Vale a pena trocar de banda?

O que os serviços de acesso rápido à rede mundial
de computadores podem oferecer aos usuários

Tereza Cristina M. de B. Carvalho e equipe do Larc/USP*

 
Ricardo Benichio
Durante três dias, especialistas da USP avaliaram os serviços oferecidos em São Paulo

O software está disponível num site. É gratuito e se encaixa como uma luva na necessidade de aperfeiçoar seu micro. Basta fazer um download, ou seja, trazer uma cópia do software via internet para instalá-lo em sua máquina. É aí que começa o problema. O tráfego de arquivos pesados por redes de dados congestionadas e linhas telefônicas concebidas para transmitir apenas sinais de voz costuma resultar em decepção para o internauta. Igualmente desapontador é receber a mensagem de "conexão interrompida" depois de uma longa hora de download, que acaba não servindo para nada. Se download é dor de cabeça na certa, imagine o sacrifício que pode ser assistir a um vídeo pelo computador. As imagens chegam em câmara lenta, "quebradas" e totalmente fora de sincronia com o som.

A promessa de solução para esses problemas de conexão está nas redes de alta velocidade (ou banda larga). Elas crescem a cada dia e acabam com o transtorno da linha telefônica ocupada e com o risco de queda na ligação. As empresas que oferecem o serviço – companhias de telecomunicações e de televisão por assinatura – estimam que, até o final deste ano, haverá 180.000 brasileiros desfrutando desta conexão privilegiada, que permite o acesso a arquivos pesados, como aqueles onde estão gravados som e imagem de um show musical. Atualmente, 19 cidades, entre elas sete capitais, além das regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, já contam com o serviço. Mas até que ponto a banda larga está, de fato, eliminando os gargalos da rede e transformando uma estradinha numa grande avenida? A pedido de Veja Vida Digital, uma equipe do Laboratório de Arquitetura e Redes de Computadores (Larc), da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, avaliou os três serviços de internet de alta velocidade disponíveis na cidade de São Paulo: o Speedy, da Telefônica, o Vírtua, da Net, e o Acesso Alta Velocidade, da TVA, empresa do Grupo Abril, que edita VEJA.

Os testes foram realizados com computadores da mesma marca e configurações idênticas, no mesmo local e intervalo de tempo. Os três provedores de acesso rápido estiveram representados por técnicos durante toda a avaliação. Como a meta era chegar o mais próximo possível da realidade de um usuário doméstico, todos os testes foram repetidos em horários diferentes, durante três dias consecutivos. Os resultados apresentados nas tabelas desta reportagem são as médias obtidas na série de avaliações. Embora os três serviços de banda larga trabalhem com vários provedores de conteúdo, nos testes foram considerados os provedores Globo.com para o Vírtua, Ajato para o Acesso e Terra para o Speedy.

A primeira e melhor conclusão do teste: navegar em banda larga é realmente muito mais prazeroso que por via convencional. Tentar baixar pela banda convencional um arquivo "peso pesado", como o Navegador Netscape, que tem 19 megabites, é tarefa para mais de duas horas – isso se a conexão não cair no meio da operação. Durante os testes na banda larga, chegou-se a fazer o mesmo download em apenas 21 minutos, cravados. No streaming de áudio e vídeo, em que o internauta ouve o conteúdo ou assiste a ele de um arquivo sem precisar fazer o download, os resultados também foram bastante animadores.

Os testes com as rádios brasileiras Jovem Pan e Mix FM revelaram bom desempenho de todos os serviços, sem o registro de interrupções. Já na experiência com a Internet Radio Hawaii, dos Estados Unidos, o áudio foi interrompido várias vezes em um dos períodos do dia. Neste caso, o mais provável é que o problema não tenha ocorrido nos provedores, e sim devido a algum congestionamento num dos cruzamentos das rodovias virtuais que ligam a América do Sul à do Norte.

Outra constatação é de que os três serviços são bastante equivalentes. Todos operam com a mesma taxa básica de download, de 256 kbps (quilobits por segundo), medida que indica a velocidade da transmissão. Para comparar: na banda comum, o modem mais veloz é de 56 kbps. A semelhança ficou clara no download de um videoclipe de cerca de quatro minutos, buscado nos provedores de conteúdo dos próprios serviços. A tarefa foi realizada em 1,4 segundos pelo Acesso, em 1,7 pelo Vírtua e em 1,9 pelo Speedy. Para viajar por estradas digitais à moda antiga, o mesmo arquivo demoraria pelo menos sete minutos, sempre com a torcida para que o tráfego não esteja muito intenso e a ligação não caia.

Uma etapa importante do teste foi a do upload, o envio de um grande arquivo para o provedor de acesso. Isso pode ocorrer, por exemplo, quando é preciso remeter um e-mail com muitos dados anexados, ou na inclusão de uma grande quantidade de informações na área de home page pessoal que o usuário pode manter no provedor. O upload do mesmo videoclipe por uma conexão convencional demora pelo menos 12,5 minutos. As médias obtidas na avaliação do Larc foram de 1,5 minuto para o Vírtua, 1,7 para o Acesso e 2,5 para o Speedy. No upload, tanto o Acesso quanto o Vírtua trabalham com taxas idênticas às de download. O Speedy opera com a metade.

