Os surfistas da primeira onda

Eles criaram empresas sem gastar muito
na primeira fase da internet, venderam na
hora certa e estão milionários


Elen Peterson

Antonioi Milena

Marcelo Lacerda criou um dos primeiros provedores de acesso, a Nutec. Vendeu a empresa em três etapas e engordou um patrimônio pessoal que já bate em 100 milhões de dólares


A idéia de que a internet fez uma legião de milionários pelo mundo afora não é um mito moderno. Aconteceu de verdade, e alguns iluminados no Brasil também pegaram uma beirada nesse trem. Negócios nascidos de investimentos relativamente pequenos foram vendidos com lucros espantosos. Idéias singelas atraíram a atenção de tubarões internacionais. Um desses felizardos é o paulista Marcos de Moraes, filho do empresário Olacyr de Moraes – que fez e perdeu uma fortuna lidando com soja, construção e bancos. Em 1996, Marcos enterrou 8 milhões de dólares de seu rico dinheirinho para montar a Zip.Net, uma empresa de internet cujo grande negócio era um serviço gratuito de correio eletrônico, o ZipMail, primeiro dessa espécie no Brasil. A coragem valeu. Ele esperava atender 300.000 usuários, o que, na época, parecia coisa de visionário. Em oito meses, arrebanhou mais de 1 milhão de contas. "Houve um momento em que quase torcíamos para que parassem de nos procurar", confidencia o empresário. Quando o número de clientes bateu em 2,6 milhões, começaram a aparecer os interessados. Ao fechar o negócio com a Portugal Telecom, em fevereiro deste ano, Marcos embolsou, limpinhos, 302 milhões de dólares, descontados já os 12% que cabiam ao sócio Unibanco (43,8 milhões de dólares) e outros 5% distribuídos entre os funcionários que tinham participação acionária na aventura.

Outro que viu o sol nascer mais dourado foi o gaúcho Marcelo Lacerda, um campeão quando se trata de tirar o máximo da onda da internet. Ele é diretor do Terra, um dos maiores provedores de acesso no Brasil, mas ficou mais conhecido mesmo por ter vendido sua empresa três vezes. Cada uma melhor que a outra. Na primeira, vendeu uma parte de seu primeiro provedor de acesso, conhecido como Nutec, para uma empresa gaúcha de capital de risco chamada Companhia Riograndense de Participações. Mais tarde, vendeu 60% da mesma companhia para o grupo gaúcho RBS, de comunicações. Depois, ganhou mais um dinheirão com as ações que lhe restavam quando os sócios venderam 100% da empresa para a espanhola Telefónica. O valor total deste último negócio, segundo a boca do mercado, foi de 280 milhões de dólares. O patrimônio de Lacerda é estimado em mais ou menos 100 milhões de dólares. Para seus 39 anos de idade, parece ser uma boa marca.

Antonioi Milena

Marcos Moraes (acima) lançou o primeiro serviço de e-mail grátis, o ZipMail. Investiu 8 milhões de dólares e vendeu por 302 milhões.


As histórias de sucesso de empresários como Marcos de Moraes e Marcelo Lacerda têm algumas coisas em comum. Em geral, esses pioneiros montaram negócios modestos. A maioria diz que não entrou na internet com a intenção de se desfazer das empresas. Muitos acabaram surpreendidos pelo ritmo de crescimento da rede no Brasil e pelo valor das ofertas feitas por suas pontocom. "Via minha empresa crescer e não sabia o que fazer com ela", diz o paulistano Aleksandar Mandic, que decidiu abandonar uma carreira de vinte anos como funcionário da Siemens para montar uma BBS, a vovó dos provedores de acesso à internet. Em 1995, Mandic se espantou ao constatar que a empresa que levava seu nome havia faturado 2 milhões de dólares. Hoje, ele tem uma fortuna que excede muitas vezes esse valor graças ao bom negócio que fez vendendo sua empresa para a GP Investimentos e a empresa de tecnologia argentina ImpSat. Ele prefere não falar do dinheiro que ganhou, mas os quatro carros importados que tem na garagem são eloqüentes.

A segunda onda Na origem desses bons negócios havia intuição, capacidade de empreender e coragem de investir em negócios pioneiros. Foram características como essas que fizeram também a boa fortuna dos pioneiros da economia tradicional. Nos velhos tempos, porém, levantavam-se indústrias, armazéns, casas bancárias. Na nova economia, a montagem dos negócios tornou-se mais simples. Não envolve grandes construções nem exércitos de operários. Tudo se resolve num conjunto de salas, com alguns computadores e pouca gente. Tudo muito mais rápido. A má notícia é que esse caminho parece também estar ficando interditado. Os analistas de mercado sustentam que está praticamente no fim a primeira onda de prosperidade que transformou riqueza virtual em dinheiro de verdade. Será?

 
Rogério Voltan
Aleksandar mandic fez fortuna ao deixar a Simens

A pergunta crucial do momento é: que tipo de empreendimento terá sucesso na segunda onda da internet, a que começa agora? "Os negócios envolverão empreendimentos criados mais com base na racionalidade que na inspiração que orientou os pioneiros da rede no Brasil", diz Cassio Dreyfuss, diretor de pesquisa para a América Latina do Gartner Group, um instituto de pesquisas especializado na vida on-line. Segundo Dreyfuss, com o amadurecimento do mundo digital o ritmo de vida das empresas de internet passará a obedecer às boas e velhas leis de sucesso da economia de mercado, entre elas a necessidade de gerar lucro. "A partir de agora, haverá uma concentração ainda maior nesse mercado", diz Bruno Laskowisky, da consultoria A.T. Kearney. O atual momento é descrito pelos especialistas como de consolidação. É aquela cadeia tão familiar à dinâmica do capitalismo em que o enorme compra o grande, que havia engolido o pequeno, que abocanhara o site da esquina. "Poucos empreendedores de internet estão conseguindo chegar a um resultado econômico positivo", diz Lacerda. Pode ser que negócios como esses se tornem mais difíceis de concretizar, até porque há mais empresas disputando os mesmos investidores. Nesse novo cenário, os aventureiros bem-sucedidos da primeira onda já são história.

 

 

 

| Home Page | VEJA on-line |