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Estampadas na rede, as reclamações
fazem barulho e ajudam a resolver
problemas que pareciam insolúveis

Renata Costa e Tatiana Peres


Ricardo Benichio
Analice Saran: bronca contra o fabricante no site Reclame & Ame valeu um novo CD-player


O carioca Fabiano Moreira de Pinho mal havia comprado seu Fiat Palio zero-quilômetro quando precisou retornar à concessionária para corrigir um problema no veículo. Alegando falta de peças, a loja demorava a providenciar o conserto. O problema só foi resolvido depois de um e-mail. Não para a revenda nem para a fábrica, mas para o site Reclame & Ame (www.reclama.com), um dos muitos endereços que a internet brasileira oferece para consumidores dispostos a fazer reclamações, sugestões ou mesmo elogios a produtos e serviços. "Um executivo da Fiat leu a reclamação no site, ligou para mim e cuidou pessoalmente da solução do caso", conta Fabiano. Depois da experiência, ele adotou como regra, antes de adquirir um produto, dar uma espiada na internet para conferir críticas e elogios a respeito do que está comprando.

O Reclame & Ame abrigou também a bronca da paulista Analice Saran. O CD-player Gradiente que ela comprou em agosto de 1999 já saiu da loja com defeito. O problema continuou mesmo depois que o produto foi trocado duas vezes. Antes de "colocar a boca na internet", Analice ligou e mandou e-mail para o Serviço de Atendimento ao Cliente da empresa. Quase um mês se passou e nenhuma solução. Depois que a queixa foi estampada no site, o fabricante tomou uma providência definitiva: trocou o aparelho por outro de preço superior, sem cobrar a diferença.

Fabiano e Analice fazem parte de um contingente cada vez mais numeroso de consumidores que descobriram a internet como canal eficiente para fazer valer seus direitos. "As empresas têm medo de ver as queixas expostas na rede", acredita Analice. "A repercussão das reclamações é muito grande", diz Fabiano. A professora de física Liliane Cunha, criadora do Reclame & Ame, concorda. É ela quem analisa pessoalmente as cerca de setenta mensagens que chegam por dia ao site. As empresas citadas são avisadas por Liliane e ganham direito de resposta. Na rede desde 1997, o Reclame & Ame recebe perto de 500 acessos por dia, segundo sua idealizadora. "O site surgiu da insatisfação do consumidor de não ter onde expor suas reclamações, o que o coloca numa situação de inferioridade", diz Liliane.


Renan Cepeda
Fabiano Pinho: reclamação na internet chegou à direção da Fiat, que resolveu o problema


Queixas e merchandising
O endereço do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, Idec (www.idec.org.br), consolidou-se como o grande ponto de encontro virtual para clientes insatisfeitos. Apenas no primeiro trimestre deste ano, foram 12.071 contatos e 4.186 consultas. Os campeões das dúvidas – e da ira – dos internautas são planos de saúde, empresas de telefonia, seguradoras e bancos. As reclamações por e-mail já correspondem a 10% do total recebido pelo instituto. O canal preferido ainda é o telefone. Presente em muitas polêmicas envolvendo o consumidor, como a da liberação de alimentos transgênicos no país, o Idec não aceita patrocinadores no site, que se vale das contribuições dos 40.000 associados do instituto e do apoio de instituições, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Conciliar o papel de porta-voz do consumidor com a necessidade de conseguir dinheiro para sobreviver é um dos grandes desafios à credibilidade dos sites de opinião. Liliane Cunha garante que está vencendo esse desafio. O endereço exibe banners de empresas como Varig e Ponto Frio, mas também mostra críticas pesadas de consumidores a essas duas empresas. "O banner não vende infalibilidade do patrocinador, que precisa estar de acordo com o espírito de nosso projeto", diz Liliane. Outras iniciativas na rede indicam a clara intenção de transformar em fonte de receita as polêmicas entre clientes e empresas. No SakoCheio (www.sakocheio.com.br), os visitantes classificam produtos e serviços que os próprios fornecedores podem cadastrar. A navegação pelo site abre espaço para uma espécie de merchandising de quem está sendo avaliado. Nas páginas sobre veículos, há links para os sites das montadoras. Assim como faz pesquisas antes de comprar, o consumidor precisa navegar por vários endereços antes de escolher em qual deles vai cravar sua queixa.

Com menos bronca e nenhuma publicidade, o Defesa do Consumidor (www.defesadoconsumidor.adv.br) é centrado em informação. Advogados que assessoram o Movimento das Donas-de-Casa e Consumidores de Minas Gerais respondem a uma média de cinqüenta dúvidas por mês, oferecem farto repertório de leis sobre direitos do consumidor e relatam casos que foram parar na Justiça e acabaram favorecendo os clientes. No Defesa do Consumo (www.defesadoconsumo.com.br), o advogado Firozshaw Rustomgy também tira dúvidas dos visitantes.

Do lado das empresas, a idéia dos sites de opinião nem sempre é muito bem-aceita. A Fiat, por exemplo, acha que esses endereços podem distanciar o comprador dos canais de atendimento dos próprios fabricantes. Essa não é a opinião da Gradiente. Mesmo com um site para atender internautas, a fabricante de eletroeletrônicos acredita que, quanto mais opções, melhor. "Todo canal que propicie o estreitamento das relações com o cliente é bem-vindo", afirma o diretor de atendimento ao consumidor da empresa, Ricardo Quintana. "Uma máquina com defeito é algo até compreensível. O que as pessoas não aceitam é quando o problema não é resolvido." É bom que as empresas pensem dessa forma, se não quiserem sair arranhadas no embate com esse novo tipo de consumidor – conectado com a internet e com seus direitos.

 

O caminho da bronca

Confira endereços em que você pode buscar apoio para defender seus direitos

Reclame & Ame: www.reclama.com

Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec): www.idec.org.br

Defesa do Consumidor: www.defesadoconsumidor.adv.br

Defesa do Consumo: www.defesadoconsumo.com.br

SakoCheio: www.sakocheio.com.br

 

 

 

 

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