 significam para o Brasil?

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Bombeiros, soldados, políticos
e até os carteiros se tornaram
heróis da vida americana nos
dias que se seguiram aos
atentados. O papel do
governo voltou a ser louvado.
Qual o significado disso?

Apertem os cintos,
o governo voltou

Um dos fenômenos mais bem documentados na vida política moderna dos Estados Unidos, e de resto nos países onde a influência americana tende a ser grande, é o declínio da confiança no governo. Desde os anos 40, quando se iniciaram as pesquisas de opinião pública em larga escala, pesquisadores repetem a pergunta: "Com que constância você acha possível acreditar que o governo fará o que é certo?" Em 1964, 76% responderam "na maior parte do tempo" ou "sempre". Desde então, o índice caiu de forma contínua, chegando ao ponto mais baixo em 1994, quando bateu em 14%, para reerguer-se apenas ligeiramente antes do dia 11 de setembro de 2001. Na última década, o desencanto com os governos cresceu na opinião pública de muitos outros países ocidentais. Entre eles, certamente se pode contar o Brasil.

A ascensão do Partido Republicano nos Estados Unidos nas duas últimas décadas baseou-se na perda de confiança dos americanos em todas as formas de governo. Podemos acompanhar a evolução do movimento antigoverno a partir do primeiro discurso de posse de Ronald Reagan, quando ele declarou que o governo não era a solução, mas sim o problema. Durante seu reinado como presidente da Câmara dos Deputados, em meados da década de 90, o líder antigoverno Newt Gingrich esbravejou contra a "burocracia corrupta". Membros dos dois partidos passaram a acreditar que, para um candidato a cargo público obter êxito, era preciso firmar posição como uma pessoa estranha a Washington, mesmo que morasse lá havia décadas. A vida em Washington foi assolada por uma espécie de auto-repúdio. Políticos antigoverno faziam o papel de missionários devotos em um território pagão. O caráter pecaminoso desse território não podia se refletir neles em nenhum aspecto.

Mesmo depois do atentado a bomba na cidade de Oklahoma em 1995, um assassinato em massa cometido por um fanático antigoverno, todo um vocabulário destinado a zombar da sede do poder nacional continuou em vigor. Washington designava um local onde "políticos de carreira" esbanjavam "os dólares suados dos impostos do povo" em "soluções estereotipadas" – aquilo que o presidente George W. Bush, até pouco tempo atrás, preferia chamar de "soluções de Washington". Um amigo meu gostava de brincar dizendo que a palavra "Washington" se tornara mero sinônimo de "ruim", a tal ponto que se poderia perfeitamente dizer: "Aquela ostra Washington que comi me fez muito mal".

Depois de 11 de setembro, esse sentimento mudou radical e rapidamente. Nas pesquisas de opinião pública, a confiança no governo voltou a ultrapassar 60%, nível que não se via neste país desde os anos 60. Essa atitude manifestou-se numa efusão de apoio aos funcionários do governo que ocupam a linha de frente, muitos dos quais sacrificaram a vida na tentativa de resgatar vítimas do ataque ao World Trade Center. Na cidade de Nova York, os clientes aplaudiam de pé quando bombeiros e policiais entravam nos restaurantes.

Mas a atitude não se alterou apenas com relação aos funcionários do governo que protegem diretamente nossa vida. Ela se modificou mesmo no que tange aos funcionários civis cujos cargos têm pouca relação com a segurança pública. Cobradores de impostos e carteiros, que em geral trabalham em troca de um salário menor do que ganhariam no setor privado, podem agora, em virtude de sua posição como funcionários do governo, enfrentar riscos para cumprir sua missão. Isso atrai simpatia. Pela primeira vez em muitos anos, pessoas que se habituaram a ser ridicularizadas como "burocratas" andam de cabeça erguida.

A mentalidade antigoverno parece ter mudado mesmo entre os republicanos conservadores. Não se trata de mera trégua na difamação contra o governo, como ocorreu por um tempo após o atentado a bomba em Oklahoma. Trata-se de uma mudança que vem do núcleo mais íntimo do conceito que as instituições jornalísticas e políticas fazem de sua própria posição, importância e poder na sociedade.

As "soluções de Washington" foram rapidamente elevadas da condição de suspeitas à de vitais para a sobrevivência do país. O governo federal é visto, agora, não só como capaz, mas como dotado de capacidade sem paralelo para cumprir uma grande variedade de tarefas urgentes: combater nossos inimigos no exterior, é claro, mas também estimular nossa economia em declínio, salvar empresas aéreas da bancarrota, reconstruir as ruínas de Nova York, proteger-nos da guerra biológica e devolver a segurança ao espaço aéreo. A velha piada de Reagan sobre as dez palavras mais assustadoras na língua inglesa – "Oi, eu sou do governo e estou aqui para ajudar" – já não é mais uma piada. Ao contrário, tornou-se, literalmente, a atitude dos republicanos ao percorrer os escombros onde ocorreu a devastação ou visitar suas vítimas. Agora eles se orgulham de ser parte do governo.