Nos três dias de testes, o Vírtua apresentou maior estabilidade para os diversos horários de operação, o que não significa que tenha obtido os melhores resultados sempre, conforme demonstram as tabelas. O Speedy exibiu mais oscilações durante a bateria de avaliações. Mas é o único que oferece as opções de 512 kbps ou 2 Mbps (megabits por segundo).

Quando contrata um serviço de acesso rápido, o internauta escolhe um ou mais provedores de conteúdo em banda larga associados a esse serviço. Quanto mais provedores escolher, mais caro vai pagar. A navegação pelos provedores escolhidos apresentará melhor desempenho. Se o usuário quiser buscar um conteúdo em outro endereço, cairá, literalmente, na rede, enfrentando os mesmos gargalos suportados pelos demais internautas. A velocidade diminuirá mais ainda à medida que aumentar a distância física entre o computador do internauta e o conteúdo que ele quer baixar, ouvir ou ver. Isso mostra que o mundo virtual não está totalmente imune a variáveis como a distância geográfica.

As informações que trafegam pela internet percorrem caminhos bem reais. Correm por linhas telefônicas, cabos de TV por assinatura e mesmo pelo ar. Essa situação é percebida claramente no teste de download do programa Winzip 8.0, copiado de três endereços diferentes: o provedor de cada um dos serviços testados, um site brasileiro independente e o portal do desenvolvedor do programa, hospedado nos Estados Unidos. O tempo de download chega a quase quintuplicar no provedor americano em relação aos brasileiros. A perda determinada pela distância é tão grande que o tempo de download do site estrangeiro foi semelhante ao resultado que seria conseguido na transferência do arquivo por conexão comum.

As diferenças marcantes no resultado de downloads e da navegação por conteúdos que estão dentro ou fora dos domínios do provedor associado ao serviço de acesso rápido mostram que, enquanto a rede não estiver permeada por cabos de grosso calibre, os internautas continuarão enfrentando problemas de lentidão, mesmo pagando caro para ter acesso privilegiado. Ainda assim, já é possível tirar ótimo proveito da banda larga. Vale considerar ainda que toda tecnologia começa cara, por ser rateada entre um número pequeno de pessoas. Mas o preço diminui quando a massa de usuários cresce, já que a mesma estrutura é capaz de atingir um número muito grande de clientes.

Um fator que aponta para a popularização da banda larga é a convergência das mídias. A fusão da AOL, o maior provedor de acesso do planeta, com a Time Warner, uma das principais geradoras mundiais de informação jornalística e de entretenimento, é a grande prova disso. Os grandes players estão se preparando para um cenário em que televisão e computador poderão se transformar em um só utilitário.

A massificação da banda larga pode ser viabilizada, ainda, por seu enorme potencial de geração de negócios. Imagine, como exemplo, os ganhos de uma seguradora que venha a trabalhar com uma rede de oficinas conectadas. Quando um cliente chegar com um carro batido, a seguradora poderá aprovar o orçamento do conserto após uma vistoria a distância, feita por imagens obtidas com uma câmara instalada na oficina e recebidas via rede.

O aumento da qualidade de imagem também pode revolucionar o internet banking por meio do reconhecimento da íris. Bastará aproximar o olho da câmara no computador para substituir senhas e aumentar a segurança nas transações bancárias virtuais. Hoje, nada disso ainda é feito. Mas, ao passo que a tecnologia segue, não estamos muito longe de testemunhar essas múltiplas aplicações da banda larga. Basta lembrar dos (hoje) pré-históricos BBS's, que há pouco mais de cinco anos faziam a alegria da geração pré-internet com conexões lentas e sem graça. Da rede privada em branco- e-preto, já evoluímos para o vídeo de tela cheia. E ainda há muitos avanços por alcançar.

* Tereza Cristina M. de B. Carvalho é diretora do Laboratório de Arquitetura e Redes de Computadores da Escola Politécnica da USP. A equipe do Larc responsável pelo teste foi integrada por: Cintia Borges Margi, Fernando Frota Redígolo e Vivian Bastos Dias (especialistas de Rede do Larc e mestrando da Epusp)

 

Eles usam e aprovam

"A velocidade é ótima nos games em que os jogadores têm de estar bem sincronizados. O que está em banda estreita pode receber as informações
com atraso."

Christian Zaharic, especialista em internet da Intel, usuário do Acesso

"O custo-benefício é muito bom. Você tecla e a tela enche na hora. Assisti ao trailer do filme Missão Impossível bem antes de estrear no Brasil. Os recursos de vídeo são ótimos. Acaba a imagem quebrada."
Otávio Mesquita, apresentador de TV, assinante do Vírtua



Eliane Coster


"Quando uso acesso comum é como ir de São Paulo ao Rio de carro em vez de pegar avião. Gastava uma hora para checar e-mails. Agora é um minuto. A gente fica mais tempo conectado."

Serginho Groisman (foto), apresentador de TV, assinante do Speedy

 

 

A máquina é vital

Para uma boa navegação em banda larga, o Larc recomenda um computador com processador de pelo menos 400 MHz e 64 Mb de memória RAM, com placas de som e de vídeo de boa qualidade. Nos testes, foram usados micros Presario 5BW173, cedidos pela Compaq, com as seguintes características:

Processador Pentium III de 750 MHz
Memória de 128 Mb
Memória cache de 256 Kb integrada
Memória de vídeo compartilhada até 11 Mb
Disco rígido de 40 Gb
Webcam Logitech
Placa de rede Ethernet 10/100 MHz
Monitor de 15 polegadas com alto-falantes

 

 

 

 

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