O livro sem papel

Os livros digitais chegam à web e o desafio agora
é convencer os leitores a experimentar a novidade
e descobrir as vantagens do novo formato

Elen Peterson

Para quem gosta de suspense, uma dica é acompanhar os passos do escritor americano Stephen King pela internet. King ficou famoso com suas histórias, que já renderam 56 livros e alguns roteiros de cinema, como Carrie, a Estranha e O Iluminado. Ficou rico também. Com tanta competência, está em sétimo lugar na lista dos milionários ligados ao mundo do entretenimento da revista Forbes. Pois bem, o escritor resolveu brincar com seu público e lançou-lhe um desafio. Colocou no ar um capítulo do livro The Plant (www.stephenking.com) para quem quiser copiá-lo e propôs que os leitores que baixarem o arquivo paguem 1 dólar por capítulo. No total, serão oito capítulos e o preço aumentará à medida que a história se aproximar do desfecho. Com um porém. Novos episódios só entram na rede se a venda dos dois capítulos iniciais atingir um número mínimo de compradores. Poderia ficar tudo na conta da esquisitice e do marketing, não fosse King a estrela que é e se o mercado editorial não estivesse numa encruzilhada. A questão: o que vai mudar no mundo dos livros agora que é possível chegar aos leitores sem gastar papel nem tinta, por via digital? King resolveu testar os novos meios à sua maneira.


Egberto Nogueira
No Brasil, Mário Prata escreve seu policial ao vivo e com a participação dos internautas


A experiência com The Plant levanta muitas das incógnitas que estão colocadas para o mercado editorial em torno dos livros eletrônicos ou e-books. Eles vão substituir os de papel? Ainda há bastante resistência por parte dos leitores, que consideram desconfortável a leitura de páginas rolando na tela. É uma questão que pode ser resolvida com tecnologia e com tempo para que as pessoas se habituem. Outro ponto crucial é o preço que será cobrado pelas obras digitais. Seria de supor que, livres da produção industrial, dos custos de distribuição física e com a ampliação da escala de venda, graças à facilidade criada pela rede, os livros digitais tivessem preços mais acessíveis que seus predecessores em papel.

A adesão de escritores de peso como King, que tem fãs-clubes nos quatro cantos do mundo, é importante para convencer os consumidores a experimentar a novidade. Por seu tamanho, a operação também funciona como um termômetro para saber quanto os leitores internautas estão dispostos a pagar por ela. Numa primeira experiência, em março, King lançou pela rede – por intermédio de suas editoras – uma história curta de 66 páginas, intitulada Riding the Bullet. Vendida por 2,50 dólares, ela fez um estrondoso sucesso. Foram realizados 400.000 downloads do livro em dois dias. Com The Plant, a operação é mais complicada porque os capítulos são vendidos separadamente, e o custo final se aproxima muito do que se pagaria pelo livro numa livraria. Os três primeiros serão vendidos a 1 dólar cada, para viciar o cidadão, e os cinco últimos sairão por 2,50 dólares cada. Já foram baixadas mais de 150 000 cópias e quase 80% delas foram pagas.

Folhetim reinventado Quando questionadas sobre o que acontecerá com os preços, as editoras despejam água fria sobre a expectativa dos leitores. Os principais gastos com as obras, alegam, não são com papel nem com escritores, e sim com marketing e propaganda. Estes vão continuar altos, com ou sem internet. Além disso, a transposição dos livros convencionais para o formato digital exige também algum trabalho. Enfim, dizem, pode-se esperar que os livros fiquem mais baratos, mas não muito. "Entre 20% e 25%", arrisca a diretora de produção da Companhia das Letras, Elisa Braga. Para compensar um pouco o desapontamento, o público pode ter boas notícias em relação ao conteúdo. Com o formato digital, obras que não alcançariam tiragens economicamente viáveis terão mais chance de chegar ao mercado. O mesmo vale para títulos esgotados ou raros que poderão retornar mais rápido a livrarias e bibliotecas.

