Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
Artigos Walter Laqueur

artigos
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Amir Taheri
É possível a integração dos países islâmicos ao mundo moderno?
Ahmad Dallal
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd Gitlin
O antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados de 11 de setembro?
Robert Wright
O Islamismo é uma religião violenta?
Walter Laqueur
O terrorismo pode ser vencido?
Jacob Weisberg
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert Shiller
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Sir Michael Rose
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Dominique Schnapper
Os jovens muçulmanos da Europa podem se integrar à vida local?
Jacques Le Goff
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Victor Bulmer-Thomas
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés Naím
A América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países ricos?
Gustavo Franco
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando Henrique Cardoso
O que as mudanças no cenário mundial em 2001 significam para o Brasil?

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Digite uma ou mais palavras:

Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Reportagens de capa 2000 | 2001
Entrevistas
2000 | 2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 
Fábrica de Quadrinhos


O terrorismo pode
ser vencido?

Viveremos num
clima em que cada
um espiona todos
os outros?

Que sabemos realmente sobre o terrorismo? Nos últimos meses, têm-me perguntado muito sobre o início da pesquisa sistemática do assunto. É ciência nova, se a considerarmos ciência. Seu berço data do início da década de 70. Não estou entre os pioneiros nessa área, mas me interessei logo pelo assunto quando havia poucos estudiosos trabalhando nisso. Todos se conheciam – Brian Jenkins, da Rand Corporation, estava entre eles, assim como o general Richard Clutterbuck (1917-1998), que havia sido do Exército inglês e, então, dava aulas em universidades. Havia mais uns poucos. Escrevi Terrorismo e Guerrilha nesse tempo. Não me cabe avaliar se esses livros eram bons ou ruins. De qualquer forma, tornaram-se obras de referência para toda uma geração de estudiosos do tema.

AP Photo/Carmen Taylor
DESTRUIÇÃO EM SÉRIE
O andar mais alto das torres gêmeas se erguia a 417 metros do chão – o equivalente ao comprimento de quase quatro quarteirões. Osama bin Laden confessou que esperava ver os andares superiores tombarem como uma árvore cujo tronco fora serrado. Mas as torres implodiram. O calor de 1 000 graus Celsius gerado pela explosão do combustível dos aviões amoleceu o aço da estrutura principal e todo o conjunto veio abaixo

Enfrentamos muitos mal-entendidos da mídia sobre o terrorismo, que parecia algo misterioso e sem precedentes. Assim como os colegas, tentei esclarecer em meus livros que o terrorismo é fenômeno antigo, quase tão antigo quanto a humanidade, que não era uma doutrina, uma plataforma política ou uma religião, mas uma forma de violência que podia ser usada por gente agressiva tanto na extrema esquerda como na extrema direita, por seitas religiosas e por outros grupos.

Tentamos explicar, nem sempre com sucesso, a diferença maior entre guerrilha, que ocorre fora das cidades, e terrorismo. Muitos usavam os termos como se fossem sinônimos. A expressão "guerrilha urbana" era freqüente, apesar de ser uma contradição em si.

Além disso, era claro que, enquanto a guerrilha fora bem-sucedida na história, especialmente depois da II Guerra, o terrorismo em geral falhara. Em 1970, praticamente não havia mais guerras de guerrilha, já que quase todas as ex-colônias estavam independentes. E assim continua hoje; claro, há pequenas exceções, mas a "fase heróica" de Tito e Mao, Castro e o Vietnã ficou para trás.

Houve muito terrorismo na Europa e nas Américas na década de 70, quase todo da extrema esquerda. Isso levou alguns que não sabiam muito do passado do terrorismo à conclusão errada de que ele brotava da pobreza e da opressão, e que, se acabássemos com o que consideravam "as fontes do terrorismo", a injustiça social e política, não haveria mais violência. As mesmas pessoas argumentavam que era errado dar tanta ênfase ao terrorismo de pequenos grupos. Acaso governos não haviam usado muito mais violência? Era bem verdade, mas isso só serviu para obscurecer o assunto. Também se dizia que "o terrorista de uns é o libertador de outros". Falsa sabedoria que ainda hoje brota com muita facilidade da boca de algumas pessoas. No fundo, trata-se de algo factualmente correto, mas sem nenhum sentido. Equivale a dizer que muitos apoiaram Hitler e Stalin, enquanto muitos outros admiraram São Francisco de Assis e Madre Teresa de Calcutá. É verdade, mas o fato de todos serem admiradores de alguém não diz nada sobre eles. O objeto da admiração, sim.

