Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
Artigos Robert Wright

artigos
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Amir Taheri
É possível a integração dos países islâmicos ao mundo moderno?
Ahmad Dallal
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd Gitlin
O antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados de 11 de setembro?
Robert Wright
O Islamismo é uma religião violenta?
Walter Laqueur
O terrorismo pode ser vencido?
Jacob Weisberg
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert Shiller
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Sir Michael Rose
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Dominique Schnapper
Os jovens muçulmanos da Europa podem se integrar à vida local?
Jacques Le Goff
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Victor Bulmer-Thomas
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés Naím
A América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países ricos?
Gustavo Franco
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando Henrique Cardoso
O que as mudanças no cenário mundial em 2001 significam para o Brasil?

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Digite uma ou mais palavras:

Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Reportagens de capa 2000 | 2001
Entrevistas
2000 | 2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 
Fábrica de Quadrinhos


O islamismo é uma religião violenta?

Quem vai ceder
no fim será a
religião reacionária

A opinião politicamente incorreta a respeito do Islã parece estar ganhando impulso. Logo após 11 de setembro, o governo Bush fez questão de declarar que o Islã é uma religião pacífica, "seqüestrada" por alguns poucos extremistas. Na ocasião, em artigo publicado na New York Times Magazine, Andrew Sullivan discordou. Admitiu que existem muçulmanos moderados e que certas passagens do Corão recomendam a misericórdia e a tolerância. "Mas seria ingenuidade não reconhecer, no Islã, uma profunda tendência à intolerância com relação aos infiéis, sobretudo quando são tidos como uma ameaça ao mundo islâmico." Em seguida, citava o preceito do Corão que manda "matar aqueles que misturam outros deuses ao Deus, onde quer que tu os encontre". Agora, um artigo publicado no Washington Post reforça a idéia de que devemos examinar o Corão em busca de indícios para entender o Islã moderno – e admite que os indícios são incriminadores. "Os estudiosos do Corão nos asseguram que, no texto, não há nenhuma ordem para os fiéis empunharem a espada contra os inocentes", escreve Michael Skube. "No entanto, como o texto deixa claro, a espada tem de ser empunhada – contra aqueles que negam Alá e seu Mensageiro, contra aqueles que acreditaram mas se afastaram da fé, contra os inimigos da fé, reais ou imaginários."

Num recente balanço do incessante debate em torno do Islã, Seth Stevenson, da revista eletrônica Slate, observou de passagem que os textos sagrados cristãos e judeus também não são isentos de beligerância. Ele não estava brincando. Eis uma recomendação do livro Deuteronômio: "Quando te aproximares de alguma cidade para lutar contra ela, oferecerás a paz. Se a resposta for de paz e a cidade te abrir as portas, todo o povo que nela estiver será sujeito a trabalhos forçados para ti e te servirá. Porém, se ela não fizer paz contigo, mas sim guerrear contra ti, então a sitiarás; e, quando o Senhor teu Deus a entregar na tua mão, passarás a fio de espada todos os do sexo masculino que houver na cidade, mas as mulheres, as crianças e os animais, e tudo o mais que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti".

Sem dúvida, o Deus judaico-cristão – ao contrário dos seqüestradores muçulmanos – parece, aqui, disposto a poupar mulheres e crianças. Mas esse tratamento é reservado às "cidades muito distantes de ti". Nas mais próximas, "as cidades daqueles povos que o Senhor teu Deus te dá em herança, não deixarás com vida nada que respire, deves antes destruí-los completamente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus e os jebuseus, conforme te ordenou o Senhor teu Deus; para que não te ensinem a agir segundo todos os usos abomináveis que seguem no culto aos deuses deles e, portanto, a pecar contra o Senhor teu Deus". Por outro lado, o Corão – na interpretação não de Mohamed Atta, mas sim de Mohamed (Maomé), uma tremenda autoridade no assunto – recomenda poupar mulheres e crianças, mesmo numa guerra santa.

Não estou dizendo que o Islã é irrelevante com relação ao que ocorreu em 11 de setembro. De fato, admito em larga medida a tese de Sullivan de que entender o fundamentalismo contemporâneo como algo distinto das correntes moderadas do Islã ajuda a esclarecer nossos apuros. Mas digo que toda essa história de garimpar o Corão à cata de citações incendiárias é, em essência, inútil. As religiões se desenvolvem e em suas escrituras fundadoras existe, em geral, ambigüidade bastante para permitir que elas evoluam em qualquer direção. Se Osama bin Laden fosse cristão e quisesse destruir o World Trade Center, citaria a reação violenta de Jesus contra os vendilhões no templo. Se não quisesse destruir o World Trade Center, poderia destacar o Sermão da Montanha.

Para certos críticos do Islã, essa concepção evolutiva da religião parece apenas reforçar sua acusação contra a fé. Por que, perguntam eles, o Islã não fez o mesmo que outras crenças – usar a margem de liberdade concedida pela ambigüidade das escrituras para afastar-se da intolerância truculenta? Se, durante as Cruzadas, os muçulmanos e os cristãos europeus se mostraram igualmente propensos a massacrar os infiéis (ou seja, a massacrar-se mutuamente), os cristãos europeus de hoje parecem aceitar a diversidade religiosa de um modo inadmissível para milhões de muçulmanos. Por que é assim?