A par dessa atitude empreendedora, vem um sentimento novo e vigoroso de auto-estima. Estar em Washington, uma cidade sob ataque, uma cidade hoje fortificada por barricadas de concreto, barreiras policiais e soldados armados da guarda nacional, dá uma sensação de centralidade e de importância. O novo espírito de improvisação entusiástica recorda relatos a respeito de Washington no tempo de Franklin Roosevelt e também de John F. Kennedy. Jornalistas que se sentiam infelizes por ter de fazer a cobertura de uma Casa Branca fria e cerimoniosa em uma era soporífera sentem-se de repente imbuídos da empolgação que acompanha a proximidade de uma emergência nacional.

Entre as ironias dessa transformação está o fato de que a renascente autoconfiança de Washington é o resultado direto de seu próprio e evidente fracasso. Nós, como nação, nos voltamos para o governo federal em busca de ajuda porque ele não conseguiu cumprir uma tarefa tão básica para a qual até os libertários reconhecem sua autoridade: defender a segurança física do país diante de um ataque externo. E, mais ainda, depositamos a máxima confiança nos mesmos indivíduos e órgãos do governo aos quais cabe a maior parcela de responsabilidade por não nos protegerem com mais eficiência, como o FBI e a CIA.

As atitudes com relação a Washington, é claro, sempre tiveram uma forte dimensão irracional, sobretudo a curto prazo. A confiança pública no governo começou a declinar nos anos 60 por causa de uma variedade de razões justas, inclusive a Guerra do Vietnã, a elevação dos índices de criminalidade e uma expansão aparentemente irresistível do tamanho do governo federal. Um fator adicional foi que o crescimento econômico americano, tão vigoroso entre a II Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã, diminuiu drasticamente seu ritmo na década de 70, por motivos não inteiramente esclarecidos. Sofreu um sério golpe a idéia dominante de que Washington poderia proporcionar a cada americano uma ascensão constante de seu padrão de vida.

O que não fazia muito sentido era a maneira como a descrença no governo continuava a crescer durante a paz, a prosperidade e a retração dos orçamentos federais, nos anos 90. A administração eficiente da economia e o retorno do crescimento da produtividade, que significaram a volta da ascensão do padrão de vida, pareciam não fazer a menor diferença. Examinando as pesquisas de opinião, as únicas coisas que invariavelmente fizeram o público expressar-se mais positivamente em relação a Washington foram as guerras que travamos em Granada, no Golfo, na Bósnia e em Kosovo. Mas, assim que essas guerras terminaram, acabou também o entusiasmo das pessoas com relação ao governo e aos políticos no poder.

Será que desta vez os benefícios desaparecerão novamente quando tivermos vencido a guerra contra o terrorismo? Estou otimista quanto à possibilidade de a resposta ser não – essa confiança no governo como instituição pode persistir ainda por longo tempo, mesmo após o fim da guerra. Existem motivos importantes para esse prognóstico. O primeiro é que a guerra contra o terrorismo não é nada semelhante às guerras do Golfo, de Granada ou de Kosovo – uma vitória relativamente rápida em uma luta que em nenhum momento ameaçou profundamente a segurança ou o padrão de vida da maioria dos americanos.

Mesmo que a guerra contra o terrorismo continue a correr fora dali tão bem quanto correu até agora no Afeganistão, os americanos reconhecem que vivemos num mundo fundamentalmente modificado. Não voltaremos a encarar nossa segurança como algo fora de qualquer dúvida. E enquanto sentirmos necessidade de proteção nos voltaremos para o governo e líderes democraticamente eleitos para protegerem a nós e a nossos interesses, interna e externamente.

Quando terroristas derrubam edifícios, quando a seca arrasa fazendeiros, quando a economia ameaça parar, mesmo aqueles ideologicamente hostis ao governo se voltam para ele, tanto por lógica quanto por reflexo, em busca de ajuda. Os EUA estão sob ataque. Confiamos agora no governo não só porque ele fez algo digno de nossa confiança, mas porque a alternativa de não confiar se tornou demasiado assustadora.

Jacob Weisberg
Ensaísta, autor do livro
Em Defesa do Governo – Ascensão e Queda da Confiança Pública

Tradução de Rubens Figueiredo

 
 
   
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