É inegável que se todos no mundo fossem ricos, felizes e contentes haveria bem menos terrorismo, mas isso nunca aconteceu e não deve acontecer em futuro próximo. Já houve terroristas milionários. Osama bin Laden não foi o único. Como somos todos contra a pobreza e contra a opressão, é um erro óbvio ver nessas disparidades as principais fontes do terrorismo. O terrorismo nos anos 20 e 30 não foi de esquerda, e sim fascista. A maioria dos atentados ocorridos depois do declínio da onda de violência da esquerda no fim dos anos 70 foi também de direita.

 
Reuters
FECHANDO O CERCO
Soldado israelense barra a passagem de um palestino na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, depois que um homem-bomba explodiu em frente a um hotel no centro de Jerusalém, ferindo três pessoas. A resposta israelense à violência dos grupos terroristas é apertar o bloqueio, dificultando a circulação da população palestina na Cisjordânia e na Faixa de Gaza

O pior caso de terrorismo nos Estados Unidos antes de setembro de 2001 foi a explosão em Oklahoma feita por Timothy McVeigh, homem de crenças profundas, casualmente fascistas. Também os assassinos de Yitzhak Rabin e de Anuar Sadat não eram de esquerda – ao contrário, eram sectários da direita nacionalista-religiosa extrema, que se julgavam em missão sagrada matando traidores perigosos. Há muitos outros exemplos, e a conclusão é que, apesar de existirem motivos e raízes palpáveis para a eclosão do terrorismo, eles são bem mais complicados do que se pensa. Têm mais a ver com o sentimento de opressão que com opressão em si. Há pouco ou nenhum terrorismo nas sociedades mais pobres. Note-se também que praticamente não se vê terrorismo em ditaduras efetivas – não havia nenhum na Alemanha nazista ou na Rússia stalinista, e isso também dá o que pensar quanto às circunstâncias em que o terrorismo viceja.

Em meus livros dos anos 70, argumentei que, apesar de ser barulhento e furioso, o terrorismo tem pouca importância política, sendo mero incômodo – um avião foi seqüestrado, o resto estava no ar; um banco foi roubado, os outros continuavam abertos; um político foi morto, havia muitos prontos a substituí-lo. Mas também previ que chegaria a hora, no fim do século, em que o progresso tecnológico e as armas de destruição em massa poriam um poder sem precedentes nas mãos de umas poucas pessoas violentas, e nesse estágio o terrorismo viria a ser um dos maiores problemas do mundo.

Vinte anos se passaram e os atentados continuaram – mas em pequena escala, na Irlanda, no norte da Espanha, no Oriente Médio, na Caxemira e em alguns outros lugares. Já não vinham da extrema esquerda, mas principalmente de grupos nacionalistas separatistas, ocasionalmente da extrema direita ou de religiosos sectários. Mas o relógio da bomba continuava batendo quando publiquei, em 1999, O Novo Terrorismo. A junção do fanatismo com as armas de destruição em massa deixava clara a existência de um processo sinistro em andamento. Essa nova onda de fanatismo tinha caráter principalmente islâmico, mas não somente. Ela surgia combinada com armas novas muito mais letais e com a crescente vulnerabilidade das sociedades dos países desenvolvidos. Nunca antes, na história humana, pequenos grupos tiveram tal poder de destruição. Era apenas questão de tempo para haver uma explosão. Terminei o livro com duas citações. Uma, de Diderot, filósofo francês do século XVIII, diz que do fanatismo à barbárie é um passo. A outra, de Florus, historiador da Roma antiga, advertia que certo movimento contemporâneo podia tornar-se fax et turbo sequentis centuri, ou seja, "uma tocha incendiária e tempestade no século seguinte". Exatamente o que aconteceu com o terrorismo.

Não imaginei que aconteceria tão cedo, mas estava certo ao dizer que os governos não se encontravam preparados e havia o risco de o pânico causar mais prejuízo que o próprio ato terrorista. Diversos comitês do governo americano fizeram relatórios interessantes sobre os perigos do novo terrorismo e de nossas falhas para lidar com as conseqüências. Esses comitês bem sabiam da insuficiente inteligência obtida em nossos países e indicaram meios de melhorar essa situação. Mas o terrorismo ainda tinha pouca importância na agenda política e as autoridades receberam devidamente os relatórios – e os meteram na gaveta. Não foram gastos muito tempo e dinheiro com um risco que parecia tão hipotético.