Para mim, a resposta parece simples: as nações predominantemente cristãs tornaram-se mais avançadas economicamente, mais globalizadas, o que leva naturalmente a uma perspectiva mais cosmopolita. É impossível fazer negócios com pessoas ao mesmo tempo que as massacramos e é bem difícil fazer negócios com elas enquanto lhes dizemos que vão arder para sempre nas chamas do inferno. O capitalismo global moderno tem seus defeitos, mas a intolerância religiosa não está entre eles.

Desse ponto de vista, a intolerância dos fundamentalistas islâmicos não reflete as escrituras tal como registradas 1 400 anos atrás, mas sim as circunstâncias sociológicas em que viveram essas pessoas nas últimas décadas. No Paquistão, ao lado de milhões de fundamentalistas isolados e, na maior parte, pobres, existem muçulmanos mais ricos, mais profanos e mais moderados. Os marxistas se equivocam na maioria das coisas, mas, quando encaram a religião como uma "superestrutura" – o produto de uma dinâmica econômica e política mais profunda –, estão no caminho certo.

Entre aqueles que reconhecem que a modernização salvou o cristianismo da intolerância raivosa, alguns gostariam de converter mesmo isso numa acusação contra o Islã. Por que, indagam eles, desconfiados, o mundo muçulmano não se modernizou rapidamente? Por que a Europa cristã alcançou a Revolução Industrial antes da civilização islâmica? Não haveria no Islã algo intrinsecamente opressivo e economicamente paralisante? A chave para o sucesso da era industrial na Europa não estaria em alguma ênfase cristã na liberdade pessoal?

Há várias coisas que me desagradam nessa linha de raciocínio: 1) sua incompatibilidade com as grandes conquistas intelectuais e econômicas da civilização islâmica durante boa parte da Idade Média; 2) sua incompatibilidade com o profundo autoritarismo de alguns líderes cristãos antes da Revolução Industrial (Calvino governou Genebra tão brutalmente quanto Stalin, na Rússia); 3) sua incompatibilidade com minha teoria predileta sobre a razão pela qual a Europa se industrializou antes da China e da civilização islâmica, que até então estavam na ponta-de-lança do comércio e da tecnologia.

Essa teoria destaca a ausência de um poder eficaz – de um governo centralizado e firme – na Europa durante o fim da Idade Média e o início da Era Moderna. Como a Europa estava fragmentada politicamente, numerosos Estados experimentavam diferentes formas de organização política e econômica, no intuito de superar seus vizinhos. Quanto mais experimentos, maiores as chances de encontrar uma fórmula vitoriosa – como a combinação de liberdade política com liberdade econômica, que demonstrou sua força na Holanda, no fim do século XVI, e na Inglaterra, no fim do século XVII. O êxito dessa fórmula deixou as nações cristãs vizinhas sem outra opção senão adotá-la também, e seu cristianismo desenvolveu-se em consonância com isso.

A fórmula mágica de liberdade política mais liberdade econômica difundiu-se, desde então, por boa parte do mundo. Mais cedo ou mais tarde, tenho certeza, ela prevalecerá mesmo nos Estados islâmicos repressivos atuais.

Infelizmente, a transformação pode ser dolorosa. Embora a globalização constitua, a longo prazo, a esperança para a sociedade muçulmana, ela é uma ameaça a curto prazo. Sim, economias de mercado são o único remédio duradouro para a pobreza. Mas, não raro, o primeiro passo da cura força em demasia os laços da tradição, ao deslocar pessoas de comunidades rurais, alicerçadas no parentesco, para cidades ou favelas. E, mesmo décadas após esse deslocamento inicial, quando as famílias já foram postas a salvo da pobreza, a modernização pode ainda ameaçar os valores de pessoas profundamente religiosas. Daí decorre o paradoxo entre os dois tipos de seqüestradores que agiram em 11 de setembro: os pobres e de pouca instrução e os de classe média porém alienados.

A turba que se apressa a pôr a culpa no Islã tem, obviamente, razão num certo sentido, e o Islã é parte do problema. A atitude dos fundamentalistas muçulmanos – sua repulsa ao mundo não-islâmico – contraria a lógica da globalização e, mais cedo ou mais tarde, alguma das partes terá de ceder. Porém, se a história serve para alguma orientação, quem vai ceder, no fim, será a religião reacionária, não o progresso tecnológico. Tal como ocorreu no passado, o efeito será o desenvolvimento de uma fé mais humana e tolerante. Não existe uma essência do Islã eterna e imutável, enraizada no Corão, que o condene a uma moralidade medieval.

A realidade já é bastante desalentadora: temos de combater a pobreza e a ignorância, no entanto o remédio mais seguro para isso – a modernização econômica – comporta graves perigos a curto prazo. Não é preciso aumentar mais ainda nosso desânimo esquecendo que a maior parte das nações cristãs prósperas já teve, em outros tempos, a mesma mentalidade dos muçulmanos fundamentalistas atuais. Viviam atoladas num sistema religioso pré-moderno – e, não fosse por obra e graça de umas poucas reviravoltas da história, poderiam ainda estar lá.

Robert Wright
Ensaísta e autor de diversos livros, entre eles
O Animal Moral: Psicologia Evolucionária e o Cotidiano

Tradução de Rubens Figueiredo

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS