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Índice
Amir
Taheri
É
possível a integração
dos países
islâmicos ao
mundo moderno?
Ahmad
Dallal
O
que a luta contra o terrorismo
pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd
Gitlin
O
antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados
de 11 de setembro?
Robert
Wright
O
Islamismo é uma religião
violenta?
Walter
Laqueur
O
terrorismo pode ser
vencido?
Jacob
Weisberg
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert
Shiller
Qual
o impacto
dos atentados
sobre o processo de
globalização?
Sir
Michael Rose
O
que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências
políticas e militares?
Dominique
Schnapper
Os
jovens muçulmanos da
Europa podem se integrar à vida local?
Jacques
Le Goff
Qual
o impacto dos atentados
sobre o processo de globalização?
Victor
Bulmer-Thomas
Qual
o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés
Naím
A
América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países
ricos?
Gustavo
Franco
O
papel do governo voltou
a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando
Henrique Cardoso
O
que as mudanças no cenário
mundial em 2001 significam
para o Brasil?
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O islamismo é uma religião violenta?
Quem vai ceder
no fim será a
religião reacionária
A opinião
politicamente incorreta a respeito do Islã parece estar ganhando
impulso. Logo após 11 de setembro, o governo Bush fez questão
de declarar que o Islã é uma religião pacífica,
"seqüestrada" por alguns poucos extremistas. Na ocasião, em
artigo publicado na New York Times Magazine, Andrew Sullivan discordou.
Admitiu que existem muçulmanos moderados e que certas passagens
do Corão recomendam a misericórdia e a tolerância.
"Mas seria ingenuidade não reconhecer, no Islã, uma profunda
tendência à intolerância com relação
aos infiéis, sobretudo quando são tidos como uma ameaça
ao mundo islâmico." Em seguida, citava o preceito do Corão
que manda "matar aqueles que misturam outros deuses ao Deus, onde quer
que tu os encontre". Agora, um artigo publicado no Washington Post
reforça a idéia de que devemos examinar o Corão
em busca de indícios para entender o Islã moderno
e admite que os indícios são incriminadores. "Os estudiosos
do Corão nos asseguram que, no texto, não há
nenhuma ordem para os fiéis empunharem a espada contra os inocentes",
escreve Michael Skube. "No entanto, como o texto deixa claro, a espada
tem de ser empunhada contra aqueles que negam Alá e seu
Mensageiro, contra aqueles que acreditaram mas se afastaram da fé,
contra os inimigos da fé, reais ou imaginários."
Num recente
balanço do incessante debate em torno do Islã, Seth Stevenson,
da revista eletrônica Slate, observou de passagem que os
textos sagrados cristãos e judeus também não são
isentos de beligerância. Ele não estava brincando. Eis uma
recomendação do livro Deuteronômio: "Quando te aproximares
de alguma cidade para lutar contra ela, oferecerás a paz. Se a
resposta for de paz e a cidade te abrir as portas, todo o povo que nela
estiver será sujeito a trabalhos forçados para ti e te servirá.
Porém, se ela não fizer paz contigo, mas sim guerrear contra
ti, então a sitiarás; e, quando o Senhor teu Deus a entregar
na tua mão, passarás a fio de espada todos os do sexo masculino
que houver na cidade, mas as mulheres, as crianças e os animais,
e tudo o mais que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás
para ti".
Sem dúvida,
o Deus judaico-cristão ao contrário dos seqüestradores
muçulmanos parece, aqui, disposto a poupar mulheres e crianças.
Mas esse tratamento é reservado às "cidades muito distantes
de ti". Nas mais próximas, "as cidades daqueles povos que o Senhor
teu Deus te dá em herança, não deixarás com
vida nada que respire, deves antes destruí-los completamente: os
heteus, os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus e os jebuseus,
conforme te ordenou o Senhor teu Deus; para que não te ensinem
a agir segundo todos os usos abomináveis que seguem no culto aos
deuses deles e, portanto, a pecar contra o Senhor teu Deus". Por outro
lado, o Corão na interpretação não
de Mohamed Atta, mas sim de Mohamed (Maomé), uma tremenda autoridade
no assunto recomenda poupar mulheres e crianças, mesmo numa
guerra santa.
Não
estou dizendo que o Islã é irrelevante com relação
ao que ocorreu em 11 de setembro. De fato, admito em larga medida a tese
de Sullivan de que entender o fundamentalismo contemporâneo como
algo distinto das correntes moderadas do Islã ajuda a esclarecer
nossos apuros. Mas digo que toda essa história de garimpar o Corão
à cata de citações incendiárias é,
em essência, inútil. As religiões se desenvolvem e
em suas escrituras fundadoras existe, em geral, ambigüidade bastante
para permitir que elas evoluam em qualquer direção. Se Osama
bin Laden fosse cristão e quisesse destruir o World Trade Center,
citaria a reação violenta de Jesus contra os vendilhões
no templo. Se não quisesse destruir o World Trade Center, poderia
destacar o Sermão da Montanha.
Para certos
críticos do Islã, essa concepção evolutiva
da religião parece apenas reforçar sua acusação
contra a fé. Por que, perguntam eles, o Islã não
fez o mesmo que outras crenças usar a margem de liberdade
concedida pela ambigüidade das escrituras para afastar-se da intolerância
truculenta? Se, durante as Cruzadas, os muçulmanos e os cristãos
europeus se mostraram igualmente propensos a massacrar os infiéis
(ou seja, a massacrar-se mutuamente), os cristãos europeus de hoje
parecem aceitar a diversidade religiosa de um modo inadmissível
para milhões de muçulmanos. Por que é assim?