Além disso, a maioria das deliberações dos comitês tratava mais da defesa que da prevenção de atentados terroristas. No entanto, a experiência mostra que nenhum governo consegue proteger todos os cidadãos o tempo todo. Se houvesse um Clausewitz (Carl von Clausewitz, general prussiano, 1780-1831) do terrorismo, sua primeira regra seria que o ataque é a melhor defesa – mantenha o inimigo em fuga, destrua-lhe as redes.

Foi o que houve nas últimas semanas. Muitas conexões dos terroristas em diversos países foram destruídas e vai ser caro e demorado refazê-las. No passado, beneficiaram-se da falta de atenção – ninguém estava muito interessado no que acontecia nos círculos radicais islâmicos que pregavam a guerra santa. Mas isso será diferente daqui em diante. Por outro lado, não é muito realista achar que nenhuma de suas células vai sobreviver e ainda atacar. A idéia de que o terrorismo pode ser totalmente erradicado é quimera. Também não se pense que esses combatentes da guerra santa são a única ameaça. Não foi sempre assim, e o terrorismo pode ser adotado por qualquer setor do espectro político, esquerda, direita ou centro. Ainda pode haver surpresas desagradáveis.

Entre os comentaristas do terrorismo prevalecem ilusões. Ouve-se muito que a culpada é uma infância infeliz, a pobreza ou a opressão. Claro que alguns terroristas têm queixas legítimas, e algo se deve fazer a respeito. Mas não é o caso dos terroristas de motivação religiosa ou pseudo-religiosa. Eles não são diplomatas em busca de concessões, são absolutistas, querem tudo ou nada.

Além disso, há em muitos terroristas um elemento de loucura. Dizê-lo era deselegante no passado, mas essa é uma verdade de que não se pode fugir. Nem todos os paranóicos são terroristas, mas a maioria dos terroristas acredita numa conspiração global gigantesca de um inimigo todo-poderoso, satânico, que tem de ser destruído. Mania de perseguição, mesmo. Como dialogar com tal crença, como fazer concessões a ela? Esse elemento de loucura no terrorismo contemporâneo é, talvez, a parte mais complicada, mais difícil de abordar. Osama bin Laden e os seus não querem destruir o mundo, mas apenas a civilização ocidental. Querem converter o resto da humanidade ao islamismo. Mas é fácil imaginar pequenos grupos que vão ainda mais longe, seja por sede de destruição, seja por acharem que o mundo está tão sujo de pecado e podridão que deve ser destruído totalmente. No passado, essa fantasia de cientistas loucos só aparecia em ficção científica, desde A Ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells, até The Cobra Event, de Craig Venter, ou Rainbow 6, de Tom Clancy, em que os criminosos combinavam varíola com o vírus da gripe comum para criar uma doença mortal.

Para o futuro, esses cenários não se podem descartar de pronto. As perspectivas são sinistras. Mas não totalmente insanáveis, pois, mesmo que a sociedade tenha ficado mais vulnerável, a tecnologia pode gerar contramedidas que nem imaginamos hoje. Mas quanta liberdade nos restará com essas ameaças, quantos dos direitos humanos que consideramos indiscutíveis? Viveremos num clima em que cada qual espiona todos os demais? Quer me parecer evidente que os direitos humanos serão bem reduzidos se a humanidade enfrentar uma luta pela sobrevivência. Mas tal não quer dizer que chegaremos, sem remissão, ao extremo de uma sociedade orwelliana. Por ora, pode não passar de mais vigilância e mais atenção. Em muitas partes do mundo essa vigilância é do cotidiano, e um estranho que atravesse a rua não passa despercebido. Nós nos acostumamos a não nos meter na vida de ninguém e a considerar o direito à privacidade essencial e inviolável. Temo que isso vá mudar. Nesse aspecto, o mundo nunca mais será o mesmo. Até onde irão as restrições? Isso, infelizmente, não depende de nós, mas dos terroristas.

 

Walter Laqueur
Americano nascido na Alemanha, historiador, é um dos mais respeitados estudiosos do terrorismo e autor da Enciclopédia do Holocausto

Tradução de Yuri Chaer

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS