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Thomas J. Aberoromble/National Geographic
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MÚLTIPLA O islamismo ganhou notoriedade indesejável com a ação dos terroristas. A religião de Maomé foi injustamente projetada no cenário mundial como uma crença intrinsecamente violenta. Os muçulmanos já são 20% da população mundial. Seu livro sagrado, o Corão, não incentiva o fundamentalismo, mas ele cresce entre os fiéis. Faz parte dos deveres terrenos dos muçulmanos, pelo menos uma vez na vida, orar na mesquita de Meca, que aparece na foto acima |
No mundo inteiro, a política externa americana sempre foi atentamente acompanhada e cada gesto seu meticulosamente analisado. Sabendo muito bem os efeitos que provoca em sua vida, todos os povos e Estados se esforçam para prever de que forma a política externa dos Estados Unidos poderá moldar seu destino. Em contraste, porém, a maior parte dos americanos podia tranqüilamente não se importar com o que ocorresse em terras distantes, sem influência direta em seu cotidiano. Mas, com a sensação de invulnerabilidade atingida, muitos americanos percebem agora que ignorar o resto do mundo e dar as costas a seus conflitos é um luxo que o país não se pode mais permitir.
Os terroristas que cometeram o crime contra civis inocentes e desprevenidos estavam armados de uma crueldade espantosa, sem outro objetivo que o de infligir morte, destruição e medo. Além dos milhares de vidas que roubaram e dos milhões de vidas que estragaram, eles conseguiram levar o mundo inteiro à beira de uma catástrofe e dar início a um ciclo de violência cujas maiores vítimas serão, sem a menor dúvida, os muçulmanos. E, uma vez que vítima nenhuma da violência arbitrária consegue jamais conforto na morte de civis inocentes, sejam de Nova York, sejam das cidades afegãs destroçadas, os atos dos terroristas de 11 de setembro serão sempre vistos pela imensa maioria das pessoas como atos criminosos contra a humanidade.
A guerra travada em resposta aos ataques nos Estados Unidos tem o objetivo mais duradouro de perseguir várias redes terroristas, bem como os países que lhes dão guarida. Entretanto, por mais que a cobertura teatral nos possa atrapalhar o entendimento desta guerra, a realidade fundamental da campanha contra o terror continua sendo o fato de que, neste conflito, não há país a derrotar. O terrorismo não tem endereço geográfico nem político e não pode ser eliminado por bombas múltiplas e mísseis teleguiados. Mais importante ainda, o terrorismo surge da fome, do sofrimento e da destruição, e uma guerra contra o terrorismo não tem chance de atingir seus objetivos se não for uma guerra contra a fome, contra a miséria humana.
Com extrema facilidade, a atual retórica de guerra divide o mundo entre terroristas malévolos e seus valorosos adversários. No entanto, a maioria dos países não se encaixa em nenhum dos lados. Embora os atos terroristas de 11 de setembro despertem pouca simpatia em qualquer lugar, a longa história de agravos citada pelos terroristas para justificar suas ações ainda ressoa em boa parte do globo. E essa história corrói a dicotomia simples do bem absoluto e do mal sem limite. Terrorismo é apenas um sinal da doença que vem fermentando de há muito. A crise de terror é uma imagem do mundo e um sintoma de seus males. O desafio de longo prazo da guerra contra o terror não é apenas encontrar e combater os terroristas, mas identificar as condições sociais, políticas e econômicas que produzem terrorismo. Em vez de ser relegada para um canto em favor de um enfoque exclusivo na guerra e na segurança, a história deveria enformar as ações e políticas atuais e futuras.
Durante boa parte de sua história moderna, quase todo o mundo muçulmano esteve sob domínio colonial, e ainda está para recuperar-se dos efeitos do colonialismo e de seu fim. Quando as potências coloniais começaram, aos poucos, a se retirar dos países que ocupavam, em geral passaram o poder a regimes autoritários sem representatividade, dando pouca atenção ao desejo das populações locais. Alguns desses primeiros regimes foram depois derrubados por golpes militares, mas os Estados que surgiram logo viraram ditaduras que dissiparam os fundos públicos, violaram direitos humanos e impediram formas democráticas de expressão política. Por todo o mundo muçulmano, inclusive nos países ricos em petróleo, dívidas nacionais imensas, níveis de desemprego e analfabetismo sem precedentes, corrupção e irresponsabilidade generalizadas continuam a afligir a economia e a contribuir para seu declínio constante.
Apesar da localização estratégica e da abundância relativa de recursos naturais, a maior parte do mundo islâmico é pobre. A desigualdade de riqueza entre a maioria dos países muçulmanos e os Estados produtores de petróleo do Golfo continua a crescer, assim como crescem as diferenças internas entre ricos e pobres em cada país. Assim como outras regiões do sul do globo, grandes tratos do Islã continuam também vítimas de políticas econômicas globais que causam sofrimento e miséria social tremendos no mundo inteiro. Na qualidade de principais beneficiários da ordem econômica mundial, os americanos são naturalmente tidos como guardiães dessa economia injusta globalizada. Mais especificamente, o apoio dado pelos EUA a muitos regimes opressores do mundo muçulmano é motivo de agravos e grande ressentimento. Sem sustentação interna, vários desses governos corruptos e repressivos têm se servido do apoio externo para conservar seus privilégios e consolidar-se no poder. Nas últimas décadas, tal apoio tem vindo sobretudo dos Estados Unidos. O amparo aos chamados "amigos moderados" dos americanos e a presteza em intervir militarmente em favor deles, por outro lado, reforçam a opinião de que a política externa americana é guiada exclusivamente por interesses econômicos e políticos oportunistas, sem atenção a princípios e padrões humanitários.
Antes do surgimento dos movimentos políticos islâmicos e antes que alguns deles adotassem a violência como meio de enfraquecer os adversários e tomar o poder, a violência política foi usada por diversos regimes para esmagar a oposição e impedir a tentativa de reformas democráticas. Na verdade, ela foi usada contra todos os grupos de oposição, tanto seculares quanto islâmicos, deixando pouco espaço para o dissenso político e social. Ante violações crescentes dos direitos humanos e com regimes dinásticos corruptos tentando desesperadamente manter o poder, um misto de miséria e ditadura não deixou outro recurso aos oprimidos que não a violência cega e promessas vagas de salvação futura. Esse lamentável estado de coisas foi a causa dos conflitos que afligiram países como o Paquistão, o Egito, a Turquia e o Afeganistão nas últimas décadas. Nesses e noutros lugares, houve tentativas corajosas e freqüentes de reformas democráticas, mas a onda de democratização que varreu o Leste Europeu, a América Latina e muitas outras partes do globo ainda não atingiu o Islã. São inúmeras as razões dessa falha, mas os obstáculos internos ao avanço das reformas sempre têm sido reforçados por forças externas. Em contraste com outras regiões do globo, onde ficaram decididamente com a luta pela democratização, no mundo islâmico os Estados Unidos favoreceram o status quo político, por medo das conseqüências incertas da democracia. Na verdade, o aliado mais próximo e mais importante dos americanos no Islã é a Arábia Saudita, talvez o regime menos democrático e de ordem social mais repressora do mundo muçulmano.
O histórico americano de desconsiderar seletivamente os direitos humanos e políticos dos muçulmanos é apenas uma entre as várias razões que explicam o ressentimento duradouro do mundo islâmico para com a política externa americana. Primordial, entre as outras causas desse ressentimento, é o apoio incondicional, político, financeiro e militar, que os Estados Unidos dão à ocupação brutal da Palestina por Israel. A imensa maioria dos vetos a todas as resoluções do Conselho de Segurança da ONU partiu dos EUA em defesa dessa ocupação. Caças a jato de fabricação americana bombardeiam uma população civil, enquanto os EUA se recusam a condenar ou impedir esses e outros atos do terrorismo israelense de Estado. Além disso, mesmo quando reconheceram implicitamente o perigo da política expansionista de Israel, faltou aos americanos vontade moral ou política para pressionar Israel, e eles preferiram culpar as vítimas palestinas da ocupação israelense.
