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A internet depois do terremoto
A
rede não será mais a mesma
Quem olha o território ocupado pela internet depara, em muitos bairros, com um cenário de terremoto e calamidade. Alguns dos edifícios empresariais vistosíssimos, levantados em tempo recorde, tornaram-se ruínas. Condomínios de negócios promissores têm hoje escombros por toda parte. Homens de idéias que eram admirados como os arautos de um novo mundo, em que a criatividade conta mais que o dinheiro, agora são olhados com desconfiança. Gente novata nos negócios, que era recebida com tapetes vermelhos e tapinhas nas costas por banqueiros, dá com o nariz na porta quando procura os barões do dinheiro. Parece um final triste e sem glória para uma revolução que começou a se desenhar em torno da rede mundial de computadores e que, para muitos, parecia capaz de produzir ouro do nada. Foi nisso que deu a internet? Não, nem tudo veio abaixo depois da queda da Nasdaq, a bolsa de valores americana das empresas pontocom. Ao contrário. A internet está viva. E bem viva. Muita gente acredita que agora é que o jogo vai começar para valer. O que aconteceu nos últimos meses foi uma crise de crescimento, como a que experimentam os adolescentes. Entre março e maio, a Nasdaq emagreceu 2,4 trilhões de dólares, num tombo espetacular de 37%. Os tremores ainda não cessaram, e quem quiser vislumbrar a internet que surgirá dessa crise precisará entender o destino que uniu e levou ao chão tantos negócios coruscantes. O fato é que a locomotiva da revolução tecnológica não parou e a crise está longe de ser fatal. A rede está procurando seu rumo. Houve uma explosão de negócios na euforia inicial. Agora haverá uma depuração. Foi assim também nos primórdios da indústria automobilística. Nos idos dos anos 20 havia 300 montadoras recém-nascidas e ávidas por dominar o mercado nos Estados Unidos. Desde então, o setor cresceu milhares de vezes e o automóvel mudou a face do planeta, mas hoje só três grandes corporações dominam o mercado americano. O que muda na vida de quem está diante do computador conectando seus sites preferidos? Muitos se machucaram, sites saíram do ar, mas os usuários talvez nem percebam o fato, porque a oferta de serviços é enorme. Mas não se deixe enganar. Você também faz parte desse enredo. Uma nova internet começa a se desenhar a partir dos escombros dos visionários e aventureiros da primeira onda. Anote algumas mudanças que vão ocorrer: A internet
veio para ficar, e disso ninguém duvida. Se existe algo realmente
exuberante na nova economia é o crescimento da rede de computadores.
Em 1996, havia aproximadamente 26 milhões de internautas no mundo.
No ano seguinte, já eram mais que o dobro, 55 milhões. Hoje,
são cerca de 240 milhões, e o número deverá
chegar a 550 milhões em 2005. Poucas novidades tiveram crescimento
tão espetacular em tão pouco tempo. O comércio eletrônico
está em franca expansão. Neste ano o movimento global deve
ficar próximo de 600 bilhões de dólares. Segundo
o instituto americano de consultoria Forrester Research, em 2003 essas
transações on-line deverão representar 7,5% do comércio
global. Um relatório de outra empresa, a A.T. Kearney, vai mais
longe e sugere que a cifra poderá atingir 30%, movimentando 2,3
trilhões de dólares. No Brasil, estima-se que as vendas
on-line alcançarão 2,6 bilhões de dólares
em três anos.
Os abalos da Nasdaq espalharam cacos e fumaça em volta. A maior livraria virtual do mundo, a Amazon.com, ainda está de pé. Mas é uma das torres que vêm sendo examinadas cuidadosamente pelos bombeiros e analistas de risco. Um estudo do banco Lehman Brothers revela que a livraria criada por Jeff Bezos acumula prejuízo de 1,2 bilhão de dólares e deve 2,1 bilhões na praça. Outro estudo, da Merrill Lynch, mostra que, em relação ao pico de preço que alcançaram nos últimos doze meses, as ações da Amazon caíram 71%. Os papéis da eToys tiveram o desabamento recorde: 95,1%. Em volta desses edifícios virtuais cuja fachada foi trincada muitos prédios menores ruíram. A loja virtual inglesa Boo, especializada em roupas de grifes populares, torrou 135 milhões de dólares e foi à bancarrota. A americana Toysmart fracassou estrondosamente como vendedora de brinquedos pela rede, apesar de ter, na retaguarda, nada menos que a Disney. Foi fechada. A Violet, um badalado site de decoração, deixou em seu endereço www o primeiro epitáfio digital da história: "Estamos fechando, mas desejamos que você continue procurando produtos exclusivos e interessantes, que trazem inspiração a nosso dia-a-dia". O que há em comum nos negócios dessas empresas pontocom?
