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A nova guerra mundialOs combates on-line com múltiplos jogadores colocam em confronto gamemaníacos de todo o planeta
Edson
Rossi*
Sabe aquela questão quase filosófica de o homem vencer a máquina? Ela acaba de ser enterrada, no mundo dos jogos eletrônicos. Bom mesmo, agora, é derrotar outra pessoa. Depois de passar anos oferecendo inimigos controlados por computador ou consoles, a nova geração de games se baseia em comunidades virtuais, os chamados jogos on-line. Neles, é possível enfrentar adversários reais, como seu melhor amigo, um primo chato que mora longe ou um estudante francês. "Já dei pau em gente do mundo inteiro", comemora o paulistano Rafael de Agostini Ferreira, 21 anos, programador de computadores adepto das batalhas virtuais. Para entender esse universo, é fundamental saber a diferença entre o que são jogos multiplayer e jogos on-line, conceitos que confundem os próprios gamemaníacos. Exemplos podem tornar a coisa mais clara. Uma corrida disputada no mesmo videogame por dois jogadores entra para a categoria multiplayer. On-line são os jogos disputados simultaneamente em equipamentos diferentes. Na primeira opção, você divide, compartilha com seu adversário a tela da TV em que está conectado o console. No on-line cada um tem seu equipamento, o espaço do jogo fica mais confortável e a brincadeira, muitíssimo mais interessante. Cada jogador dispõe de seu próprio monitor (tela), e a qualidade gráfica do game e a velocidade de resposta dos comandos são muito superiores. O realismo da disputa também aumenta, pois os pilotos não estão em contato, a não ser no plano virtual. O requisito para se divertir nessas batalhas on-line é ter computadores em rede de preferência, máquinas bem turbinadas (veja quadro) ou uma conexão via internet. Por serem muito mais excitantes, as partidas on-line explodiram entre usuários de PC. Sites como Battle.Net (http://www.battle.net) e Zone, da Microsoft (http://www.zone.com), são referências para jogadores do mundo inteiro. Neles, os competidores têm salas para bate-papo, troca de dicas e briefing, em que combinam regras sobre como a batalha será disputada. Você pode jogar isoladamente ou se aliar a outras pessoas. "A grande vantagem das batalhas on-line é sair do bairro", resume Agostini. Modéstia. Por sair do bairro deve-se entender pegas intercontinentais. Ele próprio esteve num site para aventurar-se em X-Wing, simulador de vôo em que cada jogador pilota uma nave espacial. Antes de a partida começar, durante o bate-papo com seus outros três oponentes, Agostini descobriu que enfrentaria dois americanos e um alemão. Os americanos começaram, então, a ridicularizar em inglês o piloto brazuca. "Quando eles perguntaram se aqui, no meio da selva, havia computador, o alemão tomou minhas dores e a gente passou a perseguir os gringos até exterminá-los", festeja.
Trata-se, porém, de uma luta até certo ponto desigual para os brasileiros o que não é novidade. Com conexões mais velozes e computadores mais bem equipados, qualquer morador do interior de Iowa, nos Estados Unidos, tem condições técnicas melhores que as de um porto-alegrense que depende das redes de telecomunicação nacionais em evolução, mas ainda distantes da qualidade ideal. Nas disputas, são freqüentes os lags, quando cai a transmissão de dados. Nessas ocasiões, o gamemaníaco é obrigado a aguardar a imagem recarregar na tela e, dependendo do que estiver jogando, quando isso ocorre ele pode estar morto ou muito distante de seu oponente. Integrar gente do mundo inteiro em jogos on-line com condições de disputa equilibradas exige também certas regras de comportamento, o manual de etiqueta dos gamemaníacos. Uma dessas regras é separar os que jogam limpo dos cheaters os trapaceiros, que costumam usar códigos para modificar seus personagens, tornando-os indestrutíveis ou donos de munição inesgotável.
A mania por jogos on-line multiplica-se no Brasil, onde existem, hoje, cerca de vinte lojas especializadas. São locais equipados com computadores em que as pessoas pagam um valor por hora e se enfrentam em rede. Sunami Chun, 24 anos, pioneiro nesse segmento, é dono de quatro lojas em São Paulo três na capital e uma em Campinas. Em um de seus endereços, a freqüência está próxima a 2.000 pessoas por mês. "A diferença entre jogar sozinho e numa batalha on-line é a mesma de estar numa banheira de hidromassagem ou numa piscina cheia de amigos", compara Chun. Opção até pouco tempo atrás restrita a computadores, o modo on-line começa a invadir também o espaço dos videogames. Quem mais aposta nesse segmento é a Sega, que fabrica o Dreamcast. Lançado há dez meses no Brasil, teve 20.000 unidades vendidas por aqui. Como o console permite conexão por modem, os donos de Dreamcast terão como se enfrentar pela internet. Nos Estados Unidos, o usuário do console que se cadastra no portal da empresa, o Sega.Net, ganha o videogame, vendido a 149 dólares. Em troca, ele se compromete a assinar os serviços do site por dois anos, pagando 22 dólares mensais um total de 528 dólares. Por enquanto, o único jogo on-line disponível no Sega.Net é ChuChu Rocket!, uma espécie de pega-ratos eletrônico com 75 fases, que pode ser jogado por até quatro pessoas.
Mas não é com ChuChu Rocket! que o Dreamcast vai conquistar adeptos virtuais. A Sega sabe disso. Até janeiro de 2001 deve sair o jogo Phantasy Star On-Line, um RPG em 3D que promete quebrar as barreiras da língua, pois terá tradução simultânea de textos em seis idiomas. Isso significa que um jogador japonês poderá interagir no game com um colega alemão, cada qual escrevendo em sua língua natal. E o português está nessa? Esqueça. No campo virtual, ainda estamos num mundo à margem. No Brasil, a Sega é representada pela Tec Toy e deve ter um serviço na internet semelhante ao americano. Segundo o gerente de produtos da empresa, Flavio Marinho Ferreira, as negociações com um grande provedor terão de estar concluídas até o fim do ano. Mas os compradores brasileiros de Dreamcast não receberão o console gratuitamente ao assinar o provedor, como os americanos, apenas uma espécie de bônus nas mensalidades. A Sony, outra gigante no mundo dos consoles, armou sua estratégia de assalto aos jogos on-line com o lançamento do PlayStation 2. Mas mesmo no Japão, onde o console começou a ser vendido em março, ou nos Estados Unidos, onde chegará no fim de outubro, a possibilidade de conexão à web somente estará disponível a partir de 2001. A Microsoft, que deve invadir a praia dos videogames com o X-Box, também está de olho grande nas comunidades de jogos on-line. Um caminho sem volta, em que a máquina funciona para fazer humanos interagir no mundo inteiro.
* Edson Rossi, 34 anos, é redator-chefe da revista Ação Games |
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