| |
Virtuais
e muito frios
Numa
mistura de brincadeira e malandragem, sites americanos se especializam
em falsificar documentos, diplomas e licenças. "Comece uma nova
vida", dizem
Tatiana Peres
A internet tem suas vielas e becos escuros. Você está surfando
por aí e, de repente, depara com uma mensagem aparentemente bem-intencionada:
"Se você é alguém que está precisando de uma
segunda chance na vida, este livro foi feito para você. Não
importam os erros cometidos no passado. Se os seus problemas antigos estão
deixando você para trás, pegue este livro e comece uma nova
vida". Não, não se trata de um livro que vai tentar levá-lo
ao bom caminho, nem de uma dessas obras de auto-ajuda com dicas sobre
como se dar bem no campo profissional ou como fazer amigos. O livro, distribuído
pela Morphiss Press (www.morphiss.com),
traz instruções sobre como criar uma nova identidade. Também
não se trata de uma abordagem psicológica, mas de um kit
falsifique-você-mesmo-seus-documentos. É uma das pragas que
nascem nos cantos mais úmidos da internet, especialmente nos Estados
Unidos, e já começa a preocupar as autoridades americanas.
Como esse, existem variados sites oferecendo caminhos diversos para obter
diplomas, licenças de motorista, carteiras e passaportes, todos
falsos. Podem até ser tratados como brincadeira, se forem usados
privadamente. Mas também podem ser uma passagem para a cadeia,
se servirem para engambelar alguém ou propiciar vantagem.
O
livro da Morphiss promete um pacote completo de falsidades. Os donos do
site explicam que não se trata apenas de conseguir um novo ID,
como os americanos chamam a identidade oficial, mas de todo o séquito
de documentos que dão existência burocrática às
pessoas: certidão de nascimento, inscrição na assistência
social e licença de motorista. Junto com as explicações,
o freguês recebe um jogo de dezesseis modelos de carteira para montar
e ganhar "uma nova, real e estável identidade". O interessado pode
obter tudo por 60 dólares se tiver coragem de enviar dinheiro de
verdade pelo correio "as empresas de cartão de crédito
não gostam de nós", explica o site. Outros endereços
oferecem produtos semelhantes. Alguns são especializados em diplomas.
Em www.false-id.net
há um menu de 35 universidades, com os respectivos códigos
do produto e o preço. Estão lá Harvard, Yale e Columbia,
por preços que variam entre 280 e 290 dólares. Há
também uma linha de carteiras de estudante que podem ser adquiridas
por 40 ou 50 dólares. "Graças à alta qualidade, as
identidades desse site são de longe as mais realistas do mundo",
garantem os falsários. Aliás, é o que todos dizem,
para valorizar a picaretagem.
Os
falsificadores também têm senso de humor. "Se você
nos fornecer uma carta oficial assinada de algum departamento de polícia
afirmando que nossas licenças de motorista internacional não
são válidas, nós lhe devolveremos o dinheiro", diz
www.drivelegal.com.
Acredite se quiser. Numa das brincadeiras, próprias de quem está
acostumado a desafiar a lei, um dos sites enviou um e-mail promocional
de documentos falsos para o Subcomitê de Investigações
do Senado americano. A mensagem chamou a atenção da presidente
do órgão, Susan Collins. Ela acredita que a internet tenha
dado condições para que esse tipo de negócio atingisse
fronteiras muito maiores que antes. Por isso, a senadora resolveu entrar
numa investigação aprofundada desses sites. O objetivo é
levantar material para sustentar uma proposta de mudança nas leis
referentes ao uso de documentos falsos. A pena prevista para quem apresenta
documentos frios é de três a 25 anos de cadeia. No Brasil,
quem for pego usando documentação falsa pode pegar dois
anos de `risão.
Casa
nas Bahamas Segundo o delegado-chefe do Setor de Investigação
de Crimes de Alta Tecnologia e Meios Eletrônicos em São Paulo,
Mauro Marcelo de Lima e Silva, não há notícia de
sites desse tipo operando no Brasil. "É um fenômeno mais
americano", diz. Nos Estados Unidos, as falsificações originadas
na internet estão se tornando uma prática disseminada demais
para o gosto das autoridades. As regras também não permitem
coibir a hiperatividade dos falsificadores na internet. Em princípio,
não há nenhum delito em fazer documentos de mentira ou oferecer
esse serviço aos internautas. O crime só fica configurado
se alguém tentar usar esses papéis como se fossem verdadeiros.
Muitos adolescentes usam esse expediente para brincar e passar trotes.
Mas há também os meliantes interessados em passar a perna
nos outros ou na polícia. Em Dallas, no Estado do Texas, o Departamento
de Polícia costuma apreender mais de 1 000 documentos falsos por
ano. E isso é considerado uma migalha perto do volume de identidades
falsas existente. Muitas delas, por serem idênticas às reais,
dificilmente são detectadas em estabelecimentos como bares, onde
os jovens usam os documentos para se passar por maiores de idade.
A
enxurrada de documentos falsos se explica pelas facilidades criadas com
a rede e seria engraçada se ficasse apenas no plano da piada. No
Drivelegal (www.drivelegal.com),
por 350 dólares o site promete enviar-lhe uma licença de
motorista e dá recomendações para o caso de você
ser parado pela polícia: "Você tem de dizer para o agente
que possui uma casa nas Bahamas e está aqui a trabalho". No Photo
ID (www.photoidcards.com),
vendem-se por valores que vão de 30 a 100 dólares carteiras
da polícia nova-iorquina e até da famosa Swat. É
um convite à confusão. Pode ser que ela seja tão
grande que você finalmente precise de um manual oferecido num dos
sites de falsários "99 maneiras de desaparecer". É
vendido por 29 dólares e 99 centavos no newid.ultramailweb.com.
|
|