Exemplos como o do Neoforma alucinavam os investidores e ensejavam também a ação dos espertalhões. A Securities and Exchange Commission, responsável por fiscalizar as bolsas nos Estados Unidos, investiga um fato envolvendo a empresa eConnect que ilustra o poder de propagação da euforia. Seus papéis saltaram de 1,5 dólar para 16,5 dólares em 28 de fevereiro, graças a alguns comunicados da companhia sobre negócios que estava entabulando. A companhia, que tinha fechado o ano anterior com prejuízo de mais de 20 milhões de dólares e faturamento ridículo de 40.000 dólares, passou a valer, num toque de mágica, mais de 2 bilhões de dólares na bolsa. Na semana seguinte, estava quebrada. Depois da
tormenta nos índices da Nasdaq, em abril e maio, os humores mudaram.
O dinheiro fácil secou e os investidores ficaram difíceis
de fisgar. Até o poderoso jornal americano The New York Times
cancelou a IPO de sua empresa pontocom. "O crash atingiu igualmente os
pequenos e os grandes", diz o analista Gordon Hodge, do banco de investimentos
Thomas Weisel. No começo de agosto, a America Online Latin America,
com todo o peso que sua marca lhe confere como a maior provedora de acesso
do mundo, dona de 23 milhões de assinantes, fez sua oferta pública
de ações. Conseguiu arrecadar cerca de 200 milhões
de dólares, mas ela própria teve de ficar com um terço
dos papéis. O plano original era levantar 600 milhões de
dólares. Ou seja, o mercado arisco obrigou-a a se contentar com
menos.
No Brasil, a internet enfrenta outros obstáculos, além do efeito Nasdaq. Um deles é que a rede não cresce na velocidade que as empresas gostariam. A internet requer um computador e uma linha telefônica, coisas que se tornaram muito mais baratas nos últimos anos mas ainda estão fora do alcance da grande massa da população. Segundo pesquisa do Ibope, o universo de internautas no Brasil sofreu uma freada brusca. Havia crescido 32% de dezembro a fevereiro e não avançou mais do que 4% entre fevereiro e maio. Hoje, o número de brasileiros conectados está próximo dos 5 milhões. É um público considerável, porém não suficiente para manter a profusão de sites que se vêem por aqui. Muitos tentam tirar o sustento da intermediação de vendas on-line, mas o movimento das vendas ainda é tímido. Apenas um em cada dez internautas faz compras virtuais no Brasil. Outra fonte de renda é a propaganda. Aqui também não dá para deitar, muito menos rolar. A receita com publicidade on-line, que deve fechar em 72 milhões de dólares neste ano, segundo a Jupiter Communications, não basta para sustentar todo mundo. "A internet é uma fatia pequena no orçamento de propaganda das grandes empresas", diz a vice-presidente de mídia da agência Salles D'Arcy, Maria Lúcia Cucci. Os grandes portais de acesso e conteúdo sofrem com essa combinação perversa de circunstâncias. Gerar conteúdo custa caro. Garantir que a conexão não seja um martírio para o internauta, também. "Uma situação ideal seria obter metade da receita com propaganda e comércio e a outra metade com mensalidades dos assinantes", diz Caio Túlio Costa, diretor-geral do Universo Online (UOL), a mais importante operação de internet no Brasil, com 700.000 assinantes. Outro fator que mudou o cenário da internet brasileira nos últimos meses foi o surgimento dos provedores de acesso gratuito. Para não perder assinantes, os provedores pagos tiveram de investir pesado, criando novas páginas e serviços. No caso do UOL, a reação funcionou. "Nossa carteira tem crescido 8% ao mês", diz Caio Túlio. O fato de terem bagunçado a vida dos portais pagos não significa que as empresas de acesso gratuito estejam num mar de rosas. Muito pelo contrário. Elas são hoje a grande incógnita da internet. "O modelo grátis não se sustenta sem uma idéia clara de geração de negócios rentáveis", diz Bruno Laskowsky, consultor da A.T. Kearney. "Quem o adotou deu uma valiosa contribuição para popularizar a internet, mas pode ter feito um péssimo negócio para si próprio", diz Mordejai Goldenberg, da Eccelera, empresa do grupo Cisneros que investe em projetos de internet na América Latina. O iG, portal que adotou o nome de Internet Grátis e lançou a moda do acesso gratuito, acredita que pode remar contra essas previsões. Gasta 20 milhões de dólares por ano para abastecer o site de conteúdo, consome o dobro disso em tecnologia e não