Para mim,
a resposta parece simples: as nações predominantemente cristãs
tornaram-se mais avançadas economicamente, mais globalizadas, o
que leva naturalmente a uma perspectiva mais cosmopolita. É impossível
fazer negócios com pessoas ao mesmo tempo que as massacramos e
é bem difícil fazer negócios com elas enquanto lhes
dizemos que vão arder para sempre nas chamas do inferno. O capitalismo
global moderno tem seus defeitos, mas a intolerância religiosa não
está entre eles.
Desse ponto
de vista, a intolerância dos fundamentalistas islâmicos não
reflete as escrituras tal como registradas 1 400 anos atrás, mas
sim as circunstâncias sociológicas em que viveram essas pessoas
nas últimas décadas. No Paquistão, ao lado de milhões
de fundamentalistas isolados e, na maior parte, pobres, existem muçulmanos
mais ricos, mais profanos e mais moderados. Os marxistas se equivocam
na maioria das coisas, mas, quando encaram a religião como uma
"superestrutura" o produto de uma dinâmica econômica
e política mais profunda , estão no caminho certo.
Entre aqueles
que reconhecem que a modernização salvou o cristianismo
da intolerância raivosa, alguns gostariam de converter mesmo isso
numa acusação contra o Islã. Por que, indagam eles,
desconfiados, o mundo muçulmano não se modernizou rapidamente?
Por que a Europa cristã alcançou a Revolução
Industrial antes da civilização islâmica? Não
haveria no Islã algo intrinsecamente opressivo e economicamente
paralisante? A chave para o sucesso da era industrial na Europa não
estaria em alguma ênfase cristã na liberdade pessoal?
Há
várias coisas que me desagradam nessa linha de raciocínio:
1) sua incompatibilidade com as grandes conquistas intelectuais e econômicas
da civilização islâmica durante boa parte da Idade
Média; 2) sua incompatibilidade com o profundo autoritarismo de
alguns líderes cristãos antes da Revolução
Industrial (Calvino governou Genebra tão brutalmente quanto Stalin,
na Rússia); 3) sua incompatibilidade com minha teoria predileta
sobre a razão pela qual a Europa se industrializou antes da China
e da civilização islâmica, que até então
estavam na ponta-de-lança do comércio e da tecnologia.
Essa teoria
destaca a ausência de um poder eficaz de um governo centralizado
e firme na Europa durante o fim da Idade Média e o início
da Era Moderna. Como a Europa estava fragmentada politicamente, numerosos
Estados experimentavam diferentes formas de organização
política e econômica, no intuito de superar seus vizinhos.
Quanto mais experimentos, maiores as chances de encontrar uma fórmula
vitoriosa como a combinação de liberdade política
com liberdade econômica, que demonstrou sua força na Holanda,
no fim do século XVI, e na Inglaterra, no fim do século
XVII. O êxito dessa fórmula deixou as nações
cristãs vizinhas sem outra opção senão adotá-la
também, e seu cristianismo desenvolveu-se em consonância
com isso.
A fórmula
mágica de liberdade política mais liberdade econômica
difundiu-se, desde então, por boa parte do mundo. Mais cedo ou
mais tarde, tenho certeza, ela prevalecerá mesmo nos Estados islâmicos
repressivos atuais.
Infelizmente,
a transformação pode ser dolorosa. Embora a globalização
constitua, a longo prazo, a esperança para a sociedade muçulmana,
ela é uma ameaça a curto prazo. Sim, economias de mercado
são o único remédio duradouro para a pobreza. Mas,
não raro, o primeiro passo da cura força em demasia os laços
da tradição, ao deslocar pessoas de comunidades rurais,
alicerçadas no parentesco, para cidades ou favelas. E, mesmo décadas
após esse deslocamento inicial, quando as famílias já
foram postas a salvo da pobreza, a modernização pode ainda
ameaçar os valores de pessoas profundamente religiosas. Daí
decorre o paradoxo entre os dois tipos de seqüestradores que agiram
em 11 de setembro: os pobres e de pouca instrução e os de
classe média porém alienados.
A turba
que se apressa a pôr a culpa no Islã tem, obviamente, razão
num certo sentido, e o Islã é parte do problema. A atitude
dos fundamentalistas muçulmanos sua repulsa ao mundo não-islâmico
contraria a lógica da globalização e, mais
cedo ou mais tarde, alguma das partes terá de ceder. Porém,
se a história serve para alguma orientação, quem
vai ceder, no fim, será a religião reacionária, não
o progresso tecnológico. Tal como ocorreu no passado, o efeito
será o desenvolvimento de uma fé mais humana e tolerante.
Não existe uma essência do Islã eterna e imutável,
enraizada no Corão, que o condene a uma moralidade medieval.
A realidade
já é bastante desalentadora: temos de combater a pobreza
e a ignorância, no entanto o remédio mais seguro para isso
a modernização econômica comporta graves
perigos a curto prazo. Não é preciso aumentar mais ainda
nosso desânimo esquecendo que a maior parte das nações
cristãs prósperas já teve, em outros tempos, a mesma
mentalidade dos muçulmanos fundamentalistas atuais. Viviam atoladas
num sistema religioso pré-moderno e, não fosse por
obra e graça de umas poucas reviravoltas da história, poderiam
ainda estar lá.
Robert
Wright
Ensaísta e autor de diversos livros, entre eles
O Animal Moral: Psicologia Evolucionária e o Cotidiano
Tradução
de Rubens Figueiredo
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