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A rede mais maduraPesquisa
exclusiva mostra que os brasileiros de
Roberta Paduan
A revolução dos computadores pessoais e da internet parecia decidida a empurrar a turma da velha-guarda para dentro de um baú, deixando para os jovens e adolescentes o domínio total do ciberespaço. Para aqueles que envelheceram usando máquinas de escrever e lambendo selos, o destino estaria mesmo carimbado, diante daquele mundo novíssimo, sem paralelo em toda a experiência que acumulavam. Eles contra-atacaram. Os cinqüentões e companhia saltaram a barreira da tecnologia, perderam o medo do computador e foram além. Apaixonaram-se pela rede mundial de computadores como no verso de Drummond de Andrade "Deus me deu um amor no tempo de madureza". Nesse grupo estão os profissionais na meia-idade, que embarcaram na internet em seus escritórios e negócios, e também aqueles que já estão aposentados e descobriram aí uma fonte de lazer e facilidades. Eles integram uma turma que, segundo pesquisa feita com exclusividade para VEJA Vida Digital pelo site de pesquisas Diga-me (www.diga-me.com.br), é das mais ativas na rede. Sob certos aspectos, mais ativas, inclusive, que a dos jovens que nasceram sob um céu de bits e bytes. "Tinha medo
da máquina, mas eu o venci na marra", diz o carioca Gilson Vieira
da Silva, 65 anos, que algum tempo atrás contratou um professor
particular para ensinar computação a ele e a sua mulher,
Branca. O casal tornou-se usuário pesado da internet. Eles fazem
supermercado e banco pela rede, visitam livrarias, pesquisam preços,
compram em lojas virtuais, consultam agências de turismo e reúnem
a família para conversar no ICQ, o popular programa de bate-papo.
Estima-se que até o final do ano 230 000 pessoas que, como o casal
Vieira da Silva, passaram dos 50 estarão acessando a internet no
Brasil. É pouco, perto dos 5,7 milhões de usuários
projetados para dezembro. Entretanto, é justamente a faixa que
se mostra mais fiel à internet. Eles são o único
grupo, entre as 2 064 pessoas pesquisadas pelo Diga-me, em que 100% dos
internautas se conectam diariamente. A maioria desse público, 70%,
acessa a rede várias vezes ao dia. É uma freqüência
maior que a observada entre os jovens e adultos até 24 anos
destes, 94% acessam a rede todo dia e 6% só o fazem uma vez por
semana. "Os mais velhos têm um estilo de vida mais caseiro e uma
rotina mais definida. Por isso, são mais assíduos na internet",
analisa o cientista político e social Antônio Lavareda, presidente
do Diga-me.
Pelo menos um site no Brasil já se dedica especificamente a pescar essa audiência qualificada o portal Mais de 50 (www.maisde50.com.br). O site consumiu 800 000 reais de investimento de um grupo de empresários brasileiros e funciona como uma revista semanal eletrônica, privilegiando assuntos como saúde, turismo, sexo e finanças pessoais. Nos Estados Unidos, o mais conhecido desse setor é o ThirdAge (www.thirdage.com). Por lá, mais de 22 milhões de pessoas acima de 50 anos estarão acessando a internet ao final deste ano, segundo estimativa do instituto de pesquisas Jupiter Communications. Em 2005, serão 49 milhões de americanos nessa faixa plugados na rede. Foi com medo de se tornar uma analfabeta da era digital que Loraine Canabarro, de 52 anos, resolveu conectar-se à internet. "Estava me sentindo fora dessa nova realidade. Na TV, toda hora apareciam endereços www. Todo mundo falava em e-mail. Aí, decidi ligar a internet em casa", conta Loraine, que estudou letras na juventude e se formou em direito aos 48 anos. Foi pela rede que ela distribuiu fotos quando o netinho nasceu, há um ano, e avisou ao filho, que mora em Brasília, que atrasaria para chegar à cidade. Loraine tem uma rotina confortável. Trabalha meio período como relações-públicas em uma associação, faz ginástica três vezes por semana, anda de bicicleta diariamente, viaja muito e navega na internet.
Loraine tem dois computadores, um no escritório e um em casa. Essa é outra característica típica dos internautas da velha-guarda. A infra-estrutura de que dispõem é melhor. Entre todas as faixas etárias pesquisadas pelo Diga-me, eles apresentam a maior porcentagem de usuários da rede que utilizam microprocessadores poderosos, equivalentes ao Pentium II e ao III. A pesquisa revela ainda que essa é a única faixa em que todos os entrevistados afirmam ter pelo menos um computador e uma linha telefônica em casa. Ou seja, estão completamente prontos para a internet. Alguns desses senhores de cabelos brancos dão aula de modernidade e capacidade de adaptação. O general aposentado Euclides Bueno, surfando seus 81 anos, não usa a internet apenas para lazer. Ela é uma forma de ganhar dinheiro. Engenheiro mecânico, foi testemunha ocular da chegada das primeiras gerações de computadores, na década de 50. Depois do Exército, estudou análise de sistemas e hoje dá aulas particulares de computação e consultoria a pequenas e médias empresas. Bueno sabe que causa espanto quando diz sua profissão, numa área em que poderia ser avô da maioria dos professores. Ele não revela a idade antes que seus clientes possam assistir a uma aula. "Não quero perder alunos por um preconceito bobo", diz.
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