cobra um centavo das pessoas que o acessam. Como esse bicho irá sobreviver? Os curiosos começarão a ser saciados em setembro, quando a empresa comandada pelo publicitário Nizan Guanaes coloca em campo um pacote de novidades. O portal, que tem o "grátis" até no nome, vai cobrar pelo conteúdo que desenvolveu para celulares wap. "O serviço gratuito só vale no acesso pelo computador", explica Nizan. "Funcionou para criar uma base grande de visitantes e uma marca forte, mas somos uma empresa como qualquer outra, e chegou a hora de ganhar dinheiro." O chefão do iG acredita que a companhia começará a dar lucro em 2002 e que tem caixa para sustentá-la até o final do próximo ano. A vida na nova internet promete ser dura para os pequenos e médios sites. Até o final do ano, o Brasil terá 400.000 endereços virtuais (um para cada doze internautas), a maioria com ambição de se tornar um negócio na rede. Há endereços para mulheres, vestibulandos, jogadores, noivas, pessoas à cata de namoro e todo tipo de público que se possa imaginar. "O Brasil ainda tem um mercado de poucos internautas e menos consumidores ainda", diz Daniel Domeneghetti, da eConsulting. "Não há espaço para tantos empreendimentos." Além de encarar uma concorrência selvagem, os projetos digitais precisam lutar contra as próprias deficiências. Muitos copiam modelos americanos sem adaptá-los ao mercado local e sem olhar quantos tiveram a mesma idéia. O país tem dezenove sites de leilões para consumidores pouco habituados aos pregões. Lojas de venda de CDs são quase sessenta, boa parte inspirada na americana CDNow, outra candidata a uma cova no cemitério digital. Embalados pela perspectiva de riqueza fácil e pelo eterno sonho de ser dono do próprio negócio, empreendedores consumiram economias, largaram o emprego, gastaram o fundo de garantia e assumiram compromissos pesados para embarcar no mundo digital. Para muitos deles, tudo não terá passado de uma miragem. A lei de mercado, que parecia ter sido abolida na nova economia, agora soa como bronze. Quem a desobedeceu pagou por isso. No Brasil, vários negócios foram punidos. O site Bem Casado (www.bemcasado.com.br) demitiu a equipe e procura um comprador. O Namorados (www.namorados.com.br) e o Zoyd (www.zoyd.com.br) juntaram os trapos para tentar conseguir alguma audiência entre os jovens e dar um jeito de ganhar dinheiro com isso. Esse ensaio de enxugamento tem tudo para, em pouco tempo, virar um processo cruel de seleção natural. Os primeiros empreendimentos que acusaram o golpe podem até dar a volta por cima. Mas é certo que haverá vítimas fatais. Enquanto milhares e milhares de pequenos sites enfrentam dificuldades, já existe um tipo de negócio digital fadado ao sucesso. São os chamados portais B2B (business to business, ou comércio entre empresas). "É o filé do comércio eletrônico", diz Peter Mintzberg, da incubadora BtoBen. Sites bem azeitados, com grandes empresas na lista dos compradores ou vendedores, têm enormes chances de dar certo. O exemplo mais forte é o das montadoras de automóveis, que estão criando estruturas bilionárias para se relacionar com seus fornecedores. No Brasil, grandes empresas como Bradesco, Votorantim, Grendene, Tigre e Atacado Martins anunciaram projetos de B2B nas últimas semanas. "Quem previa o embate da velha contra a nova economia caiu do cavalo", afirma Odecio Gregio, um dos principais executivos do Bradesco. Junto com a Votorantim e dois grandes grupos mexicanos, o Bradesco criou o LatiNexus (www.latinexus.com), que pretende ser o principal portal de comércio entre empresas da América Latina. Quem seguiu os mandamentos da velha economia tem menos probabilidade de errar. O paulista Paulo Chacur, por exemplo, entrou de sola no comércio eletrônico. Sua empresa, a Usaway, monta as lojas para os clientes. Por trás de cada uma delas, porém, está o próprio fabricante dos produtos. Ele ganha pela montagem, administração e leva uma comissão sobre as vendas. Nada muito criativo, mas ele entra no ar ganhando dinheiro desde o primeiro dia. Diferentemente daqueles que tentaram traduzir para a economia a máxima libertária do cinema novo brasileiro uma idéia na cabeça e uma câmara na mão. Para se dar bem no mercado, não basta uma idéia e um site. É preciso ser do ramo.
Com reportagem de Elen Peterson
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