A rede mais madura

Pesquisa exclusiva mostra que os brasileiros de
meia-idade já estão entre os usuários mais ativos
da internet. Mais que os próprios jovens

Roberta Paduan

 
Ana Araújo
"Estava me sentindo fora dessa nova realidade. Na TV, toda hora apareciam endereços www. Todo mundo falava em e-mail. Aí, decidi ligar a internet em casa."
Loraine Canabarro, 52 anos

A revolução dos computadores pessoais e da internet parecia decidida a empurrar a turma da velha-guarda para dentro de um baú, deixando para os jovens e adolescentes o domínio total do ciberespaço. Para aqueles que envelheceram usando máquinas de escrever e lambendo selos, o destino estaria mesmo carimbado, diante daquele mundo novíssimo, sem paralelo em toda a experiência que acumulavam. Eles contra-atacaram. Os cinqüentões e companhia saltaram a barreira da tecnologia, perderam o medo do computador e foram além. Apaixonaram-se pela rede mundial de computadores – como no verso de Drummond de Andrade "Deus me deu um amor no tempo de madureza". Nesse grupo estão os profissionais na meia-idade, que embarcaram na internet em seus escritórios e negócios, e também aqueles que já estão aposentados e descobriram aí uma fonte de lazer e facilidades. Eles integram uma turma que, segundo pesquisa feita com exclusividade para VEJA Vida Digital pelo site de pesquisas Diga-me (www.diga-me.com.br), é das mais ativas na rede. Sob certos aspectos, mais ativas, inclusive, que a dos jovens que nasceram sob um céu de bits e bytes.

"Tinha medo da máquina, mas eu o venci na marra", diz o carioca Gilson Vieira da Silva, 65 anos, que algum tempo atrás contratou um professor particular para ensinar computação a ele e a sua mulher, Branca. O casal tornou-se usuário pesado da internet. Eles fazem supermercado e banco pela rede, visitam livrarias, pesquisam preços, compram em lojas virtuais, consultam agências de turismo e reúnem a família para conversar no ICQ, o popular programa de bate-papo. Estima-se que até o final do ano 230 000 pessoas que, como o casal Vieira da Silva, passaram dos 50 estarão acessando a internet no Brasil. É pouco, perto dos 5,7 milhões de usuários projetados para dezembro. Entretanto, é justamente a faixa que se mostra mais fiel à internet. Eles são o único grupo, entre as 2 064 pessoas pesquisadas pelo Diga-me, em que 100% dos internautas se conectam diariamente. A maioria desse público, 70%, acessa a rede várias vezes ao dia. É uma freqüência maior que a observada entre os jovens e adultos até 24 anos – destes, 94% acessam a rede todo dia e 6% só o fazem uma vez por semana. "Os mais velhos têm um estilo de vida mais caseiro e uma rotina mais definida. Por isso, são mais assíduos na internet", analisa o cientista político e social Antônio Lavareda, presidente do Diga-me.


Antonio Milena
"Primeiro deixo que comprovem meu conhecimento. Sei que muitos pensariam que sou velho demais para dar aulas de internet."
Euclides Bueno, 81 anos


Os acima de 50 também batem as demais faixas em outras competições internáuticas. São eles que apresentam o menor índice de rejeição ao comércio eletrônico: 51% disseram já ter feito pelo menos uma compra on-line e 35% o fizeram entre duas e cinco vezes nos últimos doze meses. Entre os usuários até 24 anos, foram 43% os que aderiram às compras pela rede e só 18% compraram de duas a cinco vezes no mesmo período. Explicação: em geral os mais velhos estão com a vida financeira mais arrumada. "É um público atraente, porque tem renda disponível. A maioria não está mais comprometida com a escola dos filhos ou com a prestação da casa própria", diz o consultor Marcos Aguiar, do Boston Consulting Group. Essa condição econômica coloca esses internautas por cima da onda. Segundo o Instituto de Pesquisa Marplan, 80% dos internautas são das classes A e B e, nessas duas faixas, a população com mais de 50 anos revela uma saúde econômica muito boa: 89% têm casa própria e 82% possuem carro. Os dados fazem parte do estudo "Good-Agers e sua potencialidade de consumo", realizado pela Marplan nos nove principais mercados do país para mapear os consumidores com mais de 50. Por estarem bem de vida, são chamados de goodagers (os que estão na boa idade) para contrastar com o termo inglês teenagers (adolescentes). Para o sociólogo Lavareda, quando esses senhores e senhoras superam o obstáculo tecnológico – o que significa que têm renda e escolaridade acima da média –, mergulham na web de cabeça e formam uma espécie de nata entre os internautas. "Eles estão no topo entre os usuários", diz.