As revoluções tecnológicas surpreendem, muitas vezes, não pelo que trazem de novo, mas pelas coisas que ressuscitam. No caso do livro, o que Stephen King está fazendo é reinventar o folhetim – as histórias publicadas em capítulos em jornais e revistas. No Brasil, alguns escritores e editoras estão fazendo também suas experiências. O mais radical deles é Mário Prata, que está escrevendo o policial Os Anjos de Badaró ao vivo na web, com a participação dos leitores (marioprata.terra.com.br). Uma minicâmara de vídeo instalada em seu escritório permite que os internautas acompanhem, minuto a minuto, as expressões do escritor enquanto traça o destino de seus personagens. Ao mesmo tempo, na tela, vai-se lendo a história à medida que é digitada, acompanhando, graças a um software especial, cada palavra escrita, apagada e reescrita pelo autor. Os Anjos de Badaró atrai 2 500 visitas por dia e quase o dobro de mensagens sugerindo idéias para o livro. A repercussão foi tanta que alguns internautas montaram o site Os Anjos do Prata. Lá, encontra-se um chat para discutir o livro e seu autor e até rádios, uma com a trilha não oficial da obra e outra com os palpites dos leitores. Apesar de o escritor garantir que a estrutura da história está pronta e ninguém mete a colher, a pressão dos leitores já conseguiu evitar a morte de um dos personagens. "Eles são responsáveis por 20% do livro", admite o autor.

O livro eletrônico talvez faça o leitor sentir saudade das obras em papel. O computador ou os aparelhinhos que estão sendo criados para leitura de e-books não são capazes de reproduzir, por exemplo, o prazer táctil de manusear um volume impresso em papel-bíblia e encadernado em couro. Em troca, os novos formatos abrem uma avenida de possibilidades a ser exploradas. Os leitores portáteis, que estão ainda na primeira geração, são menores que um único livro e podem conter uma biblioteca inteira. Neles é possível aumentar o tamanho das letras, fazer anotações digitais e buscar palavras com uma ferramenta de localização – útil, por exemplo, quando você quer encontrar a primeira aparição de um personagem. Alguns livros vêm com dicionários acoplados. Clica-se uma palavra e vem o verbete com seu significado.

"O livro eletrônico vai substituir o atual", radicaliza Victor Kupfer, diretor-geral da iEditora, de São Paulo. O mais provável é que os dois formatos continuem convivendo, cada um em seu espaço específico. Nada impede que, com o surgimento da versão digital, os livros de papel também acabem se tornando um produto mais barato e popular. Quem vai ditar a história, nesse caso, é o próprio mercado.

 

A aposta da Amazon na pottermania

Não é por obra do acaso que a Amazon se tornou a maior e mais famosa livraria virtual do mundo. Seu chefão, Jeff Bezos, é um especialista quando se trata de fazer barulho. Sua última façanha foi pegar carona no sucesso de Harry Potter – o personagem de histórias infantis criado pela inglesa J.K. Rowling, cujos três primeiros episódios venderam 30 milhões de livros. Para o último lançamento da série – o volume Harry Potter e o Cálice de Fogo –, em 8 de julho, Bezos montou uma operação maluca. O objetivo era fazer com que o livro chegasse na mesma manhã às mãos dos 250 000 leitores que o haviam encomendado previamente à Amazon. Era uma operação arriscada e cara. A Amazon se saiu bem na prova. "O retorno do investimento será a atração de novos clientes", afirma Ivo Godoy, vice-presidente da consultoria A.T. Kearney. "Foi uma sacada genial."

O barulho custou uma nota. Para atrair o público para suas prateleiras eletrônicas, a livraria vendeu o exemplar por menos de 16 dólares, o que embutia um desconto de 40%. Além de assumir o compromisso da entrega com hora marcada, ela não cobrou pelo frete. A entrega foi dificultada pelo fato de a editora proibir a abertura das caixas de livros antes do primeiro minuto do dia do lançamento. A Amazon mobilizou 9 000 caminhões para a distribuição dos exemplares. Os clientes ficaram satisfeitos. Para os acionistas, a alegria vai chegar quando a Amazon sair do prejuízo.

 

 

 

 

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