Saiba o que é melhor para cada idade
e os cuidados que se devem tomar

Roberta Paduan


Antonio Milena
Stéfano, de 10 anos: Turma da Mônica e negócios num leilão virtual


Juliana, 5 anos, ainda não sabe escrever, mas entende bem para que serve o correio eletrônico. Após ligar o computador e pedir à mãe, Mônica Juremeira, que abra o e-mail, ela começa a digitar. Vai falando em voz alta o conteúdo das cartas para os primos que moram na África do Sul. Mônica ouve de longe tudo o que a filha diz para depois fazer a mensagem verdadeira. Após mandar a versão ininteligível, a mãe faz um novo e-mail, explicando o que Juliana queria, de fato, dizer. "Ela quer ver a cartinha voando na tela", conta Mônica. Fábio, o mais velho, de 8 anos, descobriu na rede uma mina de jogos gratuitos. Também escreve para o primo de 10 anos que vive em Pretória, a capital sul-africana. "Quero saber em que fase do game boy ele está", explica. A rede é algo tão familiar para o garoto que, além dos sites mais conhecidos, como Cartoon Network, Turma da Mônica e FoxKids, ele testa endereços por pura curiosidade. Um dia, comendo uma bolacha, viu o endereço www no pacote. "Quando entrei, descobri várias brincadeiras", diz Fábio.

É fácil entender por que a garotada anda grudada no computador. A web se tornou um enorme parque de diversões digital. As iscas são tentadoras: gibis virtuais, trailers de filmes, histórias animadas, rádios, novelinhas e até noticiário infantil, sem contar os jogos, muitos jogos. Na rede, os heróis da TV e das revistinhas em papel ganham vida multimídia – sons, movimentos e brilho. Melhor de tudo é que estão à disposição a qualquer momento e quase de graça. É aí que começa a confusão e é também onde devem entrar os pais. O que uma criança pode e não pode fazer na internet? O que é bom e o que não é? "Os pais têm papel fundamental nessa orientação, tanto para ajudá-los a navegar quanto para ensiná-los a selecionar bom conteúdo", diz a pedagoga Silvia Fichmann, especialista em tecnologia aplicada à educação e coordenadora das equipes consultivas da Escola do Futuro da Universidade de São Paulo (USP).


Laerte


Existem limitações para o uso da internet pelas crianças não alfabetizadas. Mesmo assim, há uma infinidade de atividades para elas. Para as crianças entre 3 e 5 anos, são indicados os sites que ofereçam livrinhos de histórias com imagens grandes e pouco texto, bem como aqueles que permitam desenhar e pintar na tela ou ofereçam desenhos para colorir depois de impressos. Nada cujo grau de dificuldade seja tão grande que possa frustrar os internautas mirins. Os vídeos curtos também atiçam a curiosidade da meninada, que, nessa idade, não tem paciência para atividades muito longas, nem para visitar sites que demoram a carregar as páginas. Esses simples passatempos servem para enriquecer a linguagem verbal e ampliar o vocabulário, explica Fichmann.

Os jogos de encaixe, labirinto, quebra-cabeças de peças grandes e liga-pontos são encontrados em abundância na internet e altamente recomendados para essa faixa etária. O melhor da história é que, se praticadas no computador, essas atividades tendem a apurar a percepção visual, a orientação espacial e a coordenação combinada dos olhos e das mãos. Para se ter uma idéia da importância desse tipo de estímulo, é o desenvolvimento da percepção visual, por exemplo, que permitirá à criança diferenciar o "b" do "d" na fase de alfabetização. Já a orientação espacial e a coordenação de olhos e mãos permitem que uma pessoa na fase adulta saiba onde estacionou o carro depois de passear num shopping center e seja capaz de colocar uma colher de açúcar no bocal estreito de uma mamadeira sem fazer sujeira. É claro que essas habilidades podem ser desenvolvidas de outras maneiras, como ocorria antes da internet, mas os recursos da rede tendem a apurá-las. Quando a criança pilota o computador utilizando o mouse e a tela, é uma operação complexa de relacionamentos que se estabelece. Uma coisa é riscar o papel com o lápis ou montar um jogo de encaixes, onde tudo está fisicamente em contato. Outra é controlar objetos representados na tela, movimentando o mouse sobre um suporte que está em outro plano. As crianças rapidamente descobrem essas relações e comandam a seta do mouse com maestria.


Joel Rocha
Fábio e Juliana: e-mails diários para os primos na África


Depois de alfabetizadas, dos 6 aos 10 anos, as crianças já começam a buscar informações, movidas por interesses específicos, como hobbies, por exemplo. Nessa fase, interessam-se ainda por videogames, que podem ser jogados em rede com outras crianças. É o que faz o garoto Stéfano Pereira dos Santos Arpassy, de 10 anos. Ele não só procura sites de jogos eletrônicos como é assíduo freqüentador de endereços de esportes, especialmente de tênis, modalidade que vem praticando há um ano e meio, inspirado pelo ídolo brasileiro Guga. Não pára por aí. Recentemente, depois de ouvir um comercial de leilão virtual, teve a idéia de vender um livro que havia comprado e não lhe agradou muito. "Estou juntando dinheiro para comprar uma raquete nova", conta Stéfano, que adorou o fato de o leilão virtual não cobrar nenhuma taxa.