Pelo menos um site no Brasil já se dedica especificamente a pescar essa audiência qualificada – o portal Mais de 50 (www.maisde50.com.br). O site consumiu 800 000 reais de investimento de um grupo de empresários brasileiros e funciona como uma revista semanal eletrônica, privilegiando assuntos como saúde, turismo, sexo e finanças pessoais. Nos Estados Unidos, o mais conhecido desse setor é o ThirdAge (www.thirdage.com). Por lá, mais de 22 milhões de pessoas acima de 50 anos estarão acessando a internet ao final deste ano, segundo estimativa do instituto de pesquisas Jupiter Communications. Em 2005, serão 49 milhões de americanos nessa faixa plugados na rede.

Foi com medo de se tornar uma analfabeta da era digital que Loraine Canabarro, de 52 anos, resolveu conectar-se à internet. "Estava me sentindo fora dessa nova realidade. Na TV, toda hora apareciam endereços www. Todo mundo falava em e-mail. Aí, decidi ligar a internet em casa", conta Loraine, que estudou letras na juventude e se formou em direito aos 48 anos. Foi pela rede que ela distribuiu fotos quando o netinho nasceu, há um ano, e avisou ao filho, que mora em Brasília, que atrasaria para chegar à cidade. Loraine tem uma rotina confortável. Trabalha meio período como relações-públicas em uma associação, faz ginástica três vezes por semana, anda de bicicleta diariamente, viaja muito e navega na internet.

 
Selmy Yassuda
Gilson e Branca: sem medo do comércio eletrônico, o casal deixa 500 reais por mês em supermercados e livrarias virtuais

Loraine tem dois computadores, um no escritório e um em casa. Essa é outra característica típica dos internautas da velha-guarda. A infra-estrutura de que dispõem é melhor. Entre todas as faixas etárias pesquisadas pelo Diga-me, eles apresentam a maior porcentagem de usuários da rede que utilizam microprocessadores poderosos, equivalentes ao Pentium II e ao III. A pesquisa revela ainda que essa é a única faixa em que todos os entrevistados afirmam ter pelo menos um computador e uma linha telefônica em casa. Ou seja, estão completamente prontos para a internet.

Alguns desses senhores de cabelos brancos dão aula de modernidade e capacidade de adaptação. O general aposentado Euclides Bueno, surfando seus 81 anos, não usa a internet apenas para lazer. Ela é uma forma de ganhar dinheiro. Engenheiro mecânico, foi testemunha ocular da chegada das primeiras gerações de computadores, na década de 50. Depois do Exército, estudou análise de sistemas e hoje dá aulas particulares de computação e consultoria a pequenas e médias empresas. Bueno sabe que causa espanto quando diz sua profissão, numa área em que poderia ser avô da maioria dos professores. Ele não revela a idade antes que seus clientes possam assistir a uma aula. "Não quero perder alunos por um preconceito bobo", diz.

 

Loucos pelo mouse

Os internautas mais assíduos e mais ativos na rede, quem diria, não são os garotões. A turma de cabelos brancos ganha – no olho eletrônico, é verdade, mas ganha. Confira o resultado da pesquisa exclusiva do
Diga-me.com.br feita para VEJA Vida Digital:

Acessa a rede diariamente?
Usuários acima de 50 anos
100% acessam. E 70% fazem isso várias vezes
ao dia.
Usuários até 24 anos
94% acessam todo dia. O restante, somente uma vez por semana.

 

Fazem compras pela rede?
Usuários acima de 50 anos
51% já fizeram pelo menos uma compra virtual e 35% compraram entre duas e cinco vezes nos últimos doze meses.
Usuários até 24 anos
Apenas 43% já compraram pela internet. 18% fizeram entre duas e cinco compras em um ano.

 

Tem computador?
Usuários acima de 50 anos
Todos possuem computador e pelo menos uma linha telefônica em casa.
Usuários até 24 anos
15% não têm computador doméstico e 3% não possuem linha telefônica.

 

Equipamento utilizado
Usuários acima de 50 anos
São os que têm os melhores equipamentos: 52% possuem microprocessador Pentium II (ou equivalente) e 20% Pentium III (ou equivalente), os maiores índices entre todas as categorias.
Usuários até 24 anos
35% trabalham com Pentium II (ou equivalente) e 18% com Pentium III (ou equivalente).

 

 

 

 

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