Muitos muçulmanos estão irados com a incapacidade de seus próprios governos de socorrer os palestinos, cujo sofrimento é acompanhado de perto no mundo todo. Outro motivo de raiva é a incapacidade desses mesmos governos de impedir o inacreditável desastre humano que ocorre no Iraque. Depois da derrota do Iraque na Guerra do Golfo, foi imposto um embargo ao país com o objetivo de enfraquecer o regime de Saddam Hussein. Sem dúvida, Hussein é um ditador brutal que causou grande mal ao povo iraquiano e à região toda. Contudo, a política de embargo, imposta sobretudo pelos Estados Unidos, não atingiu o objetivo declarado de enfraquecer as bases desse regime brutal. Saddam Hussein continua a construir seus palácios e a maltratar a população. O único efeito palpável das sanções foi a morte de cerca de meio milhão de crianças iraquianas, devido à falta de remédios, de água saneada e de alimentos. Todos os meses, o número de crianças mortas no Iraque é igual ao de vítimas dos ataques de 11 de setembro. A ausência de uma revisão dessa política externa, apesar da trágica perda de vidas inocentes, é vista por islamitas como outra prova da indiferença americana à perda de vidas muçulmanas. Muitos dizem que esse "dano colateral" jamais seria tolerado se os mortos fossem de uma etnia ou religião diferentes.
E há o Afeganistão. Como no caso do regime de Saddam Hussein, não existem muitos muçulmanos dispostos a viver voluntariamente sob o governo cruel do Talibã. A versão de islamismo defendida pelo Talibã é uma forma grosseira e inculta de religião, que a maioria dos muçulmanos do mundo inteiro despreza. Mas a subida do Talibã ao poder é em si mesma um dos resultados de uma política míope em que os Estados Unidos tiveram papel central. A gênese da estratégia americana no Afeganistão está na ocupação soviética do país, em 1979. A estratégia era travar uma guerra por procuração contra a União Soviética, usando uma aliança com os islamitas afegãos. E assim começaram o recrutamento, o treinamento e o controle de um exército de guerreiros santos muçulmanos comumente chamados mujahidin. Osama bin Laden foi um dos participantes do recrutamento. O apoio organizado à coalizão de resistência no Afeganistão veio da Arábia Saudita e dos EUA, em ambos os casos por intermédio do Exército e do serviço de inteligência paquistaneses. Os Estados Unidos e a Arábia Saudita despejaram no país fantásticas somas e uma quantidade enorme de armas modernas e munição, ainda hoje usadas no Afeganistão pelas diversas facções guerreiras.
Os soviéticos acabaram se retirando em 1989, mas o preço da libertação foi alto, não só para os guerreiros que participaram mas para o país todo. Metade da população afegã foi morta, deslocada ou ficou aleijada; a agricultura foi quase toda destruída e 10 milhões de minas terrestres espalhadas pelo território tornam praticamente impossível revivê-la. Derrotados os soviéticos, o mundo deu as costas ao país que lhes causara a derrota. Em vez de despejar ajuda no Afeganistão, de contribuir para a reconstrução de suas cidades e de sua cultura e de criar um centro político que unificasse a sociedade, os patronos e amigos dos mujahidin permitiram que facções em luta interna corroessem o pouco que restara do país, abandonando-o para apodrecer. E ele apodreceu.
A coalizão de mujahidin que capturou Cabul em 1992 foi incapaz de manter-se unida em meio a lutas entre facções étnicas. No fim de 1994, o Talibã, uma milícia apoiada pelo Paquistão, composta de fundamentalistas islâmicos da etnia patane, lançou uma ofensiva de bases na fronteira paquistanesa, visando a acabar com a guerra sectária que destroçava o pouco que ainda restara do Afeganistão. Embora restaurasse a ordem, o Talibã brutalizou o país e reprimiu todos os muçulmanos que não concordaram com sua rígida interpretação do Islã. Interpretação, é preciso que se diga, promovida numa extensa rede de colégios internos custeados pelos sauditas e fundados durante os anos de resistência nos acampamentos de refugiados afegãos. Os talibãs, como os integrantes de muitos movimentos radicais islâmicos do Paquistão, foram quase todos recrutados nessas escolas.
Claro que para fazer uma guerra ampla contra o terror será preciso prestar muita atenção a essa história complexa. As raízes do terrorismo não serão arrancadas com a mera conquista de um dos países mais esgotados e destroçados do mundo. Juntamente com a perseguição militar dos terroristas que cometeram os crimes de 11 de setembro, é preciso haver uma guerra paralela contra a pobreza, a miséria e a injustiça. Mais ainda, desenraizar o terror também requer um sério reexame da política externa americana, para garantir que os erros do passado não se repitam. Só então as sementes da esperança poderão substituir as sementes da miséria e do terror.
Ahmad
Dallal
Professor de história do Oriente Médio na
Universidade Stanford, nos Estados Unidos
Tradução
de Beth Vieira
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