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muitas das pequenas cidades do interior do Cristiane Guerrera Nova Mutum ou Nova York, não importa. Uma vez conectada à internet, qualquer região do planeta se torna uma digna integrante da aldeia global, com todos os direitos à informação e às facilidades da vida digital. Um passeio pelas novas fronteiras da rede, onde ela é uma novidade recém-chegada, ainda olhada com desconfiança e curiosidade, mostra uma revolução em andamento. De Nova Mutum, cidadezinha de 8 000 habitantes no norte de Mato Grosso, o agricultor Sérgio Nogueira, 54 anos, abre o computador para consultar as cotações da soja e do algodão nas bolsas de mercadorias internacionais. Ali, as edições em papel dos jornais de São Paulo chegam com quatro dias de atraso, não há lista telefônica e fazer uma ligação internacional ainda é muito complicado. A internet implodiu as dificuldades. "Com as informações que consigo na rede, agora sou eu quem toma a iniciativa de fazer negócios", diz Nogueira. O acesso à internet é feito pelo BigMail, um pequeno provedor regional, que tem 260 assinantes e atende a cinco cidades vizinhas. De norte a sul do país, a internet começa a entrar no cotidiano de moradores das localidades mais remotas e inacessíveis. Pesquisas do Ibope mostram que existem 4,8 milhões de brasileiros conectados à web nas nove principais regiões metropolitanas do Brasil São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Recife, Fortaleza, Salvador e Brasília. Esse número equivale a cerca de 13% da população maior de 10 anos, considerada pelos pesquisadores a potencial usuária da internet. Ninguém pesquisou a quantidade de internautas no interior, mas estima-se que esteja entre 2 e 5 milhões de pessoas incluindo aí cidades de médio porte, como Londrina, no Paraná, Ribeirão Preto, em São Paulo, e Uberlândia, em Minas Gerais. Como não têm acesso aos grandes portais, muitas comunidades menores estão montando os próprios serviços, o que faz com que haja uma multiplicação do número de pequenos provedores de internet. Eles representam a metade dos cerca de 1 000 existentes no Brasil. Ainda assim, pelos cálculos da Associação Nacional dos Provedores de Internet (Anpi), nem 10% das 5 549 cidades brasileiras possuem serviço de internet próprio. Mas isso pode mudar radicalmente, segundo a geógrafa Claudette Junqueira. "Em pouco tempo, o acesso não vai depender mais de um provedor", diz ela. "Logo será possível se conectar à internet pelo celular ou pela TV. Isso significa que, dentro de cinco anos, todos os municípios brasileiros poderão estar na rede." Floriano, cidade de 50 000 habitantes às margens do Rio Parnaíba, no sul do Piauí, já está. O único provedor de acesso existente ali foi criado pelo engenheiro e professor Francisco Demes, que vendia equipamentos de informática e pagava muito caro por uma conta na capital, acessada por interurbano. "Decidi eu mesmo lançar uma operadora", conta. A empresa funciona há quase dois anos, tem cerca de oitenta assinantes e atende também ao município vizinho, Barão de Grajaú, que pertence ao Estado do Maranhão. Giovana Maria de Carvalho, 31 anos, dona de um posto de gasolina, foi uma das primeiras a aderir ao serviço. "O acesso ficou mais barato agora", diz ela, que assinava um provedor de Teresina. A chegada da internet sacode as pequenas cidades e traz novos hábitos. É o caso de Oriximiná. O município fica a quatro dias e meio de barco de Belém e vive da extração de bauxita, da agricultura de subsistência e da pesca. O transporte é feito pela rede fluvial, cuja principal artéria é o Rio Trombetas, afluente do Amazonas. Desde outubro do ano passado, instalou-se no local um provedor de internet, mantido pela Fundação Ferreira de Almeida, organização sem fins lucrativos ligada a um grupo madeireiro da região. O de Oriximiná tem mais de oitenta usuários. É o único que oferece acesso à internet entre as cidades da margem esquerda do Rio Trombetas, como Terra Santa e Óbidos. Com o provedor, os moradores da região ganharam também um site, batizado de Orinet, que se dedica a divulgar informações sobre o local. "Para a nossa pequena cidade, a internet abriu uma grande janela de onde podemos ver o mundo", afirma Francisco Florenzano, 40 anos, dono de supermercado. Antes de seu advento, o município possuía apenas trinta microcomputadores. Agora, são mais de 200 quase sete vezes mais. É pouco para uma comunidade de 43.000 habitantes, mas que salto! Preocupada com seus cidadãos mirins, a prefeitura negociou com empresas locais a instalação de computadores em pelo menos doze escolas públicas. Plugar a cidade na internet significa declarar a independência do acesso à informação. Em Malacacheta, no polígono mineiro das secas, não há uma única banca de jornal para atender os 20 000 moradores da cidade. Mas ali já existem cerca de 100 internautas conectados à rede. Na maioria, são pessoas ligadas ao comércio. Como não existe provedor local, elas fazem o acesso pelas operadoras da vizinha Teófilo Otoni, situada a 85 quilômetros de Malacacheta e a 446 de Belo Horizonte. Os pequenos comerciantes de Malacacheta foram os principais agentes da modernidade no caso da internet. Eles tinham interesse em consultar, pela rede, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), para se garantir nas vendas a prazo, e queriam usufruir as facilidades de comprar de fornecedores pela rede. "Virei ponto de referência na cidade", orgulha-se André Villela, 33 anos, gerente da única agência bancária da cidade, do banco Itaú. "Como as pessoas sabem que estou conectado, sempre me perguntam se há alguma novidade." |
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