Dançando conforme a web

As gravadoras estão decididas a embarcar no
negócio de venda de música pela internet.
O desafio é convencer as pessoas a pagar por
coisas que sites como o Napster oferecem de graça

Gustavo Poloni


AFP
Aos 19 anos, Shawn Fanning, o criador do Napster, transformou-se no grande vilão das gravadoras mundiais


A todo-poderosa indústria fonográfica, responsável pela movimentação de 40 bilhões de dólares por ano, elegeu seu inimigo número 1. É o Napster, um programa que permite a troca de arquivos de música pela internet. As gravadoras satanizaram o jovem Shawn Fanning, criador do programa e do site Napster.com (www.napster.com), uma enorme discoteca virtual em que estão catalogados milhares de códigos usados por cerca de 10 milhões de internautas para copiar arquivos musicais espalhados pela rede, sem pagar nada aos detentores da propriedade intelectual das obras. Para a indústria, Fanning disseminou na internet a praga da pirataria, ameaçando a sobrevivência de produtoras, gravadoras, artistas e até da lojinha de CDs da esquina.

No finalzinho de julho, a RIAA, associação que representa a indústria fonográfica nos Estados Unidos, convenceu um juiz americano a mandar o Napster apagar do site os registros das músicas protegidas por direito autoral. Na prática, o cumprimento da decisão tiraria o site do ar e quebraria a corrente que une internautas do mundo inteiro. Para um usuário brasileiro do Napster copiar uma música arquivada no disco rígido do computador de um usuário na Alemanha, por exemplo, ele precisa passar pelo site e usar os tais registros ali armazenados. A comunidade Napster respirou aliviada quando uma liminar mandou deixar tudo como está, até que a Justiça analise melhor a questão.

 
Cleriston Boechat
Roberta Zouain, a estudante brasileira que ajudou a criar o Rapster, uma versão do Napster para Macintosh

O embate nos tribunais parece ter feito "cair a ficha" dos executivos das grandes gravadoras. Sem abrir mão da batalha contra o Napster, eles resolveram que chegou a hora de encontrar formas legais de vender arquivos de música pela rede, um negócio que, segundo a consultoria Jupiter Communications, tem cacife para movimentar 5 bilhões de dólares em 2005. "Já estamos trabalhando para oferecer um modelo seguro de comércio via internet", diz Ted Cohen, vice-presidente de novas mídias da EMI Records. A promessa da EMI e de outras gigantes, como Universal e Sony Music, é operar com o novo canal de vendas até o fim do ano. "Para proteger seus interesses, a indústria precisa entrar no jogo do comércio on-line", acredita Wendy Seltzer, advogada americana especializada em direitos autorais.

A decisão parece estar tomada, mas colocá-la em prática vai ser uma odisséia. Durante anos, as gravadoras investiram milhões de dólares em uma lógica voltada ao comércio de músicas inscritas em discos e, depois, CDs. O desafio é duplo: mexer nessa lógica e convencer os internautas – que hoje acessam as músicas de graça – de que devem pagar por elas. "Será preciso educar o consumidor, fazendo-o optar pela via legal e não pelas inúmeras maneiras informais de conseguir música na internet", diz Marcelo Negrini, gerente de produto da Microsoft para a América Latina. A empresa é parte interessadíssima na questão, pois desenvolveu um formato de arquivo digital que pode ser um dos eleitos pelas gravadoras. O gerente do site Som Submarino, Daniel Izzo, entende que a virada só será possível se a indústria proporcionar um acervo enorme de obras, preços competitivos, opções de pagamento, oferta de conteúdos, orientação técnica e mais uma série de atrativos.

O modelo a ser adotado pelas gravadoras ainda é um enigma. Especula-se que elas cobrarão uma mensalidade dos usuários dispostos a baixar determinado número de músicas por mês. Os arquivos musicais serão encriptados num processo semelhante ao adotado nos DVDs para impedir um grande número de cópias. A advogada Wendy Seltzer alerta que a imposição de muitas barreiras legais e tecnológicas pode espantar os clientes, que continuarão baixando músicas pelo Napster. Outro obstáculo é o preço. Uma pesquisa feita pelo site Central MP3 (www.centralmp3.com.br) mostra que os internautas já acham alto um valor próximo a 50 centavos por música. Imagine, então, o 1 dólar cobrado por sites que já vendem pequenos acervos alternativos nos Estados Unidos. Ou os 2 reais que o iMúsica (www.imusica.com.br) cobra por download no Brasil – no acervo desse site só há artistas alternativos, exceto uma ou outra composição de Lobão ou do Pato Fu. É quase um ensaio para quando as grandes gravadoras liberarem as composições mais famosas.

Enquanto a indústria patina na discussão, o Napster ganha adeptos e clones. Um dos filhotes da invenção de Shawn Fanning é o Rapster, que permite o download por computadores Macintosh e foi criado por um grupo de jovens brasileiros liderado pela estudante Roberta Zouain. O Scour Exchange é uma espécie de upgrade do Napster, pois, além de músicas, viabiliza a troca de arquivos com imagem e texto. Quem também arrebanhou uma legião de adeptos é o Gnutella, dono de um recurso que está fazendo os barões da indústria fonográfica perder o sono. Quando busca e copia músicas com apoio desse programa, o internauta não precisa fazer o pit stop no site para procurar registros dos arquivos. A busca é feita de computador em computador, sem deixar rastro. Mesmo que um juiz ordene, não há uma medida capaz de cessar a troca de arquivos com apoio do Gnutella. Se isso é pirataria ou não, a Justiça ainda está decidindo. O fato é que, se a indústria não perceber logo que precisa desenvolver um modelo de negócios eficiente para vender músicas, filmes, obras literárias, softwares e outras informações digitais ou digitalizáveis, estará perdendo um bonde carregado de clientes e de dólares.

 

Eles tiram o sono da indústria do entretenimento

Facilmente copiados da internet, os programas permitem a troca de arquivos musicais e de outros conteúdos. O internauta não paga nada e as empresas, assustadas, buscam uma forma de regular o mercado

 


Reúne 10 milhões de usuários pelo mundo. As gravadoras tentam na Justiça tirar o site do ar. Mas só o que conseguiram até agora foi torná-lo ainda mais famoso

Uma espécie de upgrade do Napster, pois não requer um site com códigos para a troca de música. Não há sentença judicial que barre seu uso

Possibilita a troca de filmes, fotos e texto. É a prova de que não são apenas as gravadoras que devem encontrar uma forma de vender seus produtos na rede

 

 

 

 

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