Stéfano deu os primeiros passos na web aos 7 anos, com a ajuda do pai, e hoje é o principal usuário do computador da casa, gastando cerca de uma hora e meia todos os dias na rede, tempo que inclui pesquisas escolares. Os pais falam com orgulho do interesse do filho pela internet, mas ficam atentos às demais atividades do garoto. "A internet não é tudo. Dizemos a ele para ler livros e revistas reais e praticar esportes", diz o pai, Ricardo Arpassy. Esse tipo de atitude é importante. "A internet não pode substituir brincadeiras como o futebol, a amarelinha ou o esconde-esconde", afirma Lídia Weber, psicóloga e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR). "É com o grupo que eles aprendem a negociar, dividir, perdoar, fazer amigos e a expor suas opiniões." Lídia ressalta, porém, o que considera um dos aspectos positivos da internet para o desenvolvimento infantil – o estímulo ao pensamento não linear. "A criança depara com situações em que tem de saber selecionar o que quer. Por exemplo, quando encontra um hiperlink que a leva a outras páginas da internet. Nessa exploração, ela tem de desenvolver a capacidade de comandar o pensamento, saber avançar pelas páginas e voltar ao ponto de origem. É um exercício que ensina a lidar com as variações do mundo."

Dos 10 aos 12 anos, com a alfabetização mais avançada, é comum que as crianças passem a ter mais interesse em se comunicar com outras. Nessa fase, começam as ondas de cartões virtuais, e-mails, ICQ e salas de bate-papo. "É aí que mora o perigo", diz Silvia Fichmann. "Esse é o momento em que os pais têm de prestar mais atenção." Na internet não há como saber se, do outro lado da linha, são realmente crianças que estão participando de um bate-papo. A velha orientação de não falar com estranhos continua valendo nesse bosque virtual. O espaço é outro, mas a criança continua tendo de ser preservada e protegida. Os pais precisam orientá-la a não dar informações pessoais, como o endereço de casa ou da escola, e jamais comunicar números de documentos ou de cartões de crédito. Proibir não é uma boa solução, até porque privaria as crianças de utilizar esse meio que, além de estimular a integração com outras da mesma idade, contribui para o desenvolvimento da comunicação escrita. O ideal, recomendam os educadores, é que elas participem de chats em que há mediadores e sejam promovidos por instituições conhecidas, como escolas, associações ou programas de televisão, por exemplo.

É preciso também cuidar de outro perigo. "Os chats e os jogos podem até levar ao vício", diz a psicóloga Lídia Weber. O problema costuma ser desencadeado quando a criança está passando por crises de auto-estima, de relacionamento com os colegas, pais, ou quando simplesmente não tem com quem sair. Ela pode querer testar sua capacidade de fazer amigos virtualmente e daí se prender a esse tipo de relacionamento, perdendo o interesse por relações reais. É preciso limitar o uso do computador, especialmente se o pai percebe que a criança começa a cometer exageros. Se ela recusa convites para festas e para brincar com os amigos porque está na internet, fique alerta. Há casos em que a prática também começa a justificar menos horas de sono e atrapalha até os estudos. Esse tipo de comportamento exagerado pode ser um indício de que algo vai mal. "Não há como estabelecer o tempo ideal de permanência de uma criança na internet, mas existe uma regra geral: elas devem ter atividades diversificadas", ensina Yves De La Taille, do Instituto de Psicologia da USP. "Devem ter tempo de brincar com os amigos, ler livros, praticar esportes, ver televisão e fazer as tarefas de casa."

O equilíbrio é uma das condições essenciais para uma vida saudável. Na opinião do psicólogo, embora seja recomendável que todas as crianças tomem contato com essa nova forma de comunicação, é preciso ter em conta que os meios eletrônicos, como a internet e a televisão, são muito individualizantes. Geralmente transmitem muita informação, mas dão pouco espaço para as pessoas se expressarem. Por isso, os pais devem sempre estimulá-las ao diálogo, perguntando tanto sobre as pesquisas quanto sobre as brincadeiras que fizeram na rede. "Elaboramos melhor o conhecimento quando temos de explicá-lo", diz De La Taille.

O estímulo para que as crianças caiam na rede com tudo deve continuar crescente, com a criação de novos endereços e opções de atividades. Os provedores de conteúdo têm grande interesse nisso, porque perceberam rapidamente que as crianças são uma força econômica. "Embora não sejam donas do dinheiro, elas influenciam as compras da família", diz Sérgio Rodrigues Ferreirinho, gerente do ZipKids, canal infantil do portal Zip-Net.

 
Disney/Maurício de Sousa

 

 

De olho na postura

Geralmente são as crianças que se adaptam ao ambiente dos adultos na hora de usar o computador, mas esse improviso pode trazer danos à saúde dos pequenos. Fique atento se elas estão navegando de maneira confortável.

A cadeira tem de estar regulada numa altura adequada: os pés devem ficar apoiados no chão e o joelho, em posição de 90 graus, nunca mais alto que o quadril. Se preciso, improvise um apoio para os pés.

O ideal é que a cadeira seja vazada ou tenha uma curvatura na região entre o assento e o encosto. As nádegas se encaixam nesse espaço e a região lombar, no encosto. Isso faz com que a criança mantenha o tronco ereto.

O monitor tem de ficar na altura dos olhos, para que a criança não curve o pescoço para cima ou para baixo.

Evite que a criança permaneça mais de uma hora diante do computador sem fazer intervalos de pelo menos dez minutos, especialmente em atividades como jogos, que exigem manipulação mais intensa do teclado ou do mouse. O uso prolongado pode causar inflamação dos tendões.

O mouse deve ficar a uma distância em que a criança consiga apoiar o cotovelo no braço da cadeira, sem que tenha de se inclinar para a frente.

 

 

 

 

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